Texto mistura boatos sobre covid-19 e confunde autor de recomendações médicas
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Texto mistura boatos sobre covid-19 e confunde autor de recomendações médicas

Tuítes do infectologista Faheem Younus foram compartilhados nas redes sociais juntamente com informação falsa sobre novo coronavírus

Pedro Prata

29 de maio de 2020 | 16h42

Um texto em formato de lista com “17 reflexões e conselhos sobre como lidarmos com a atual pandemia da covid-19” confunde ao misturar recomendações médicas verídicas e boatos. O Estadão Verifica encontrou 14 das alegações no Twitter do doutor Faheem Younus, encarregado pelo departamento de doenças infecciosas do centro médico Upper Chesapeake Health da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos. Ele publica checagens de boatos em sua rede social para ajudar a combater a desinformação sobre a pandemia.

Mensagens foram retiradas do Twitter de Faheem Younus e algumas foram alteradas. Foto: Pixabay/@nastya gepp/@Divulgação

O post foi compartilhado no Facebook e no Twitter em diferentes versões e chegou a viralizar na Índia. Uma versão com pequenas alterações alega falsamente que as recomendações foram feitas por Robert R. Redfield, diretor do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês).

Tradução: “É provável que a gente tenha que conviver com a pandemia por meses. Não negue e não entre em pânico. Aprenda a viver feliz e se adapte ao novo estilo de vida”

Post contém boatos sobre a covid-19

Algumas das recomendações não foram publicadas por Faheem Younus e possuem informações falsas.

Uma das alegações diz que “usar a máscara por longos períodos interfere nos níveis de respiração e oxigênio. Use-o apenas na multidão”. O Estadão Verifica já desmentiu este boato, em parceria com o Projeto Comprova já desmentiu este boato: tanto máscaras cirúrgicas quanto artesanais, feitas de pano, dispõem de filtros que permitem a passagem do oxigênio e filtram partículas que possam estar infectadas pelo novo coronavírus. Usadas em acordo com as recomendações médicas, as máscaras são recomendadas para reduzir as taxas de transmissão do novo coronavírus.

Os especialistas consultados pelo Comprova lembram que é necessário trocar as máscaras em intervalos regulares. ““Elas ficam úmidas, pelo ato de falar, transpirar e acabam perdendo o papel de proteção”, explicou o infectologista Jean Gorinchteyn, do Hospital Emílio Ribas.

Outra publicação do infectologista Younus foi traduzida de forma imprecisa. “Pacotes de compras, garrafas de gás, carrinhos de compras ou caixas eletrônicos não causam infecção. Lave as mãos e viva sua vida normalmente”, diz o post.

O infectologista de Maryland disse não ser necessário evitar o contato com embalagens de alimentos e carrinhos de supermercado desde que seja observada a recomendação de lavar as mãos após pegar nestes objetos e não levar as mãos ao rosto.

Confira a seguir os tuítes realmente publicados por Faheem Younus:

Alegação: “Você não pode destruir o coronavírus que penetrou em suas células bebendo muita água. Você só irá ao banheiro com mais frequência”

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), embora se manter hidratado seja importante para a saúde de forma geral, beber água não previne a infecção pelo coronavírus.

Alegação: “O vírus não reduzirá seus efeitos no verão. Foi verão no Brasil e na Argentina, mas o vírus se espalhou rapidamente por lá.”

O infectologista tuitou essa mensagem em 16 de maio para responder a boatos de que o ritmo dos contágios nos Estados Unidos diminuiria com a chegada da época de calor no hemisfério norte — lá, o verão começará entre os dias 20 e 21 de junho. “O vírus se espalhou silenciosamente no Brasil enquanto as temperaturas estavam na casa dos 30º C”, rebateu Younus.

O Brasil registrou oficialmente a primeira morte por covid-19 em 17 de março, três dias antes de entrar no outono.

Alegação: “Covid-19 não distingue raça, religião ou idade. Ela é transmitida a todas as pessoas”

Embora o Estadão Verifica não tenha encontrado esta afirmação em nenhuma publicação em redes sociais do virologista, ele falou algo muito semelhante: “A covid-19 não comete discriminação. O coronavírus não pergunta se você é branco ou negro, republicano ou democrata, nativo ou imigrante, rico ou pobre. Ele só pergunta: você é humano?”

Alegação: “Lavar as mãos e manter uma distância de dois metros é o melhor método para se proteger contra o coronavírus. Se você não tem um paciente infectado com covid-19 em sua casa, não há necessidade de desinfetar as superfícies da sua casa”

O virologista afirmou em seu Twitter que não é necessário desinfetar as maçanetas da casa constantemente para se evitar o contágio dentro do lar — desde que as outras recomendações sanitárias sejam observadas.

Tradução: “A covid-19 não é uma infecção alimentar. Ela está associada à transmissão por gotículas (como a gripe), não por infecção alimentar (como, por exemplo, a salmonela). Não há risco demonstrado de que a covid-19 seja transmitida pelo manuseio de alimentos.”

Alegação: “Sessões de sauna não matam o coronavírus”

Faheem Younus negou que a sauna eliminaria 90% dos tipos de vírus, entre eles o coronavírus: “Não há testes científicos que comprovem a validade desta afirmação.”

Alegação: “Você pode perder sua percepção de olfato devido a alergias e infecções virais. Este não é um sintoma específico da covid-19”

“A perda temporária de olfato é um sintoma comum a muitas alergias e infecções”, disse Younus. Assim, este sintoma não é exclusividade da covid-19.

Alegação: “Uma vez em casa, não precisamos trocar de roupa com urgência e tomar banho. Limpeza é uma virtude, paranoia não”

O infectologista sugeriu ser necessário evitar tom alarmista. “Não vamos assustar as pessoas. Nosso principal foco deve ser em lavar as mãos, distanciamento de 1,5 metro e evitar aglomerações”, escreveu.

Alegação: “Sabonete comum é eficiente contra covid-19”

Younus escreveu que não é necessário comprar sabonetes bactericidas que podem custar mais caro: “O coronavírus não é uma bactéria. Use sabonete comum.”

Alegação: “Você não precisa se preocupar com seus pedidos de comida preparada (pizzas, paellas, hambúrgueres, etc.). Mas se você quiser alimentos processados, pode aquecê-los um pouco no microondas para sua paz de espírito”

“Não há registro de nenhum caso de contaminação de covid-19 por meio da comida”, escreveu Younus. Ele respondeu ao temor de que pessoas infectadas poderiam passar o vírus para os alimentos.

Alegação: “A possibilidade de trazer para casa o coronavírus nos sapatos e, como resultado, ficar doente é a mesma que você ser atingido por um raio duas vezes por dia”

O infectologista falou que não é necessário pânico. “Eu sou responsável pelo diagnóstico e tratamento de vírus há 20 anos. Infecções por gotículas não se espalham dessa forma!”

Alegação: “Você não pode ser protegido contra o vírus tomando vinagre, açúcar, suco e gengibre ou ‘remédios’ desse tipo”

Embora Younus não tenha publicado esta frase em seu Twitter, de fato até o momento não há remédio ou substância comprovadamente eficaz no tratamento do coronavírus. Falsas receitas caseiras são compartilhadas nas redes sociais e confundem as pessoas. Elas podem passar uma falsa sensação de segurança e levar as pessoas a desrespeitarem as medidas recomendadas pelas autoridades como o isolamento social e a adoção dos hábitos que realmente evitam o contágio, como lavar as mãos. Algumas combinações podem fazer mal à saúde.

Alegação: “Usar luvas é uma má ideia. O vírus pode se acumular na luva”

O coronavírus entra no corpo por meio da mucosa do nariz, da garganta e dos olhos, não pela pele. “As luvas podem acumular mais germes e você pode acabar levando-os para o rosto. Cuidado!”, escreveu o infectologista.

Younus lembra a necessidade de se lavar as mãos. As luvas só devem ser usadas por quem cuida de uma pessoa infectada.

Ele também alerta que é preciso ter uma boa noite de sono e se alimentar apropriadamente para manter a saúde. “Uma pesquisa analisou 300 estudos e mostrou que o estresse pode enfraquecer o sistema imunológico, o que por sua vez piora suas chances de cura”, disse. Ele compartilha um estudo de 2004, presente na Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos que aponta a relação.

O Boatos.org também checou esta informação.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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