Postagens insistem na divulgação de ‘tratamentos precoces’ ineficazes contra covid-19
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Postagens insistem na divulgação de ‘tratamentos precoces’ ineficazes contra covid-19

Nas redes sociais, usuários continuam a recomendar o uso de remédios sem comprovação científica contra o novo coronavírus, como cloroquina e ivermectina

Pedro Prata

03 de março de 2021 | 16h24

São falsas postagens no Facebook que insistem já haver uma “cura para a gripe da China”, referindo-se à covid-19. Até o momento não há nenhum medicamento capaz de curar a doença causada pelo novo coronavírus. Os remédios mostrados na postagem — zinco, ivermectina, hidroxicloroquina, azitromicina, nitazoxanida e vitamina D — já foram alvo de várias checagens anteriores do Estadão Verifica. Este conteúdo foi compartilhado ao menos 4 mil vezes.

Até o momento não há tratamento precoce comprovado contra a covid-19. Foto: Reprodução

Até o momento não existe nenhum tratamento precoce para a covid-19. As melhores formas de se prevenir são o uso de máscara, distanciamento social e a higienização das mãos. Outra medida eficaz para achatar a curva de transmissão do novo coronavírus é a vacinação, que havia alcançado mais de 7.106.147 de brasileiros até 2 de março, segundo o consórcio de veículos de imprensa.

A postagem ainda utiliza o termo “gripe da China” para se referir à covid-19. O uso de termos alarmistas ou jocosos e a presença de erros ortográficos acendem o sinal de alerta de que a postagem pode ser uma peça de desinformação.

Esta checagem foi feita com informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 2 de março de 2021.

Cloroquina e hidroxicloroquina

Nesta terça-feira, 2, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendou “fortemente” que a hidroxicloroquina não seja utilizada como prevenção contra a covid-19 e deixe de ser prioridade em pesquisas científicas. A decisão foi tomada após seis estudos com 6 mil pacientes mostrarem que a droga não teve efeito significativo na redução de casos e “provavelmente” aumenta o risco de efeitos adversos.

A cloroquina foi desenvolvida na década de 1930 pela empresa alemã Bayer e recebeu o nome comercial Resochin. Ela tem uso regulamentado para tratar pacientes com malária, lúpus e artrite reumatoide. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e a Food and Drugs Administration (FDA), dos Estados Unidos, não recomendam seu uso contra a covid-19.

Anvisa alerta para falta de comprovação da eficácia de tratamento precoce contra a covid-19. Foto: Anvisa/Reprodução

Na reunião em que foi aprovado o uso emergencial das vacinas Sinovac e de Oxford, os diretores da Anvisa refutaram a existência de tratamento precoce contra a covid-19. Na contramão da visão técnica, o governo federal comprou grandes quantidades do medicamento com dinheiro do Sistema Único de Saúde (SUS), medida considerada “ilegal” por auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU).

Ivermectina e azitromicina

A ivermectina é um medicamento utilizado para tratar infestações de parasitas como piolho e sarna. Como o Estadão Verifica já mostrou, o fármaco entrou no panorama da pandemia depois que uma pesquisa da universidade de Monash, na Austrália, identificou que uma dose do medicamento reduziu em até 100% a presença do novo coronavírus em uma cultura de células.

No entanto, o grupo de pesquisadores ressalta que o remédio não pode ser usado para tratar a covid-19 até que sejam concluídos testes clínicos para se comprovar a sua eficiência em dosagens seguras para os seres humanos. “O potencial uso de ivermectina para tratamento do coronavírus permanece não provado e depende de testes clínicos para avançar”, disse a universidade.

A FDA, dos Estados Unidos, ressalta que “qualquer uso de ivermectina para prevenção ou tratamento da covid-19 deve ser evitado, visto que não houve registro de benefícios e de sua segurança” para este fim. A Anvisa esclarece que “não existem estudos conclusivos que comprovem o uso desse medicamento para o tratamento da covid-19, bem como não existem estudos que refutem esse uso”. A agência pontua que até o momento não existem tratamentos comprovados para a infecção pelo novo coronavírus.

Por sua vez, a azitromicina é um antibiótico — isto é, medicamento utilizado para combater infecções causadas por bactérias. A medicação foi combinada aos antimaláricos cloroquina e hidroxicloroquina em estudos laboratoriais, mas também não teve eficácia comprovada contra a covid-19 — causada por um vírus.

Zinco e vitamina D

A sugestão de que a vitamina D seria benéfica para pacientes com covid-19 surgiu após médicos italianos notarem que muitos pacientes graves apresentam déficit desta vitamina. Conforme mostrou o Estadão, a suplementação de vitamina D só foi benéfica em pacientes que apresentavam um déficit muito acentuado do nutriente. Além disso, a suplementação só deve ser consumida por prescrição médica, tendo em vista o risco de formação de cálculos nos rins.

O Ministério da Saúde já desmentiu que zinco e vitamina D fossem tratamento eficaz contra a covid-19. Mesmo assim, a receita continua sendo compartilhada nas redes sociais. O Estadão Verifica já havia desmentido um vídeo viral com esta falsa associação.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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