Café preto e pão com manteiga para Lula

Café preto e pão com manteiga para Lula

Ex-presidente recebe mesmo tratamento dado aos demais presos na sede da PF em Curitiba

Ricardo Brandt, Fabio Serapião, Douglas Gavras e Daniel Weterman, enviados especias a Curitiba

09 Abril 2018 | 06h54

Superintendência da Polícia Federal em Curitiba, onde Lula cumpre pena. FOTO: JF DIORIO/ESTADÃO

Em seu primeiro dia na cadeia, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva conheceu um dos principais desafios aos presos de outros Estados apanhados pela Lava Jato: a inconstância do clima, que amanhece frio, esquenta à tarde e gela à noite. O preso recebeu cedo o mesmo pão com manteiga e café preto servidos aos outros detidos que estão na carceragem da Polícia Federal. Sozinho em suas acomodações de 15 metros quadrados com banheiro privativo no 4.º andar do prédio, Lula pôde acompanhar pela TV a vitória de seu Corinthians sobre o Palmeiras na final do Campeonato Paulista.

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Lá fora, antipetistas e apoiadores de Lula se manifestavam – e brigavam. A noite anterior havia sido marcada pela conflito entre manifestantes e pela fumaça de fogos e bombas após a chegada do petista a Curitiba. Lula desceu do heliponto da sede da PF e foi conduzido por agentes à sua cela, preparada a pedido da Lava Jato para o início do cumprimento da pena de 12 anos e 1 mês de prisão no caso do triplex do Guarujá (SP). Teve, então, o primeiro contato com seus advogados: Cristiano Zanin Martins e o amigo a ex-deputado do PT Sigmaringa Seixas.

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Ali ficaram até meia-noite, quando deixaram o ex-presidente em sua cela, que não tem grades, mas uma porta comum de madeira. Em seu primeiro dia preso, Lula recebeu a mesma comida dos demais detentos: o almoço chegou às 11 horas. Por volta das 15 horas, seus advogados voltaram. Zanin e Sigmaringa chegaram a assistir ao início do jogo com o ex-presidente, mas saíram antes do final. “O presidente está bem, embora indignado”, disse Zanin. A defesa alega que o processo tem “motivação política”.

A cantora Ana Cañas se apresenta para militantes em frente à Superintendência da Polícia Federal em Curitiba neste domingo, 8. FOTO: JF DIORIO/ESTADÃO

Na sala especial reservada como cárcere há um espaço que serve de área de contado com os advogados – e com a família, quando as visitas começarem. Como era domingo, o prédio passou o dia vazio, cercado por jornalistas, policiais e manifestantes, que ficaram depois do perímetro de duas quadras.

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O jantar foi servido às 18 horas. Com talhares de plástico, o ex-presidente comeu sozinho na mesa colocada em sua sala o menu do dia: carne assada, arroz, feijão, chuchu e macarrão. Recebeu um copo de suco de laranja. Nesta segunda-feira, 9, um novo processo na Justiça Federal será aberto e nova batalha jurídica começará: o de execução penal. É nele que a defesa vai pedir a remoção do condenado para uma unidade prisional mais próxima de seu domicílio, com condições especiais – iguais à de Curitiba.

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Vigília. Enquanto os advogados e Lula tratavam de seu futuro na cadeia, os policiais militares observavam os manifestantes que se reuniam em uma espécie de vigília. Nela, o clima era de festa. Crianças com estrelas vermelhas desenhadas no rosto brincavam nos ombros dos pais, um grupo de adolescentes fazia uma roda para tocar violão, duas agricultoras distribuíam café e bolo para homens com camisa do Movimento dos Sem Terra (MST) sentados no gramado de uma casa. De vez em quando, apoiadores da Lava Jato soltavam fogos ou passavam buzinando de carro por uma rua próxima.

Policiais isolam o perímetro da Superintendência da Polícia Federal em Curitiba. FOTO: JF DIORIO/ESTADÃO

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Cerca de 300 apoiadores passaram a noite em camas improvisadas com lençóis na calçada. Os organizadores já haviam providenciado banheiros químicos para os militantes desde o dia anterior. O agricultor Aniseto Pessoa, de 52 anos, que é voluntário em uma das duas cozinhas montadas em tendas, fazia as contas: “De ontem (sábado) para hoje (domingo), foram 22 quilos de carne, 20 quilos de arroz e seis quilos de feijão e de macarrão.” Ele veio com um grupo do município paranaense de Castro e dormiu na calçada, ao lado das panelas. “Só vou embora quando Lula estiver livre”, afirmou.

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Além das cozinhas, os militantes trouxeram barracas. O grupo aumentou às 16h30, quando a cantora Ana Cañas fez um pocket show em frente à barreira da PM. Grande parte dos acampados veio em um dos 15 ônibus com militantes, a maioria do MST, que começaram a deixar o interior do Paraná. Nos próximos dias, a militância espera mais 20 ônibus vindos de São Paulo, dez de Minas Gerais e oito do Rio. Além do MST, vão engrossar os acampados militantes do PT e da CUT.

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Vizinho novo. “Moro aqui há mais de 20 anos, antes de o prédio da PF ser construído e nunca vi nada assim. A gente nem consegue sair, o trânsito está horrível e fazem muito barulho”, reclamou a auxiliar de cozinha Regiane das Neves, de 43 anos.