Prefeito no MA distorce dados para defender ‘tratamento precoce’ e criticar respiradores

Prefeito no MA distorce dados para defender ‘tratamento precoce’ e criticar respiradores

Município de São Pedro dos Crentes registrou dois óbitos de covid-19, mas especialistas afirmam que não é possível associar os números da cidade ao uso de medicamentos sem eficácia comprovada

Victor Pinheiro, especial para o Estadão

10 de março de 2021 | 19h20

Alterado em 15 de março para incluir a resposta do prefeito Lahesio Bonfim

Circula nas redes sociais trecho de uma entrevista do prefeito de São Pedro dos Crentes (MA), Lahesio Bonfim (PSL-MA), em que o político faz conexões insustentáveis entre a taxa de mortalidade de covid-19 no município e o uso dos medicamentos ivermectina e azitromicina na prevenção e tratamento da doença. Não há comprovação científica que ateste a eficácia desses dois remédios contra a infecção do novo coronavírus

Formado em medicina pela Universidade Federal do Piauí, Bonfim apresenta uma interpretação distorcida sobre os dados de mortalidade de pacientes com covid-19 intubados, para afirmar que os respiradores são responsáveis pelas mortes. Médicos intensivistas consultados pelo Estadão Verifica, no entanto, indicam que o discurso do prefeito é descabido e ressaltam a importância desses equipamentos no atendimento a pessoas com casos graves da doença. 

Procurado, Lahesio Bonfim reafirmou seus posicionamentos. Ele defendeu a relação médico paciente e voltou a por em dúvida a eficácia dos respiradores. Leitores solicitaram a checagem deste conteúdo pelo WhatsApp do Estadão Verifica, 11 97683-7490

Número de casos na cidade não prova que ivermectina funciona

Para sustentar sua argumentação, o prefeito pontua que São Pedro dos Crentes registra apenas três óbitos por covid-19 há sete meses e que os casos no município estão controlados, apesar de a população não ser obrigada a usar máscara. “Aqui está dando certo porque o povo não está morrendo. Só pode ter sido porque o povo ora muito. Ou é por conta da azitromicina e ivermectina, ou é Jesus”, disse Bonfim durante a entrevista. 

Dados da plataforma SUS Analítico indicam que a cidade, com população estimada em 4,6 mil habitantes, registrou dois óbitos e 301 casos confirmados do novo coronavírus. A última morte contabilizada ocorreu em agosto de 2020. De acordo com especialistas, porém, não é possível associar o número de casos à administração de qualquer medicamento. 

O professor de epidemiologia da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) Antônio Silva explica que para avaliar a eficácia do medicamento seria preciso conduzir um ensaio clínico controlado e randomizado. “Dados observacionais de mortalidade [como esses] não servem para avaliar a eficácia de medicamentos, pois muitos outros fatores interferem no resultado”, afirma. 

A médica infectologista e professora da UFMA Maria Branco reforça que os números de mortalidade no município não atestam a eficácia da ivermectina ou da azitromicina. Ela destaca ainda que pode haver subnotificação dos óbitos na cidade devido à escassez de exames de diagnóstico.

Declaração perigosa

Bonfim admite na entrevista que a ciência não garante os benefícios da ivermectina e da azitromicina contra a covid-19. Ainda assim, ele justifica sua defesa do protocolo de com o ditado popular “o que não mata, engorda”. Para Maria Branco, o discurso do prefeito é perigoso, uma vez que a ivermectina e a azitromicina podem provocar efeitos adversos nos pacientes.

“A ivermectina pode causar problemas no fígado. A azitromicina é um medicamento que pode dar alteração cardíaca”, pontuou a professora. Ela destaca ainda que a azitromicina consiste em um antibiótico e o uso descontrolado da substância pode gerar uma seleção de bactérias resistentes e dificultar o tratamento de infecções futuras. 

Em nota divulgada em janeiro, a Sociedade Brasileira de Infectologia afirma que “as melhores evidências científicas demonstram que nenhuma medicação tem eficácia na prevenção ou no “tratamento precoce” para a covid-19 até o presente momento”. Já o painel de evidências da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), publicado em fevereiro, indica que são necessários mais estudos clínicos com nível de confiança adequado para atestar a eficácia da ivermectina. 

Sobre a azitromicina, o documento diz que o antibiótico “provavelmente” não oferece benefícios para a resolução de sintomas. 

Taxa de mortalidade de respiradores

O discurso do político ainda sugere que respiradores usados em unidades de terapia intensiva para assistir pacientes com covid-19 são ineficazes e promovem a mortalidade dos internados. “De cada 10 pacientes [intubados], 8,2 morrem. Morrem por conta do tubo. […] Respirador também serve para alguma coisa?”, diz o prefeito de São Pedro dos Crentes.

As estatísticas mencionadas por ele são semelhantes aos dados de um estudo recentemente publicado na revista científica The Lancet, que identificou uma taxa de mortalidade de 80% de pacientes de covid-19 submetidos à ventilação mecânica no Brasil. A pesquisa, no entanto, não se propôs a avaliar a eficácia da terapia ou comparar a intubação com outros procedimentos clínicos, como faz Bonfim no vídeo. 

De acordo com o epidemiologista do Instituto para a Saúde Global de Barcelona e primeiro autor da pesquisa, Otavio Ranzani, a proporção de óbitos entre os pacientes ventilados não permite tirar conclusões sobre a eficácia da ventilação. O especialista ressalta que a terapia oferece suporte ao pulmão diante do mau funcionamento do órgão em casos muito severos da doença e, na maioria das vezes, é essencial para a sobrevivência do paciente.

“Podemos discutir melhor o momento de intubação e parâmetros do ventilador, mas não questionar se é uma terapia que é ou não eficaz contra a covid-19 grave”, pontua. 

Sequelas

Lahesio Bonfim ainda cita que 25% dos pacientes intubados que se recuperam e deixam o hospital morrem por sequelas da internação posteriormente. A afirmação se refere a dados preliminares de uma pesquisa da Coalizão Covid Brasil*, uma rede que reúne pesquisadores de hospitais e institutos de pesquisa brasileiros. 

Segundo Regis Rosa, médico intensivista e membro do Comitê Executivo da Coalizão Covid Brasil, embora a ventilação mecânica possa provocar efeitos adversos, não é possível atribuir a taxa de mortalidade de pacientes na UTI ou sequelas pós-internação aos respiradores. Ele explica que o procedimento representa, na verdade, um marcador da severidade da doença. 

“O que aumenta o risco de morte é a severidade da doença. Se não fosse dada a ventilação mecânica para essa população, a taxa de mortalidade provavelmente seria ainda maior”, reforça o médico. De acordo com o pesquisador, os dados do estudo mostram que o paciente que superou a covid-19 após a ventilação mecânica deve desenvolver um cuidado de reabilitação e prevenir a deterioração da saúde. 

Além disso, Ranzani e Regis Rosa destacam que a experiência médica no procedimento é fundamental. Segundo eles, a oferta de médicos adequadamente treinados para realizar a intubação corresponde a um fator decisivo para reduzir a taxa de mortalidade de pacientes submetidos à ventilação mecânica. 

Outro lado

Ao Estadão Verifica, Lahesio defendeu que não é correto “fazer somente a medicina baseada em evidências” e que a relação médico e paciente deve ser respeitada.

O prefeito também defende que a média de casos em sua cidade está em conformidade com a média nacional, mas o índice de mortes “é fora da curva”, embora existam municípios no Maranhão com índices de letalidade menores, segundo site do governo do Maranhão.

Sobre os respiradores, Bonfim diz que não há evidências da eficácia dos respiradores. Mas especialistas afirmaram ao Verifica que o recurso revolucionou a medicina intensiva e que há evidências do benefício da terapia no suporte contra doenças respiratórias. Eles disseram ainda que ensaios clínicos com pacientes seriam antiéticos, pois o grupo de controle deixaria de receber um suporte médico potencialmente decisivo para sua recuperação.

* A Coalizão COVID-19 Brasil é uma aliança formada por Hospital Israelita Albert Einstein, HCor, Hospital Sírio-Libanês, Hospital Moinhos de Vento, Hospital Alemão Oswaldo Cruz, BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, o Brazilian Clinical Research Institute (BCRI) e Rede Brasileira de Pesquisa em Terapia Intensiva (BRICNet), que desenvolve pesquisas para avaliar a eficácia e a segurança de potenciais terapias para pacientes infectados pelo coronavírus.

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