Post viral desinforma sobre patrimônio de Lula, Marisa Letícia e Lulinha

Post viral desinforma sobre patrimônio de Lula, Marisa Letícia e Lulinha

Falsa fortuna de R$ 716 bilhões faria do ex-presidente a quinta pessoa mais rica do mundo; os outros dois valores citados também não fazem sentido, segundo informações públicas

Samuel Lima

14 de outubro de 2021 | 12h28

É falso que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tenha acumulado uma fortuna de R$ 716 bilhões dando palestras, como alega uma postagem viral de um ex-candidato a vereador de João Pessoa, na Paraíba. O número é completamente fora da realidade. De acordo com a declaração de bens mais recente de Lula para a Justiça Eleitoral, em agosto de 2018, o petista tinha R$ 7,98 milhões — e não bilhões — em carros, imóveis e ativos financeiros.

Para se ter ideia, Bill Gates, fundador da Microsoft e quarto homem mais rico do mundo segundo a Forbes, tinha uma fortuna estimada em US$ 131 bilhões nesta quarta-feira, 13 de outubro. Isso representa cerca de R$ 721 bilhões, pela cotação atual do dólar (R$ 5,51). Ou seja, a quantia inventada faria Lula entrar no top 5 de bilionários do planeta. 

O valor falsamente atribuído a Lula ficaria atrás apenas das riquezas de Elon Musk, dono da Tesla e da SpaceX (US$ 207,7 bilhões), de Jeff Bezos, dono da Amazon (US$ 191,4 bilhões), de Bernard Arnault, magnata que investe em artigos de luxo, como a grife Louis Vuitton (US$ 181,7 bilhões), e do próprio Gates. Ainda seria mais rico do que figuras como Mark Zuckerberg, Warren Buffett e Larry Page.

O Estadão Verifica consultou uma fonte de dados pública para checar o patrimônio de Lula, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Para disputarem cargos eletivos, os políticos precisam submeter uma relação de bens ao órgão do Judiciário. No caso de Lula, a mais recente é de 2018, quando tentou disputar novamente a Presidência da República, mas teve a candidatura rejeitada com base na Lei da Ficha Limpa.

Na época, o ex-presidente alegou possuir R$ 7,98 milhões. A maior parte do valor era referente a um plano de previdência privada, identificado pela sigla VGBL (Vida Gerador de Benefício Livre). Ele ainda declarou possuir três terrenos, três apartamentos, dois automóveis e uma série de ativos financeiros, como depósitos, aplicação em poupança, créditos decorrentes de empréstimo e alienação e cotas de sua empresa de palestras e eventos.

Além disso, o patrimônio de Lula foi exposto no inventário realizado após a morte da ex-primeira-dama Marisa Letícia, ocorrida em fevereiro de 2017. Lula informou à Justiça que o casal tinha R$ 12,3 milhões, em um regime de comunhão universal de bens. Portanto, pouco mais de R$ 6 milhões eram seus por direito.

A postagem usa o termo “palestrante” para ironizar o argumento da defesa do ex-presidente na Justiça de que teria enriquecido licitamente com palestras após deixar o cargo, através da empresa LILS — Palestras, Eventos e Publicações. De acordo com um documento do Instituto Lula, foram 72 palestras entre 2011 e 2015, contratadas por 45 empresas.

Documento

Entre elas, estavam empreiteiras investigadas pela Operação Lava Jato, o que levantou suspeitas da força-tarefa. Os ganhos foram objeto de apuração da Polícia Federal. Em dezembro de 2019, no entanto, a PF concluiu que não havia indícios de prática de crime. Em outubro do ano passado, a juíza Gabriela Hardt reconheceu a legalidade das palestras.

Lula foi condenado em dois processos da Lava Jato — sítio de Atibaia (primeira instância e TRF-4) e triplex do Guarujá (primeira instância, TRF-4 e STJ) — e chegou a cumprir 580 dias de prisão, mas as sentenças foram anuladas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) neste ano. A maioria dos ministros acompanhou o entendimento do relator Edson Fachin de que a 13ª Vara da Justiça Federal de Curitiba não era competente para investigá-lo. Essas denúncias tratavam de propinas recebidas por meio de reformas em imóveis, e não palestras.

Além de Lula, a postagem menciona valores insustentáveis como sendo o patrimônio da ex-primeira-dama, Marisa Letícia, e de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, um dos filhos do casal.

Marisa Letícia

Em dezembro de 2018, circulou nas redes um boato semelhante de que Marisa Letícia teria deixado herança de R$ 11 milhões, mesmo valor que aparece na peça de desinformação analisada agora. 

Na realidade, como mostrou o Comprova em uma checagem de agosto de 2018, o montante de R$ 11,7 milhões que aparecia no inventário da ex-primeira-dama era referente ao casal e, portanto, não pertencia somente a Marisa Letícia. O caso foi noticiado pela revista Época e pela Coluna do Estadão. A maior parte, quase R$ 9 milhões, tinha origem em duas contas de um plano de previdência privada.

Ela era casada com Lula em regime de comunhão universal de bens, segundo consta no processo — ou seja, eles dividiam igualmente o patrimônio. Marisa Letícia faleceu em fevereiro de 2017, vítima de um acidente vascular cerebral (AVC). Posteriormente, os bens foram atualizados para R$ 12,3 milhões. Em julho de 2020, a Justiça autorizou a partilha de R$ 1,46 milhão aos quatro filhos.

A peça alega ainda que Marisa Letícia teria ganhado esse dinheiro como “vendedora da Avon”. O Estadão Verifica não encontrou qualquer registro de que a ex-primeira-dama tenha desempenhado essa função. Em 2018, o site Boatos.org desmentiu a história. O PT afirma que o relato das redes é fake news.

Lulinha

A pesquisa pelo nome de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e pelo suposto patrimônio de R$ 954 milhões alegados pelo boato não retorna nenhuma fonte confiável de informação. Por outro lado, uma checagem anterior do Projeto Comprova sugere que, novamente, o montante está superestimado.

Em agosto de 2018, a coalizão de veículos contra a desinformação publicou uma reportagem desmentindo que Lulinha teria embolsado R$ 317 milhões segundo uma “delação bomba” inexistente. Os jornalistas tiveram acesso a um laudo da PF que relata, a partir de dados de movimentação financeira, que Fábio Luís teve rendimentos brutos na ordem de R$ 5,2 milhões entre os anos de 2004 e 2014. 

Ao longo desse período, o patrimônio de Lulinha passou de R$ 24,4 mil para R$ 2,54 milhões, mas os peritos concluem que essa alta era compatível com o balanço de gastos e receitas. Em 2014, Lulinha era dono de dois automóveis e detinha participação societária em três empresas, além de aplicações financeiras. 

O Estadão Verifica não conseguiu atualizar essa informação, que não é pública, mas Fábio Luís precisaria multiplicar o patrimônio por 376 vezes em apenas sete anos para chegar ao número citado na postagem.

Como mostrou o blog em outra checagem, Lulinha é alvo de uma investigação na Justiça por conta de um aporte de R$ 132 milhões da Oi/Telemar na Gamecorp — empresa de mídia, jogos eletrônicos e tecnologia da qual era sócio. Um inquérito apura se, em troca do investimento, a empresa de telefonia teria sido beneficiada durante o governo Lula, o que configura tráfico de influência. 

O boato usa a expressão “catador de bosta” em uma referência pejorativa ao emprego de tratador de animais que Lulinha, biólogo por formação, teve no Parque Zoológico de São Paulo antes de virar empresário, conforme informações do jornal Folha de S. Paulo e da revista Crusoé.

Viralização

O boato aqui checado teve mais de 63 mil compartilhamentos desde junho e voltou a circular com força esta semana, segundo dados da plataforma de checagem de fatos do Facebook. A peça apresenta uma espécie de assinatura, com o nome de “@gordinhopatriota”.

Esse é o perfil no Instagram do corretor de imóveis Augusto José de Seixas Jr. Ele concorreu a vereador na cidade de João Pessoa, na Paraíba, nas eleições de 2020, pelo Patriota. Com 137 votos, não foi eleito. Nas redes, costuma publicar mensagens de apoio ao presidente Jair Bolsonaro.

Ele foi procurado pela reportagem nesta quarta, 13, mas não respondeu as mensagens até a publicação desta checagem.

O Estadão Verifica também entrou em contato com a assessoria do ex-presidente Lula, mas não obteve resposta.


Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

 

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