Ernesto Rodrigues/Estadão
Ernesto Rodrigues/Estadão

Relembre brigas e polêmicas entre Bolsonaro e governadores: ‘paraíbas’, impostos e coronavírus

Ações para conter pandemia do coronavírus geraram novo desgaste; troca de farpas e declarações controversas marcam relação entre chefes dos poderes estaduais e da União

Renato Vasconcelos e Bruno Nomura, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2020 | 05h00
Atualizado 23 de março de 2020 | 17h22

Eleito em 2018 com maioria em 16 das 27 unidades federativas do Brasil - em grande parte delas com apoio dos candidatos a governador que saíram vitoriosos -, o presidente Jair Bolsonaro vem enfrentando uma contínua perda de apoio nos Estados.

Nas trocas de farpas entre os chefes do Executivo estadual e federal já houve acusações diretas, disputa de protagonismo e uma carta assinada por 23 governadores. A crise mais recente é causada pela pandemia do coronavírus. Bolsonaro criticou medidas tomadas por alguns governadores para diminuir a circulação de pessoas, chamando-0s de "exterminadores de emprego". A preocupação do presidente é que a paralisação da atividade econômica gere uma crise ainda maior depois do surto da covid-19. Governadores, por outro lado, acreditam que o governo tem sido ineficiente para conter a propagação do vírus.

Relembre alguns momentos-chave que mostram o desgate da relação entre Bolsonaro e governadores:

‘Daqueles governadores da Paraíba, o pior é o do Maranhão’ - 19/07/2019 

Uma das primeiras polêmicas criadas pelo presidente com os governadores envolveu uma declaração feita ao então ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni. Em ataque ao governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), Bolsonaro disse a Onyx: "Daqueles governadores da 'paraíba', o pior é o do Maranhão. Tem que ter nada com esse cara". O áudio vazou na transmissão de um evento. Dino respondeu dizendo que a postura foi "beligerante" e "sectária". Governadores do Nordeste reagiram manifestando "espanto e profunda indignação".

‘Eles vão ter que falar que estão trabalhando com o presidente Jair Bolsonaro’ - 05/08/2019

O Nordeste foi o primeiro local em que o presidente enfrentou resistência para criar laços políticos. Pouco depois da polêmica com Flávio Dino, o presidente condicionou a liberação de verbas para a região ao apoio e reconhecimento do trabalho conjunto aos governadores. “Caso contrário, eu não vou ter conversas com eles, vamos divulgar obras junto a prefeituras”, disse o presidente.

‘Quando estava mamando a bandeira lá, a bandeira era vermelha com foiçasso e um martelo sem problema nenhum, né?’ - 29/08/2019

Apesar do “Bolsodória” nas eleições de 2018, Bolsonaro atacou João Doria (PSDB) ao dizer que o governador de São Paulo “estava mamando” nos governos do PT. O presidente se referia à compra de aviões com financiamento do BNDES. Doria respondeu dizendo que nunca precisou mamar em teta alguma. Nos dias seguintes, Bolsonaro declarou que Doria “está morto” para a disputa presidencial de 2022 e que não tem chance de vitória porque é uma “ejaculação precoce”.

‘O espertalhão da vez agora é o governador de Pernambuco’ - 18/10/2019

Em outubro, o alvo do presidente foi Paulo Câmara (PSB). Bolsonaro chamou o governador de Pernambuco de "espertalhão" por ter feito propaganda da versão estadual do 13º do Bolsa Família. Câmara rebateu dizendo que a versão pernambucana do programa era anterior à do governo federal. O ataque a Câmara motivou uma carta assinada pelos governadores do Nordeste, na qual afirmavam ser "profundamente lamentável que a missão confiada ao atual presidente seja transformada em um vergonhoso exercício de grosserias”.

‘Por que querem me destruir? Por que essa sede de poder, seu governador Witzel?’ - 29/10/2019

Um dos grandes apoiadores de Bolsonaro durante a campanha, o governador do Rio de Janeiro Wilson Witzel (PSC) também foi alvo das declarações do presidente. A primeira afirmação ríspida aconteceu após o nome do presidente ser citado por um porteiro em um depoimento no caso Marielle Franco. Entre os ataques desferidos, Bolsonaro atacou Witzel, culpando-o pelo vazamento do depoimento. Em nota, Witzel lamentou a manifestação do presidente, que classificou como “intempestiva”, e disse que foi atacado injustamente.

‘Eu zero o (imposto) federal hoje e eles (governadores) zeram ICMS’ - 05/02/2020

Em uma tentativa de dividir com os governadores o desgaste pela alta do preço dos combustíveis, Bolsonaro anunciou que enviaria uma proposta ao Legislativo que diminui a incidência do ICMS sobre combustíveis. O imposto é a principal fonte de receita dos Estados. Uma carta assinada por 23 governadores criticou a iniciativa e pedia um “debate responsável” sobre o assunto.

O presidente decidiu então desafiar os governadores e afirmou que retiraria os impostos federais sobre os combustíveis se os governadores zerassem o ICMS. João Doria chamou a atitude de Bolsonaro de “populista e pouco responsável”. Governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB) criticou o desafio e disse que o projeto não é “razoável, sensato e lógico".

‘Quem foi responsável pela morte do capitão Adriano foi a PM da Bahia do PT’ - 15/02/2020

Em uma nova carta, 20 governadores voltaram a se unir para criticar uma declaração do presidente, que acusou a Polícia Militar da Bahia, “do PT”, pela morte de Adriano Magalhães da Nóbrega. A menção ao PT é uma referência ao governador da Bahia, Rui Costa, filiado ao partido.

Costa respondeu pelo Twitter, sugerindo que Nóbrega mantinha laços de amizade com a Presidência da República - o capitão Adriano, como era conhecido, estava sendo investigado por ligações com um suposto esquema de “rachadinha” no gabinete do filho do presidente e então deputado estadual, Flavio Bolsonaro. A carta dos governadores diz que as declarações do presidente “não contribuem para a evolução da democracia no Brasil”.

‘Os governadores são verdadeiros exterminadores de empregos’ - 22/03/2020

Em entrevista à Record TV, o presidente fez duras críticas a medidas tomadas por governadores para restringir a circulação de pessoas e conter o avanço do coronavírus. "Os governadores são verdadeiros exterminadores de empregos. Essa é uma crise muito pior do que a causada pelo coronavírus no Brasil", afirmou Bolsonaro.

O presidente já havia feito críticas a governadores em outros momentos da semana, marcada pela escalada do número de casos da doença no País. João Doria retrucou: "Estamos fazendo o que deveria ser feito pelo líder do País, o que o presidente Jair Bolsonaro, lamentavelmente, não faz, e quando faz, faz errado", declarou o governador de São Paulo. Depois, em entrevista à CNN Brasil, Bolsonaro chamou Doria de "lunático" e o acusou de fazer política em cima da crise do coronavírus. O governador de São Paulo decretou quarentena em todo o Estado, determinando o fechamento de comércios e serviços não essenciais para conter a propagação do vírus.

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