Postagem que chama Lula de ‘genocida’ espalha frases falsas e sem contexto
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Postagem que chama Lula de ‘genocida’ espalha frases falsas e sem contexto

Não é verdade que ex-presidente tenha dito que 'não se ganha Copa com hospitais'; de cinco declarações, três são verdadeiras, mas apenas uma está registrada de maneira satisfatória

Samuel Lima

25 de maio de 2021 | 11h41

Circula nas redes sociais uma postagem com o título “Frases do genocida”, que supostamente mostraria cinco declarações feitas pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Na realidade, apenas uma delas pode ser considerada verdadeira e foi registrada de maneira satisfatória, preservando o sentido original. Duas realmente foram ditas pelo petista, mas circulam sem contexto, enquanto uma foi distorcida ao viralizar na internet e outra não é de sua autoria. Confira abaixo a checagem do Estadão Verifica.

Boato espalha frases falsas e outras sem contexto para atacar o ex-presidente Lula. Foto: Reprodução

“Não se ganha Copa com hospitais, vou construir estádios de futebol” — Falso

Não há registros de que Lula tenha feito essa afirmação. Uma frase semelhante foi dita, na verdade, pelo ex-jogador de futebol Ronaldo Nazário, em 1º de dezembro de 2011, ao participar de uma coletiva de imprensa e ser anunciado como integrante do Comitê Organizador Local (COL) da Copa do Mundo de 2014, realizada no Brasil.

Segundo notícia da ESPN, jornalistas perguntaram ao atleta se a população não deveria receber mais investimentos na área da saúde e da educação, ao invés de se gastar com a construção de novos estádios. “Acho que se gasta em tudo”, respondeu Ronaldo. “Está sendo gasto também muito dinheiro em saúde, segurança, mas vamos receber uma Copa. Sem estádio não se faz Copa. Não se faz Copa do Mundo com hospital. Tem que ver o que você quer, o que é melhor. Não faço parte do governo.”

Em junho de 2013, em meio a protestos do Movimento Passe Livre que tomaram as ruas do País contra os aumentos nas tarifas do transporte público, um vídeo com a declaração foi recuperado e viralizou nas redes. Ronaldo postou, então, uma mensagem no Twitter, dizendo que poderia “não ter se expressado tão bem”, mas que a edição era “tendenciosa” e que o contexto “era outro” naquela época.

Sobre essa associação entre Copa do Mundo e hospitais, o Estadão Verifica encontrou apenas uma declaração realmente de Lula com alguma semelhança. O ex-presidente recebeu críticas por comentário em uma entrevista concedida para a TVT, uma emissora de São Bernardo do Campo, em setembro de 2013.

Lula disse que estava preocupado com manifestações contrárias ao evento e defendeu a realização da Copa e das Olimpíadas no Rio de Janeiro como uma forma de fortalecer a imagem do Brasil no exterior. “Tem gente que acha que não pode fazer Olimpíada porque não tem hospital. Olha, sinceramente, acho isso um retrocesso enorme. Acho que estamos jogando fora uma oportunidade de fazer uma coisa boa”, opinou.

O Brasil foi escolhido como sede da Copa do Mundo durante o governo Lula, em 2007, e o evento ocorreu no final do primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff (PT). O Ministério do Esporte contabilizou investimento global de R$ 27,1 bilhões em obras para receber o evento, sendo R$ 8,3 bilhões para a construção e reforma de estádios. Deste montante, foram liberados R$ 3,8 bilhões pelo governo federal, por meio de empréstimos do BNDES, mais R$ 3,9 bilhões dos governos locais e R$ 611 milhões da iniciativa privada.

“Ainda bem que a natureza criou o coronavírus” — Sem contexto

A frase é verdadeira, mas está incompleta e, assim, omite informações. Em 19 de maio de 2020, Lula concedeu uma entrevista para a revista Carta Capital, que foi transmitida ao vivo em seu canal do YouTube. Logo no início, o ex-presidente critica a agenda liberal do ministro da Economia, Paulo Guedes, e do presidente Jair Bolsonaro.

“Quando eu vejo essas pessoas acharem bonito que tem que vender tudo que é público e que tudo que é público não presta nada…”, começou Lula. “Ainda bem que a natureza, contra a vontade da humanidade, criou esse monstro chamado coronavírus, porque esse monstro está permitindo que os cegos comecem a enxergar que apenas o Estado é capaz de dar solução a determinadas crises”, disse. O trecho pode ser visto a partir de 7 minutos e 10 segundos.

Naquele momento, mais de 19 mil pessoas no Brasil e 328 mil no mundo já haviam morrido de covid-19. Diante da repercussão negativa do comentário, mal recebido mesmo entre petistas, Lula pediu desculpas pelo Twitter. “Usei uma frase totalmente infeliz. E a palavra desculpa foi feita pra gente usar com muita humildade. Se algum dos 200 milhões de brasileiros ficou ofendido, peço desculpas. Sei o sofrimento que causa a pandemia, a dor de ter os parentes enterrados sem poder acompanhar”. Em vídeo, disse que deveria ter usado a palavra “infelizmente” no lugar de “ainda bem”.

“Um político ladrão é mais digno que um funcionário público” — Falso

Uma declaração semelhante foi checada pelo Estadão Verifica no ano passado. Assim como naquela ocasião, a peça analisada aqui distorce uma comparação entre políticos e funcionários públicos feita por Lula, em 15 de setembro de 2016, durante coletiva de imprensa em São Paulo. A palavra digno, por exemplo, não é usada em nenhum momento, como se pode ver abaixo.

“Eu, de vez em quando, falo que as pessoas achincalham muito a política, mas a profissão mais honesta é a do político”, disse Lula, aos 24 minutos e 25 segundos de gravação. “Sabe por quê? Porque todo ano, por mais ladrão que ele seja, ele tem que ir pra rua encarar o povo e pedir voto. O concursado, não. Se forma na universidade, faz um concurso e está com um emprego garantido para o resto da vida.”

O pronunciamento tinha como alvo procuradores do Ministério Público Federal (MPF) que, um dia antes, tinham denunciado Lula, Marisa Letícia e outras seis pessoas no caso do triplex do Guarujá. Mas a frase acabou repercutindo muito mal entre os funcionários públicos de forma geral, segundo o jornal O Globo. Marco Antonio Araujo Júnior, presidente da Associação Nacional de Proteção e Apoio aos Concursos (Anpac), considerou a comparação do ex-presidente “leviana” e “absurda”.

“Eu não vou enganar o povo mais uma vez” — Sem contexto

Essa frase também foi dita por Lula, mas circula fora de contexto nas redes desde o final do ano passado, de acordo com a AFP Checamos. A declaração aparece em uma entrevista em vídeo para o jornal El País, em 7 de outubro de 2020, a partir de 65 minutos e 40 segundos de gravação. 

O ex-presidente foi questionado por uma das jornalistas sobre a possibilidade de criação de uma “frente ampla” em oposição ao atual presidente, Jair Bolsonaro, nas próximas eleições. Ele, então, responde que o termo tinha ganhado uma conotação de solução “mágica” e que só faria sentido concordar com essa ideia se fosse para devolver direitos trabalhistas, entre outros aspectos.

“Mas fazer um arranjo por cima, apenas para mudar a nomenclatura, sem dizer o que vai acontecer com o povo pobre…”, afirmou o petista. “Eu já tenho idade demais, eu já vivi demais, eu já tenho experiência demais. E eu não vou enganar o povo mais uma vez. Eu não vou enganar o povo. Só tem sentido fazer uma frente ampla se for para devolver ao povo trabalhador deste país os direitos que tiraram dele”.

“Eu não posso ver mais jovem de 14, 15 anos assaltando e sendo violentado pela polícia só porque roubou um celular” — Verdadeiro

A frase se aproxima, em construção e contexto, do que disse Lula em discurso no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em 9 de novembro de 2019, em São Bernardo do Campo — por isso, foi classificada como verdadeira nesta checagem. O pronunciamento ocorreu um dia depois de o ex-presidente deixar a cela na sede da Polícia Federal em Curitiba (PR), onde esteve preso por 580 dias, condenado em segunda instância por corrupção passiva e lavagem de dinheiro em processo da Lava Jato.

Neste trecho do discurso, a partir de 23 minutos e 30 segundos de gravação, Lula acusa Bolsonaro de “destruir” o País: “Eu não posso ver aumentar o número de gente dormindo na rua. Eu não posso ver aumentar o número de mulheres jovens vendendo o seu corpo a troco de um prato de comida. Eu não posso ver mais jovem de 14 e 15 anos assaltando e sendo violentado, assassinado pela polícia, às vezes inocente ou às vezes porque roubou um celular.”

“Se as pessoas tiverem onde trabalhar, se as pessoas tiverem salário, se as pessoas tiverem onde estudar, se as pessoas tiverem acesso à cultura, a violência vai cair”, prossegue Lula. “E nós temos que dizer, contra a distribuição de armas de Bolsonaro, nós vamos distribuir livros, vamos distribuir emprego, vamos distribuir acesso à cultura. É esse país que nós queremos e sabemos como construir.”


Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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