Foto de alergia a amendoim é compartilhada como se fosse reação a vacina contra covid-19

Foto de alergia a amendoim é compartilhada como se fosse reação a vacina contra covid-19

Imagem foi registrada após trote em universidade americana em 2017 e não tem qualquer relação com testes de imunizante produzido em parceria entre Instituto Butantan e empresa chinesa

Alessandra Monnerat

28 de julho de 2020 | 13h04

A foto de um rapaz com os olhos inchados tem sido compartilhada no Facebook como se mostrasse efeito adverso da vacina CoronaVac, que é testada em São Paulo. Na realidade, a imagem é de reação alérgica a manteiga de amendoim, registrada em um caso que ocorreu nos Estados Unidos em 2016 — portanto, anos antes dos primeiros casos de covid-19 e sem nenhuma reação com o imunizante contra o novo coronavírus.

A foto tirada de contexto teve 3,2 mil compartilhamentos no Facebook nas últimas 24 horas. Por meio da ferramenta de busca reversa de imagem TinEye, verificamos que as primeiras publicações da fotografia foram feitas em março de 2017.

Veículos norte-americanos como USA Today e CBS News noticiaram na época que autoridades estavam investigando o caso de um rapaz que sofreu um trote em uma universidade de Michigan, Estado no Meio-Oeste dos Estados Unidos.

O incidente ocorreu alguns meses de ser divulgado à imprensa, em outubro de 2016. O integrante de uma fraternidade passou manteiga de amendoim no rosto de Andrew Steely, então com 19 anos, quando ele estava dormindo. O jovem teve de mudar de faculdade depois do trote.

CoronaVac já passou por outros testes bem-sucedidos

A vacina testada em São Paulo é desenvolvida pelo Instituto Butantã em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac Biotech. A primeira dose foi aplicada em 890 voluntários no Hospital das Clínicas, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) na semana passada. A primeira a receber a vacina, a médica Stefania Teixeira Porto, de 27 anos, disse ter recebido uma “injeção de ânimo”.

Ao todo, nove mil voluntários receberam a vacina em doze centros de referência do País. Eles receberão uma segunda dose 14 dias após a primeira aplicação.

De acordo com o médico Esper Kallás, coordenador do Centro de Pesquisas Clínicas do Instituto Central do Hospital das Clínicas FMUSP, o imunizante já havia passado por outras duas fases de testes bem-sucedidos em outros países. Esta é a primeira fase no Brasil.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) liberou a realização de testes com o imunizante no início do mês.

Desinformação contra as candidatas a vacina contra o novo coronavírus tem sido comum nas redes sociais. Em parceria com o Projeto Comprova, esclarecemos que o imunizante produzido pela Universidade de Oxford não contém células de “fetos abortados”. O Estadão Verifica também desmentiu que a Organização Mundial da Saúde (OMS) tenha recomendado a compra de vacinas chinesas em detrimento de vacinas americanas.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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