É falso que Fiocruz tenha participado de pesquisas iniciais da vacina de Oxford

É falso que Fiocruz tenha participado de pesquisas iniciais da vacina de Oxford

Texto viralizou após governo federal anunciar acordo com a universidade britânica de acesso à imunização e transferência de tecnologia

Pedro Prata

16 de julho de 2020 | 17h45

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) não participou de pesquisas iniciais da Universidade de Oxford para desenvolvimento da vacina ChAdOx1 nCoV-19. A alegação faz parte de um texto no Facebook que critica o governo federal por supostamente não incentivar a pesquisa. A publicação viralizou após o governo anunciar acordo com a universidade inglesa e a empresa biofarmacêutica AstraZeneca para produção da imunização em território nacional. Até a publicação desta checagem, o post havia sido compartilhado 3,3 mil vezes.

O texto alega que a Fiocruz “descobriu o genoma e as divisões celulares” do novo coronavírus e que, portanto, “sabia como deveria ser feito” o processo da vacina. A publicação afirma que a instituição no Rio de Janeiro não teria “tecnologia para desenvolver” a imunização e, por isso, teria procurado o governo federal para obter apoio. Por fim, a postagem no Facebook diz que os pesquisadores da Fiocruz teriam se unido por conta própria ao Instituto Butantan e à Universidade de Oxford diante da recusa da gestão de Jair Bolsonaro.

O Estadão Verifica procurou a Fiocruz para saber qual foi sua participação no desenvolvimento da vacina desenvolvida por Oxford. A assessoria de comunicação do órgão respondeu por e-mail que não participou do estudo, um “projeto de desenvolvimento daquela universidade (Oxford)”.

Vacina começou a ser desenvolvida em 10 de janeiro por pesquisadores de Oxford, muito antes da covid-19 ser declarada pandemia pela OMS. Foto: Dado Ruvic/Reuters

A vacina ChAdOx1 nCoV-19

A covid-19 foi detectada inicialmente em dezembro de 2019 em Wuhan, na China, depois que o país reportou à Organização Mundial da Saúde (OMS) um número elevado de pacientes com uma pneumonia nova. A Universidade de Oxford começou seus esforços para o desenvolvimento de uma vacina em 10 de janeiro de 2020, antes mesmo da doença ser declarada uma pandemia, em 11 de março. A equipe é liderada pelos pesquisadores Sarah Gilbert, Andrew Pollard, Teresa Lambe, Sandy Douglas e Adrian Hill.

O novo coronavírus (SARS-CoV-2) possui uma camada lipoproteica, isto é, composta por lipídios e proteínas. Nessa camada estão presentes espinhos chamados de espículas. O novo coronavírus utiliza esses espinhos para se ligar e entrar nas células do corpo. A vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford pretende que o corpo reconheça as espículas e produza uma resposta imunológica que impeça o vírus de entrar nas células.

A equipe de pesquisadores escolheu uma tecnologia desenvolvida no Jenner Institute (da própria universidade) que utiliza o adenovírus de chimpanzé. Trata-se de um vírus de resfriado comum que infecta os macacos. Este vírus foi modificado geneticamente para não infectar humanos.

Esta tecnologia foi escolhida porque gera uma forte resposta imunológica em uma única dose e não permite ao vírus se replicar, inibindo a possibilidade de causar uma infecção no indivíduo vacinado. Por isso, ela é segura para ser usada em crianças, idosos e pessoas com comorbidades. Esta tecnologia já era conhecida e utilizada em dez tipos diferentes de doenças.

Novo coronavírus se utiliza de espículas para entrar na célula; vacina deve ajudar o corpo a reconhecê-las e, assim, estimular resposta imunológica do corpo. Foto: CDC/Divulgação

Os testes em seres humanos começaram em abril com voluntários da Inglaterra. A primeira fase contou com pessoas de 18 a 55 anos de idade. Em maio, os estudos foram ampliados para incluir pessoas a partir de cinco anos e acima de setenta. Os pesquisadores coletaram informações sobre a resposta imunológica para saber se a vacina era eficiente. Também analisaram efeitos colaterais e sua segurança para a vida das pessoas.

Em 20 de junho, os testes se iniciaram no Brasil com apoio da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). No total, 5 mil brasileiros vão participar. Os pesquisadores de Oxford consideram o País uma prioridade tendo em vista o alto número de casos da covid-19. Até esta quinta-feira, 16, o Brasil acumulava 1,9 milhão de casos confirmados e 75.366 óbitos. É o segundo pior cenário no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos.

O acordo entre Fiocruz e Oxford

Em 27 de junho, o governo federal anunciou que aceitava proposta do governo britânico e da biofarmacêutica AstraZeneca para cooperação no desenvolvimento tecnológico e acesso do Brasil à vacina. O acordo prevê a compra de lotes da vacina e também a transferência da tecnologia. No País, a Fiocruz, por meio do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos), ficará responsável pelo desenvolvimento da vacina para que a produção possa ser completamente internalizada e nacional.

O governo federal fará os investimentos necessários em seu laboratório público para viabilizar a produção da vacina — para adaptação da planta produtiva e incorporação da tecnologia.

O acordo tem duas etapas. Na primeira, o Brasil paga pela tecnologia, mesmo não tendo os resultados dos ensaios clínicos finais. Em uma segunda fase, caso a vacina se mostre eficaz e segura, será ampliada a compra de lotes da vacina.

Na fase inicial, serão comprados 30,4 milhões de doses da vacina, no valor total de U$ 127 milhões (R$ 680 milhões), incluídos os custos de transferência da tecnologia e do processo produtivo da Fiocruz. Os dois lotes a serem disponibilizados à Fiocruz, de 15,2 milhões de doses cada, deverão ser entregues em dezembro de 2020 e janeiro de 2021.

Acordo permitirá transferência de tecnologia para que a Fiocruz possa desenvolver a vacina no País. Foto: Fiocruz/Divulgação

Na segunda etapa, caso a vacina se mostre eficaz e segura, serão mais 70 milhões de doses, no valor estimado em US$ 2,30 por dose (cerca de R$ 862 milhões no total).

A assessoria de comunicação da Fiocruz nega que o contato com a Universidade de Oxford tenha se dado por intermédio do instituto paulista de pesquisas Butantan. “Fiocruz e Butantan, como laboratórios públicos, trocam informações e mantêm relações institucionais no enfrentamento da pandemia, mas o escopo da negociação entre Fiocruz e AstraZeneca não fez parte dessa relação”.

Fiocruz sequenciou o genoma do SARS-CoV-2?

Identificar o genoma do vírus em cada local que ele aparece é uma estratégia importante para compreender sua dispersão e as mutações que ele sofre. Isso pode ajudar no desenvolvimento de vacinas e de tratamentos.

Em 28 de fevereiro, cientistas do Instituto Adolfo Lutz, do Instituto de Medicina Tropical da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e da Universidade de Oxford anunciaram ter descoberto o genoma do coronavírus que infectou o primeiro brasileiro. A descoberta aconteceu menos de 48 horas após a confirmação do caso.

Pesquisadores do Instituto Leônidas & Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia) sequenciaram o primeiro genoma do novo coronavírus circulando na Região Norte do País. A Fiocruz também desenvolveu, juntamente com a University College London, do Reino Unido, um protocolo para sequenciamento genético do novo coronavírus que pode sequenciar até 96 genomas ao mesmo tempo.

Este boato também foi verificado pela Agência Lupa.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.