Boato distorce relato de mulher que diz ter participado de testes da vacina de Oxford

Boato distorce relato de mulher que diz ter participado de testes da vacina de Oxford

Carioca que afirma ter sentido dor e febre após receber imunizante sequer menciona vacina chinesa testada em São Paulo; sintomas citados não são considerados graves

Samuel Lima, especial para o Estado

28 de julho de 2020 | 17h56

Postagens falsas no Facebook desinformam ao sugerir que uma mulher do Rio de Janeiro teria relatado sono, cansaço, febre e dor no corpo ao tomar a CoronaVac — vacina experimental contra a covid-19 da empresa Sinovac, da China, que está sendo testada em São Paulo. Os conteúdos chamam a suposta voluntária de “cobaia” do governador João Doria (PSDB).

No entanto, a pessoa retratada não diz fazer parte dos ensaios clínicos dessa vacina, e sim de outra, desenvolvida pela Universidade de Oxford e pelo laboratório AstraZeneca, que também está sendo testada no Brasil. Além disso, as reações mencionadas não são consideradas graves e podem ser observadas inclusive em vacinas aprovadas para outras doenças, de acordo com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Postagens distorcem relato de carioca à revista Marie Claire. Foto: Reprodução / Arte Estadão

O boato distorce conteúdo publicado pela revista Marie Claire, em 25 de julho. A matéria apresenta depoimento de uma mulher chamada Jackeline Desiderio, que se identifica como integrante da ONG Humanid’Aids. Logo abaixo do título, é relatado que Jackeline “está entre as pessoas que participaram dos testes cegos da vacina de Oxford contra o novo coronavírus”, e não da Sinovac.

O Estadão Verifica não pode confirmar se Jackeline Desiderio faz parte dos testes da vacina de Oxford. Procurado pela reportagem, o Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino, responsável pelos testes da vacina no Rio de Janeiro, disse que “não tem autorização para confirmar a identidade dos voluntários que participam de seus estudos”. A Unifesp, que coordena os testes no Brasil, disse que não possui a informação.

Fato é que nem os participantes, nem a equipe de acompanhamento dos ensaios sabem quando a substância aplicada é realmente o possível imunizante de Oxford contra a covid-19 ou apenas placebo — nesse caso, uma vacina para a meningite que apresenta a possibilidade de sintomas semelhantes após a aplicação.

Na fase 3 de testes clínicos, pela qual passa a vacina de Oxford, metade dos voluntários recebe doses do produto experimental e a outra metade, placebo. Esses últimos formam o chamado “grupo controle”, necessário para entender a taxa esperada de incidência da covid-19 e fazer uma comparação precisa com o desempenho daqueles que de fato receberam o produto, avaliando assim a eficácia do imunizante.

A informação é secreta para garantir que esse tipo de conhecimento não influencie comportamentos, o que poderia gerar alterações artificiais nos resultados. É o que se chama no meio acadêmico de estudo duplo-cego, condição que torna a evidência científica mais robusta. 

Reações citadas em depoimento não são consideradas graves

Em entrevista à revista Marie Claire, a mulher afirma que recebeu a dose e, depois da primeira noite, teve uma série de sintomas. “Comecei a me sentir indisposta, com uma enorme moleza no corpo, muito sono, cansaço e febre de 38 graus. Em seguida, meu corpo inteiro começou a doer; e os olhos, a lacrimejar. Fora a dor no braço que é absurda, mal posso levantá-lo”.

Já em entrevista para a Band TV, no dia 27 de julho, Jackeline ponderou que, apesar das reações adversas, a experiência “foi bem tranquila”. Ela disse que já não sentia mais nada, passados quatro dias do aparecimento dos sintomas.

Ao contrário do que sugerem as postagens nas redes sociais, nenhum dos sintomas relatados é considerado grave, de acordo com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que coordena os testes no Brasil em parceria com a universidade britânica

“Até o momento, os voluntários não apresentaram efeitos colaterais severos. As reações como dor no local da aplicação, febre, cefaleia (dor de cabeça), dor no corpo são de leve a moderada intensidade e melhoram com um paracetamol”, comentou a Unifesp por e-mail.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica “dor no local da injeção ou febre baixa” como efeitos colaterais leves e comuns da imunização, em página de perguntas e respostas sobre as vacinas. 

Em nota, a Unifesp destacou que os resultados das primeiras etapas de testes se mostraram “esperançosos”. Em artigo na revista The Lancet, publicado em 20 de julho, os cientistas mostraram que a vacina experimental produziu resposta imune e não gerou efeitos colaterais graves entre os participantes. Parte dos voluntários apresentou apenas sintomas de baixa intensidade, como sensação de febre, calafrios, dores musculares, dores de cabeça e mal-estar.

A conclusão é referente às fases 1 e 2 dos ensaios clínicos, feita com 1.077 pessoas, com idades entre 18 e 55 anos, no Reino Unido. Para atestar a eficácia e a segurança da vacina, os pesquisadores ainda precisam concluir a terceira etapa, que está sendo realizada com 50 mil voluntários no mundo, entre eles 5 mil brasileiros.

A previsão é de que, caso os resultados fiquem prontos até o final do ano, o registro poderia ser liberado até junho de 2021. O governo federal discute acordo de cooperação com a AstraZeneca para a produção da vacina em território nacional, por meio da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). O acordo foi anunciado em 27 de junho, mas o documento ainda não foi assinado.

Já a vacina da Sinovac iniciou testes em São Paulo em 21 de julho. A ação faz parte de acordo entre a farmacêutica chinesa, o governo paulista e o Instituto Butantan, firmado em 10 de junho. O produto também está no estágio 3 dos ensaios clínicos.

A OMS listava 139 projetos em estudos pré-clínicos e 25 com testagem em humanos nesta segunda-feira, 27. Além das vacinas de Oxford e da Sinovac, também atingiram a etapa final de testes as candidatas dos Institutos de Produtos Biológicos de Wuhan e Pequim, em parceria com a estatal chinesa Sinopharm, e a da empresa farmacêutica norte-americana Moderna, com apoio do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos.

Rivalidade entre Bolsonaro e Doria alimenta boatos sobre vacinas

A rivalidade política entre o governador de São Paulo, João Doria, e o presidente Jair Bolsonaro costuma alimentar boatos sobre vacinas nas redes sociais. O Estadão Verifica já desmentiu diversos conteúdos do gênero desde que Doria anunciou parceria com o laboratório chinês e o governo federal começou a discutir os termos de cooperação com a AstraZeneca.

Um deles alegava que Doria teria firmado parceria para produção de vacina contra a covid-19 antes da pandemia, distorcendo declarações do político em entrevista a jornalistas. Outro boato tirou de contexto uma foto antiga do governador, sem máscara em local público, recebendo uma vacina da gripe. E outro suposto efeito adverso da CoronaVac está circulando no Facebook, mas a foto mostra um rapaz com alergia a amendoim nos Estados Unidos.

Quanto à vacina de Oxford, o Estadão Verifica analisou posts que relatavam uma suposta participação da Fiocruz em pesquisas iniciais do projeto e outro que dizia que essa vacina “já teria comprovação científica” contra o novo coronavírus.

Aos Fatos e Agência Lupa também verificaram o conteúdo e concluíram que é falso.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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