Prefeito de cidade em MG faz conexão insustentável entre número de mortes de covid-19 e ‘tratamento precoce’

Prefeito de cidade em MG faz conexão insustentável entre número de mortes de covid-19 e ‘tratamento precoce’

Não há evidências confiáveis que demonstrem supostos benefícios do protocolo de medicamentos aplicados em São Lourenço

Victor Pinheiro, especial para o Estadão

16 de março de 2021 | 19h52

Texto alterado em 17 de março, 10:43, para incluir posicionamento do prefeito Walter Lessa. O texto anterior trazia o posicionamento da assessoria da prefeitura de São Lourenço.

É falso que a cidade de São Lourenço (MG) não tenha registrado nenhum caso de morte ou internação por covid-19 desde 21 de fevereiro graças ao “tratamento precoce”, diferentemente do que sugerem publicações em sites e redes sociais. 

Em vídeo publicado nesta terça-feira, 16, pelo deputado estadual Bruno Engler (PRTB-MG), o prefeito da cidade mineira, Walter Lessa (PTB), faz uma conexão insustentável entre o uso de substâncias sem eficácia comprovada para a prevenção e tratamento da doença e dados epidemiológicos do município. 

O boato viralizou no mesmo dia em que o governador do Estado, Romeu Zema (Novo), anunciou medidas mais restritivas para conter a pandemia em Minas Gerais. Médicos e pesquisadores, no entanto, já afirmaram ao Estadão que é incorreto associar a observação dos números de ocorrências da covid-19 com a eficácia de medicamentos, porque outros fatores poderiam impactar no resultado.

Centro da cidade de São Lourenço. Foto de 2014. Foto: Marcio Sette/Wikimedia Commons

Para de fato atestar se um remédio promove benefícios a pacientes com covid-19, são necessários ensaios clínicos bem estruturados com metodologias rigorosas que possam excluir vieses e interferências aleatórias da análise. No caso da covid-19, o desafio é ainda maior, uma vez que a grande maioria dos pacientes infectados com o coronavírus se recuperam sem a necessidade de intervenção médica. Isso explica também porque relatos pessoais de pacientes não têm validade para determinar se um medicamento realmente funcionou ou não teve efeito algum.

Os próprios dados epidemiológicos de São Lourenço contradizem o discurso do prefeito. De acordo com boletins divulgados pela secretaria de saúde municipal, em 21 de fevereiro, a cidade registrava 47 óbitos confirmados por covid-19 e dois pacientes internados em UTI. Já o relatório de 15 de março aponta 50 mortes. Ou seja, foram registradas ao menos três ocorrências neste intervalo. 

Boletim Covid-19 Prefeitura de são Lourenço

Boletim com dados epidemiológicos da prefeitura de São Lourenço disponível no site da administração municipal.

A plataforma de dados do Governo de Minas Gerais indica um salto de 31 para 45 notificações de óbitos no período. Essas informações, no entanto, consideram a data em que as mortes foram notificadas, e não exatamente quando elas aconteceram. Os dados de mortes de covid-19 por data de ocorrência em São Lourenço indicam dois óbitos no dia 21 de fevereiro e uma morte em 08 de março. 

A cidade, com cerca de 46 mil moradores, registra taxa de 98 mortes por covid-19 a cada 100 mil habitantes. A capital do Estado, Belo Horizonte, tem 115 mortes a cada 100 mil habitantes. Outras cidades mineiras com tamanho da população semelhante ao de São Lourenço têm índices de mortalidade menores: Santos Dumont (88/100 mil) e Diamantina (23/100 mil).

Ausência de estudos científicos de qualidade

Lessa cita, no vídeo, os medicamentos ivermectina, azitromicina, dexametasona, além da vitamina D e do zincoquelato. Apesar do prefeito defender a eficácia das substâncias, o protocolo de atendimento enviado pela assessoria da prefeitura de São Lourenço ao Estadão Verifica apresenta um termo de aceitação em que o paciente deve reconhecer que o protocolo é “experimental por ausência de estudos científicos de alta qualidade”. 

Um informe publicado em janeiro pela Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) aponta que “as melhores evidências científicas demonstram que nenhuma medicação tem eficácia na prevenção ou no “tratamento precoce” para a COVID-19 até o presente momento”. O painel de evidências da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), por sua vez, afirma que ainda faltam dados confiáveis para sustentar os benefícios da ivermectina, da vitamina D ou do zincoquelato contra o coronavírus.

A recomendação original de uso da ivermectina presente em bula é voltada para tratamento de infecções causadas por parasitas Foto: Prefeitura de Itajaí

Já o uso da dexametasona é indicado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) apenas para pacientes em estado grave, que necessitam de ventilação artificial. Segundo painel  da entidade publicado na revista British Medical Journal, não há evidências suficientes para recomendar o medicamento para pessoas não hospitalizadas. 

Os Institutos Nacionais de Saúde (NIH) dos Estados Unidos, inclusive, recomendam contra a aplicação do corticóide para pacientes não hospitalizados ou aqueles que não necessitam de ventilação auxiliar. Vale ressaltar ainda que o uso indiscriminado da substância pode provocar problemas de saúde.

Outro lado

Em contato com o Estadão Verifica por telefone, Walter Lessa reafirmou sua posição sobre o tratamento precoce. Ele disse que ocorreu uma morte por covid-19 no município no período, mas que essa pessoa não seguiu os protocolos. O gestor público argumenta também que o Hospital de São Lourenço atende a macrorregião do sul de Minas e que não há pacientes moradores da cidade internados na UTI.

O prefeito diz que o protocolo foi adotado após suas observações clínicas e discussões com a equipe da prefeitura. “É melhor fazer alguma coisa do que fazer nada”, justifica. Ele diz que não conhece casos de mortes por reação adversa dos medicamentos. Em reportagem recente do Estadão, a médica infectologista da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) Maria Branco ressaltou que o uso indiscriminado de ivermectina pode causar danos ao fígado.

Lessa ainda pontuou que defende a vacina e que adotou medidas de combate à pandemia, como restrições de horário para o comércio.

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