Texto viral distorce dados para inventar que vacinas estão associadas a mortes nos EUA
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Texto viral distorce dados para inventar que vacinas estão associadas a mortes nos EUA

Compartilhado mais de 2 mil vezes no Facebook, artigo em blog se baseia em discurso infundado de imunologista canadense; ele faz alegações estapafúrdias, como a de que imunizantes transformam o corpo humano em receptor de Wi-fi

Victor Pinheiro

23 de junho de 2021 | 15h49

É falso que imunizantes de covid-19 foram responsáveis por mais de 4 mil mortes nos Estados Unidos. A alegação falsa circula em um artigo compartilhado no Facebook que espalha uma série de alegações enganosas e alarmistas sobre a segurança das vacinas da Pfizer e da Moderna, que empregam a tecnologia de RNA mensageiro. O boato distorce dados do sistema de farmacovigilância dos EUA, que inclui ocorrências incompletas, imprecisas e não verificadas.  

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Dentre as mentiras contidas no texto, estão boatos sobre os imunizantes espalharem uma proteína tóxica no organismo; causarem infertilidade e danos cerebrais; e até transformarem o corpo humano em receptor de Wi-fi e Bluetooth. Parte dessas alegações já foi desmentida anteriormente pelo Estadão Verifica e outros veículos de checagem de fatos.

O texto analisado destaca um discurso falso do imunologista Bryam Bridle, da Universidade de Guelph, no Canadá. Durante entrevista a um programa de rádio, ele afirmou que proteínas do vírus produzidas a partir das vacinas de RNA mensageiro (mRNA) são tóxicas e podem causar, principalmente, problemas cardiovasculares. 

Checagens do projeto Comprova e do jornal americano USA Today, no entanto, mostram que os apontamentos do professor canadense são insustentáveis e refletem interpretações equivocadas sobre estudos científicos. De acordo com agências reguladoras dos Estados Unidos e da Europa, as vacinas de mRNA, assim como outros tipos de imunizantes contra a covid, são seguras, eficazes e salvam vidas. 

Boato distorce dados de sistema de vigilância

O texto falso sugere que o discurso de Bridle poderia explicar eventos adversos relatados ao sistema de vigilância de vacinas dos Estados Unidos (VAERS), que inclui registros de 4 mil mortes e 15 mil hospitalizações. Segundo o site da plataforma, no entanto, esses dados de ocorrências não podem ser utilizados de forma isolada para determinar se a vacina foi responsável por uma reação adversa ou doença reportada.

As agências de saúde americanas incentivam que prestadores de serviços de saúde relatem qualquer problema clinicamente significativo pós-vacinação, mesmo que não esteja evidentemente relacionado ao imunizante. Todos os anos, o VAERS recebe cerca de 30 mil ocorrências, segundo o Centro de Controle de Doenças Infecciosas americano (CDC).

Os dados são monitorados por especialistas da instituição. Caso seja detectada uma quantidade de eventos adversos fora do padrão esperado, a agência promove uma investigação mais ampla a partir da análise de documentos médicos e de outras plataformas de monitoramento para avaliar se a ocorrência tem alguma relação com a vacina. 

“Os relatos [do VAERS] podem incluir informações incompletas, imprecisas e não verificadas”, destaca o site da ferramenta. “Os dados do VAERS não representam todas as informações de segurança sobre uma vacina e devem ser interpretados no contexto de outras informações científicas”.

Segundo o CDC, após a aplicação de mais de 317 milhões de doses de vacinas nos EUA, o monitoramento farmacológico dos imunizantes aplicados no país reafirma que os produtos são seguros e eficazes no combate à covid-19. O Estadão já verificou um boato semelhante relacionado ao sistema de notificações de eventos adversos da Anvisa. 

Por que as alegações de Bridle são infundadas

As vacinas de RNA mensageiro carregam parte do material genético do coronavírus com instruções para as células humanas reproduzirem a proteína da espícula do agente infeccioso, a proteína S. É essa estrutura que o vírus usa para se “agarrar” a nossas células. O processo de vacinação ativa a resposta imunológica do nosso corpo, que passa a produzir anticorpos contra o principal instrumento de ação do vírus para invadir as células. 

Ao contrário do que afirma Bridle, não há evidências confiáveis de que as proteínas produzidas pela vacinação sejam prejudiciais aos pacientes. Ele afirma que um estudo da Pfizer conduzido no Japão identificou a proteína spike do vírus na corrente sanguínea e nos órgãos de vacinados. O imunologista sugere que isso poderia ser um indício de que os imunizantes podem causar problemas reprodutivos. Mas não é bem assim.

Como mostra reportagem do Comprova, a pesquisa avaliou a distribuição dos componentes da vacina em células de laboratório e no organismo de ratos e camundongos. O trabalho, entretanto, não faz nenhum alerta sobre riscos à saúde, tampouco aponta indícios de que o imunizante tem o potencial de provocar infertilidade em mulheres, como diz Bridle. 

A Food and Drugs Administration (FDA), órgão sanitário americano equivalente à Anvisa, afirma que não há evidências de que a vacina da Pfizer possa desencadear problemas reprodutivos. Ao USA Today, a farmacêutica afirmou que a pesquisa é parte da documentação de estudos laboratoriais entregue à agência reguladora de medicamentos do Japão e negou que o relatório aponte que a vacina produz proteínas tóxicas.

Documento

Bridle ainda distorce os resultados de estudo em revisão no periódico científico Clinical Infectious Diseases que analisou amostras de plasma sanguíneo em 13 pacientes vacinados com o imunizante da Moderna. Segundo ele, a pesquisa aponta que a proteína spike continua no corpo até 28 dias após a vacinação e que a substância permanece na corrente sanguínea podendo provocar danos cardiovasculares. 

O artigo levanta a hipótese de que a ação de células T pós vacinação podem resultar em uma “liberação adicional” de proteínas spike na corrente sanguínea. Ao USA Today, no entanto, um dos coautores do estudo nega que isso seja uma evidência de que as vacinas causam danos à saúde.

O professor da escola de medicina da Universidade de Harvard David Walt destaca que, mesmo com o fenômeno, o baixo nível de concentração dessas proteínas no sangue sugere que não há motivos para preocupação. Os resultados, na verdade, apontam para a eficácia do imunizante.

Agências reguladoras já registraram eventos adversos raros de trombose, a formação de coágulos que afetam o fluxo sanguíneo, após vacinação com imunizantes de tecnologia de adenovírus da Oxford-Astrazeneca e da Janssen. Os produtos ainda são recomendados para imunizar pacientes contra a covid, uma vez que a incidência do evento adverso é muito baixa e os benefícios das vacinas superam os riscos inerentes à doença.

Notificações de miocardite

Em tom alarmista, o conteúdo falso afirma que o CDC admitiu estar investigando distúrbios cardíacos leves após a vacinação com imunizantes de RNA mensageiro. Uma página informativa do CDC aponta que, desde abril, foi observado um aumento nas notificações de miocardite, uma inflamação no músculo cardíaco, entre adolescentes que receberam a segunda dose de vacinas. 

A agência ainda investiga se os eventos têm de fato alguma relação com os imunizantes de covid-19 e mantém a recomendação para que adolescentes acima de 12 anos sejam vacinados. A maioria dos pacientes que apresentaram a condição clínica foram medicados e se recuperaram rapidamente. Segundo o CDC, os benefícios já conhecidos da imunização contra a covid-19 superam os potenciais riscos de efeitos adversos, inclusive de miocardite. 

Vacinas não promovem magnetismo

O conteúdo enganoso ainda espalha o boato completamente falso de que as proteínas spike das vacinas de RNA são magnetizadas e em conjunto com “biopolímeros de bases metálicas” tornarão o corpo das pessoas inoculadas em um “receptor-emissor para equipamentos conectados à internet, wifi, bluetooth”. Não há, porém, qualquer evidência confiável que corrobore com o boato.

Uma reportagem da agência EFE Verifica traduzida pelo Estadão mostrou que é fisicamente impossível que vacinas tenham soluções metálicas magnéticas. Nenhum dos componentes dos imunizantes contra covid da Pfizer, da Moderna e outras fabricantes tem propriedades com essa característica. As fichas técnicas dos produtos são públicas e passaram pela análise de segurança de diversas agências sanitárias no mundo, como a Food and Drugs Administration, nos EUA, e Organização Mundial da Saúde. 

Já uma matéria do projeto Fato ou Fake, do portal de notícias G1, desmontou boatos de que vacinados poderiam ser conectados a redes bluetooth ou wi-fi. Especialistas ressaltaram que o organismo humano não gera ondas de rádio, que são necessárias para estabelecer conexões com tais redes de comunicação.

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