Empresa de família de amigo de Aécio teria dissimulado doação ao PSDB, diz Procuradoria

Empresa de família de amigo de Aécio teria dissimulado doação ao PSDB, diz Procuradoria

Raquel Dodge pede para que extratos de suposta transação sejam anexados ao inquérito que deu origem à denúncia que pode tornar o senador em réu nesta terça-feira

Teo Cury, Amanda Pupo e Fabio Serapião / BRASÍLIA

17 Abril 2018 | 05h00

Aécio Neves. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

A Polícia Federal encontrou em um HD apreendido na construtora Wanmix, de propriedade de um amigo do senador Aécio Neves (PSDB-MG), extratos bancários que, para os investigadores, sugerem a dissimulação de doação de campanha ao PSDB, em 2014. Os documentos mostram que no dia 24 de junho daquele ano a empresa Conserva de Estradas recebeu um depósito de R$ 1,5 milhão do Consórcio Cowan Conserva. No mesmo dia, a empresa repassou a mesma quantia para o diretório nacional do PSDB.

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As informações constam em uma petição enviada pela procuradora-geral da República, Raquel Dodge, ao ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, em 9 de abril. No documento, a PGR solicita que os extratos sejam anexados aos inquéritos em que o senador é investigado, entre eles, o que deu origem à denúncia que a Primeira Turma do STF analisa nesta terça-feira, 17, e que pode transformar o tucano em réu. Os documentos foram apreendidos durante busca e apreensão vinculada ao inquérito em que Aécio é acusado de receber R$ 2 milhões da J&F.

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Para a Procuradoria-Geral da República, a “movimentação financeira realizada entre a Conserva de Estradas e Consórcio Cowan Conserva pode indicar que esta última empresa estava dissimulando doação oficial ao PSDB em 2014 se valendo da primeira”.

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Tanto a Conserva Estradas como o Consórcio Cowan Conserva pertencem à família Wanderley. O dono da Wanmix, onde foram encontrados os extratos, é Eduardo Wanderley, também integrante da família. Amigo próximo de Aécio, Eduardo é sobrinho de Saulo Wanderley, dono da Cowan.

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A Wanmix, por sua vez, é uma construtora mineira que forneceu concreto para a construção da Cidade Administrativa, obra mais cara da gestão de Aécio no governo de Minas Gerais. A obra custou R$ 2,1 bilhões e foi citada em delações premiadas como origem de repasses de propina para o tucano. A obra também forneceu concreto para as usinas de Santo Antônio, Jirau e Belo Monte.

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O dono da empresa, Eduardo Wanderley, é amigo de Aécio e foi flagrado em conversa com o senador interceptada pela PF no âmbito da Operação Patmos – desdobramento do acordo de colaboração dos executivos do Grupo J&F.

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“O Consórcio Cowan Conserva (que repassou o valor de R$ 1,5 milhão para a empresa Conserva Estrada, posteriormente depositado por esta em favor do PSDB) é formada pelas empresas Construtora Cowan e pela Conserva de Estradas. Todas as empresas mencionadas são pertencentes à mesma família”, afirma a PGR.

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Na peça enviada ao Supremo, Raquel cita que no diálogo interceptado entre Aécio e Eduardo foi possível concluir que o senador se queixa que o dono da Andrade Gutierrez, Sérgio Andrade, em vez de conversar, resolveu se antecipar e procurar o Ministério Público Federal para narrar fatos relacionado à usina hidrelétrica de Santo Antônio, fatos que não fizeram parte do acordo de colaboração premiada de executivos da construtora com a PGR.

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“Aécio solicita que seu interlocutor converse com ‘o cara que ia ser o guia’ (Sérgio Andrade) para saber os ‘termos que vai ser a viagem.., se vai ser mais longa, se ele… se é aquele trajeto que a gente tinha já combinado'”, escreve Raquel.

O diálogo foi um dos elementos utilizados pelo então procurador-geral da República Rodrigo Janot, antecessor de Raquel, para pedir a prisão do senador. “Pelo diálogo acima transcrito com o interlocutor chamado Moreno, resta claro que o senador busca apoio junto ao seu interlocutor para obter informações sobre o conteúdo dessas colaborações, visando, evidentemente, evitar que os fatos na sua extensão devida sejam trazidos ao conhecimento do Ministério Público Federal”, escreveu Janot.

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“Em fontes abertas foi possível constatar a ligação da empresa Wanmix com obras públicas com suspeitas de irregularidades e atualmente investigadas, dentre elas a construção da Cidade Administrativa de Minas Gerais e a construção das UHEs de Santo Antônio, Jirau e Belo Monte”, diz a procuradora-geral da República Raquel Dodge no despacho.

De acordo com a PF, o Relatório de Análise de Material Apreendido, feito com base nos extratos, “mostra também engajamento colaborativo do conglomerado da Wanmix para com o partido político de Aécio Neves”.

COM A PALAVRA, AÉCIO

Em nota, a defesa do senador Aécio Neves afirmou que desconhece o assunto e que não identificou irregularidade nos dados apresentados, “uma vez que a doação está devidamente declarada no TSE, como todas as outras doações feitas às campanhas do PSDB”.

COM A PALAVRA, O CONSÓRCIO COWAN CONSERVA, A CONSTRUTORA WANMIX E A CONSERVA DE ESTRADAS

A reportagem entrou em contato com o Consórcio Cowan Conserva, a construtora Wanmix e a Conserva de Estradas, mas não obteve resposta. O espaço está aberto para manifestações.

COM A PALAVRA, O PSDB

A assessoria de comunicação do PSDB informou que o partido não tem conhecimento do assunto.