Vídeo institucional exibido em evento com Bolsonaro distorce dados sobre covid-19 e desinforma
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Vídeo institucional exibido em evento com Bolsonaro distorce dados sobre covid-19 e desinforma

Presidente participou de solenidade em Chapecó; ao discursar, voltou a defender medidas sem eficácia contra a pandemia

Tiago Aguiar e Victor Pinheiro, especial para o Estadão

07 de abril de 2021 | 19h57

Um vídeo institucional da Prefeitura de Chapecó veiculado em evento com o presidente Jair Bolsonaro nesta quarta-feira, 7, distorce e omite fatos a respeito do combate à pandemia no município e a adoção do “tratamento precoce” para covid-19, que inclui protocolos de medicamentos sem eficácia e segurança comprovada. O vídeo foi veiculado no perfil oficial do Palácio do Planalto nas redes sociais.

No início da semana, Bolsonaro já havia sinalizado que visitaria a cidade após compartilhar um vídeo em que o prefeito João Rodrigues (PSD) mostra leitos de enfermaria vazios e atribui uma suposta queda no número de internações no município ao uso do tratamento precoce. 

O Presidente Jair Bolsonaro visitou, na manhã desta quarta-feira, 7, as instalações do Centro Avançado de Atendimento Covid-19, em Chapecó (SC). Foto: Alan Santos/PR

Como mostrou o Estadão, no entanto, os índices de ocupação de Unidades de Tratamento Intensivo (UTI) em Chapecó ainda estão próximos da capacidade total. Nesta terça-feira, 90% dos leitos em UTIs públicas e 93% das vagas em UTIs privadas estão ocupadas. Com 544 mortes por covid-19, sendo mais de 75% registradas neste ano, a cidade tem uma taxa de mortos por 100 mil habitantes superior à média nacional. São 243 óbitos causados por coronavírus a cada 100 mil habitantes, enquanto o País tem índice de 157,7 mortes por 100 mil.

Além disso, Bolsonaro e Rodrigues omitiram que a cidade adotou medidas restritivas de circulação em meio ao colapso do sistema de saúde entre fevereiro e março. O governo restringiu o funcionamento de atividades não essenciais e instaurou toque de recolher. 

Documento

Aos números

A Prefeitura de Chapecó destaca no vídeo que o número de casos ativos na cidade diminuiu de 5.555 para 392, em 30 dias. Esses dados, de fato, estão descritos nos boletins epidemiológicos dos dias 04 de março e 05 de abril, disponíveis no site e em redes sociais da administração municipal. O relatório divulgado nesta terça-feira, por outro lado, já mostrou um novo aumento para 606 ocorrências. 

Ao todo, o número de infectados com o coronavírus na cidade subiu de 27.364 para 33.853 (alta de 23,7%), nas datas consideradas no vídeo institucional. As mortes por covid-19 foram de 321 para 537, aumento percentual de 67,2% nesse mesmo período.

De qualquer forma, a conexão de dados epidemiológicos com o uso de medicamentos sem eficácia comprovada é insustentável. Em reportagens anteriores, médicos infectologistas explicaram ao Estadão Verifica que diversos fatores podem contribuir para evolução favorável ou desfavorável de uma doença – portanto, não é possível estabelecer uma relação de causa e efeito do medicamento apenas observando os números epidemiológicos. 

No caso da covid-19, grande parte dos pacientes se recupera sem a necessidade de intervenções, o que dificulta a mensuração do impacto dos protocolos adotados. O método adequado para medir a eficácia e também a segurança de um tratamento farmacológico é a realização de estudos clínicos randomizados, porque nessas pesquisas os cientistas aplicam ferramentas para minimizar interferências externas. 

O Estadão Verifica já desmentiu boatos semelhantes a respeito de São Lourenço (MG), Maxaranguape (RN) e São Pedro dos Crentes (MA).

Expansão hospitalar

O vídeo da prefeitura apresenta informações corretas sobre a expansão de leitos hospitalares na cidade. Em fevereiro, o Centro de Eventos de Chapecó foi transformado em um Centro Avançado de Atendimento à Covid-19 (CAAC). O estabelecimento abrigou inicialmente 35 leitos de enfermaria e depois recebeu uma segunda ala, com 40 vagas, além de 20 leitos de Unidades de Terapia Semi-Intensiva (UTSI)

O local é retratado no vídeo divulgado por Rodrigues na semana passada, no qual o prefeito mostra leitos vazios de UTI. As duas alas de enfermaria foram desativadas recentemente, enquanto cinco pacientes ainda estão internados na UTSI, segundo boletim da prefeitura desta quarta-feira. O governo ressaltou em rede social que a desativação da enfermaria 2 ocorreu após quase 100 altas e 80 transferências de pacientes. 

Sobre o Hospital Regional do Oeste (HRO), uma nota do hospital mostra que, em dezembro, o complexo contava com 35 leitos de terapia intensiva. Em março, a unidade de saúde já contava com 62 vagas de UTI, quando anunciou uma nova expansão para 108 leitos. De acordo com dados da prefeitura, nesta quarta-feira, 93% dos leitos de UTI do HRO estavam ocupados. 

Ao todo, atualmente Chapecó possui 125 leitos de UTI para pacientes com covid-19.

Taxa de ocupação

Segundo o vídeo da prefeitura, houve uma redução de mais de 50% na ocupação de vagas de UTI por chapecoenses. Os boletins epidemiológicos da cidade, no entanto, não segmentavam a origem dos pacientes até o documento divulgado ontem. Nesta quarta, o relatório mudou e passou a informar especificamente quantos internados são da cidade ou de outras regiões.

O vídeo omite ainda que a expansão da infraestrutura hospitalar tem um impacto significativo sobre as taxas de ocupação de leitos na cidade. Isso acontece porque o índice é calculado a partir da divisão do número de pacientes internados por dia em UTI pelos leitores operacionais por dia.

Documento

O Hospital Regional do Oeste confirmou que até segunda-feira, 5, 50% dos leitos de UTI-Covid estavam ocupados por chapecoenses. No entanto, o Hospital atende toda a região oeste de Santa Catarina.

Considerando a ocupação geral das UTIs para pacientes de covid-19 do HRO, não houve redução alguma. No dia 4 de março, 100% dos leitos eram usados, mesmo índice do dia 5 de abril. Nesta terça-feira, 93% dos leitos de terapia intensiva da unidade hospitalar estavam ocupados. O boletim epidemiológico do município não divulga o número de pacientes internados no hospital nessas datas, apenas a taxa de ocupação.

Em todo o município, o número de internados com covid em UTIs subiu de 124, no dia 4 de março, para 129, no dia 5 de abril, alta de 4%. O número de pacientes de coronavírus em UTIs públicas foi de 88 para 103 entre essas datas, aumento de 17%.

Estadão Verifica entrou em contato com a prefeitura de Chapecó sobre a conclusão desta checagem, mas ainda não obteve resposta./ COLABOROU Luis Lopes, especial para o Estadão.

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