Revogação de uso emergencial da hidroxicloroquina pela FDA causa desinformação nas redes
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Revogação de uso emergencial da hidroxicloroquina pela FDA causa desinformação nas redes

Posts sugerem afrouxamento de restrições quanto ao uso do medicamento no tratamento de covid-19

Pedro Prata

18 de junho de 2020 | 13h12

A Food and Drug Administration (FDA), agência regulatória norte-americana de fármacos, revogou nesta segunda, 15, a autorização para uso emergencial da cloroquina e a hidroxicloroquina em hospitais para tratamento da covid-19. A medida se tornou alvo de boatos nas redes sociais que espalham desinformação. Algumas postagens passam a ideia de que a agência teria afrouxado restrições ao uso do medicamento ao dizer que “agora as pessoas podem usar (a cloroquina e a hidroxicloroquina) em casa, com a devida orientação médica”. A informação é enganosa porque médicos já podiam prescrever o medicamento individualmente. A FDA ainda ressaltou os riscos que as duas drogas podem causar à saúde.

A autorização de uso emergencial havia sido concedida em 28 de março. Ela permitia que hospitais tivessem acesso ao estoque nacional estratégico para disponibilizar os dois medicamentos aos pacientes sob seus cuidados. Este estoque pode ser utilizado em situações de emergência na saúde. Como a autorização foi concedida mediante pouca evidência científica, a FDA autorizou seu uso apenas em pacientes hospitalares para que pudessem ter acompanhamento “rigoroso” de sua atividade cardíaca.

Nesta segunda, porém, a autorização foi revogada por não atender aos critérios necessários. A FDA informou que “tendo em vista a observação de eventos cardíacos adversos e outros efeitos colaterais significantes, os potenciais benefícios são menores do que os potenciais malefícios”. Tanto a autorização como sua revogação foram solicitadas pela autoridade de pesquisa biomédica do departamento de Saúde dos Estados Unidos.

A agência explica que as decisões foram tomadas a partir de resultados obtidos em um amplo estudo clínico. Ele teria mostrado que tanto a hidroxicloroquina quanto a cloroquina não tiveram resultado algum em diminuir a carga viral nos doentes e não aceleram o processo de recuperação dos pacientes.

Hidroxicloroquina já podia ser prescrita a pacientes que não estivessem hospitalizados. Foto: Reprodução

Revogação afrouxou restrições ao uso domiciliar do medicamento?

A cloroquina e a hidroxicloroquina são dois medicamentos amplamente conhecidos no tratamento da malária. Este último ainda possui autorização da FDA para o tratamento de condições autoimunes como lúpus e artrite reumatoide. Assim, médicos sempre puderam prescrever individualmente esses medicamentos para seus pacientes com estas condições.

“Na verdade, a remoção do uso emergencial acaba com o grande mal-entendido de que a hidroxicloroquina só poderia ser usada por pacientes internados em hospitais”, disse Alex M. Azar II, secretário de saúde da administração Trump, durante mesa redonda na Casa Branca nesta segunda, 15. Ele explicava o fato do uso emergencial — não da hidroxicloroquina — ser exclusivo de hospitais. 

Apesar disso, a agência reguladora reforçou o alerta sobre seu uso domiciliar para o tratamento de covid-19. “A FDA está ciente de relatórios sobre sérios problemas cardíacos em pacientes com covid-19 tratados com hidroxicloroquina ou cloroquina, geralmente em combinação com a azitromicina”, pontuou. A azitromicina é um antibiótico que passou a ser ministrado em conjunto com as outras duas drogas e que não teve aprovação da FDA para tal.

“Também estamos temos conhecimento do aumento na prescrição destes fármacos a pacientes que não estão hospitalizados”, continuou a agência. “Portanto, precisamos reforçar aos profissionais da saúde e aos pacientes dos riscos conhecidos tanto para o uso da hidroxicloroquina quanto da cloroquina.”

O alerta não se aplica a pacientes que usam o medicamento para tratar de malária, lúpus e artrite reumatoide.

No final de maio, a Casa Branca anunciou o envio de dois milhões de doses da hidroxicloroquina para o Brasil. O gesto se deu em um momento em que os hospitais americanos têm reportado redução no uso do medicamento no tratamento da covid-19 depois que vários estudos sugeriram que o medicamento não é eficaz e representa um risco para os pacientes com a doença. A Vizient Inc, compradora de medicamentos para cerca de metade dos hospitais dos EUA, informou à agência Reuters que os pedidos de cloroquina caíram para um décimo do pico, registrado no final de março.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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