O sumiço dos documentos dos generais da FEB

Desaparecimento envolve o dossiê do general Olympio Falconière; Arquivo Histórico do Exército diz ainda não ter cópias dos papéis de Cordeiro de Farias

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2020 | 09h57

Caro leitor,

Em uma sala no 6.º andar do Palácio Duque de Caxias, três pastas aguardavam a reportagem em cima da mesa. Eram o resultado do trabalho dos funcionários do Arquivo Histórico do Exército, atendendo a um pedido do Estadão, para localizar os documentos, como as folhas de alteração, dos quatro generais que comandaram a Força Expedicionária Brasileira (FEB).

Ali estavam os papéis de João Batista Mascarenhas de Moraes, que comandara a 1.ª Divisão de Infantaria Expedicionária (1.ª DIE) e de Euclides Zenóbio da Costa, responsável pela infantaria divisionária. Faltavam, porém, as pastas de Oswaldo Cordeiro de Farias e de Olympio Falconière da Cunha, os dois outros chefes militares na principal guerra travada pelo País no século passado: a 2.ª Guerra Mundial, quando 25 mil brasileiros foram lutar contra o nazifascismo nos campos da Itália.

O funcionário do arquivo logo tentou tranquilizar a reportagem sobre o destino dos documentos do general Cordeiro de Farias. “Creio que estão no Forte de Copacabana.” Seria natural que lá estivessem, ainda mais em razão da importância que os eventos de 5 de julho de 1922 tiveram na vida do País e no destino do chefe da artilharia divisionária da FEB. Então tenente rebelde, Cordeiro servia na Escola de Aviação do Exército quando foi preso, após o fracasso da sublevação contra o governo de Artur Bernardes.

E os papéis de Falconière, que comandara o 3.º Escalão da FEB e foi o inspetor-geral da tropa na Itália? Nada. O destino dos documentos do marechal era incerto. Não se sabia aonde foram parar. No ano em que a participação do Brasil na guerra completou seu 75.º aniversário, o Exército, que todos os anos procura manter a memória dos feitos dos pracinhas, não consegue localizar os documentos sobre a carreira de um dos seus generais.

Os de Mascarenhas, por exemplo, mostram que, às 9 horas de 5 de julho de 1922, o então capitão, da 2.ª Bateria do 1.º Regimento de Artilharia Montada, embarcou com os homens do 1.º Grupo da unidade para conter os militares rebelados no Forte de Copacabana, no Rio. “Foi louvado pelo senhor comandante do regimento pelo rigoroso cumprimento do dever nos deploráveis acontecimentos de 4 a 6 do corrente em que prestou, com indefectível dedicação, os melhores serviços à legalidade e à ordem pública, ameaçadas pelo levante.”

O elogio é assinado pelo major Epaminondas Teixeira Guimarães e está na folha 82 da relação de alterações do futuro comandante da FEB. Ali sabemos que, naquele dia – pela primeira vez, mas não pela última –, Cordeiro de Farias e Mascarenhas Moraes se encontraram em trincheiras opostas, um defendendo a ordem e a legalidade e o outro, uma sublevação em nome da salvação nacional e contra o regime oligárquico. Os revoltosos tinham então o seu totem: o marechal Hermes da Fonseca, que parecia representar o partido fardado, aquele que, nas reuniões do Clube Militar, botava abaixo a hierarquia dos quartéis.

Dois anos depois, Mascarenhas mais uma vez enfrentaria um dos colegas. Às 18h15 de 9 de julho de 1924, o então major embarcou com seu grupo de artilharia na Vila Militar, no Rio, com destino a São Paulo, onde desembarcou, no dia seguinte, em uma estação da Central do Brasil. Instalou seu posto de comando perto da Vila Matilde, na zona leste da cidade, de onde as tropas federais bombardearam a capital do Estado, tomada pelas forças revolucionárias. O combate durou até o dia 28, quando cessaram as hostilidades.

O general João José de Lima, comandante da 1.ª Brigada, escreveu então que o major Mascarenhas concorrera “em grande parte para a ação decisiva que teve a artilharia na vitória da legalidade.” Para o general, seu subordinado ajudara a “salvar a República da ignomínia dos traidores do dever militar e da honra nacional.”

Entre os tais traidores estava o tenente Falconière. Ele, que também fora preso em 1922, participava da tropa rebelde comandada pelo general Isidoro Dias Lopes, sublevado contra o governo. O futuro febiano marchou com os revoltosos para o interior do Estado, escapando da perseguição das tropas federais, após a rendição da capital paulista. E com seus colegas foi até o Paraguai, onde se exilou. Naqueles dias, Cordeiro de Farias estava no Sul e se engajaria na coluna Prestes. Só após a vitória da Revolução de 1930 é que os tenentes rebeldes se encontrariam de novo no mesmo Exército de Mascarenhas e de Zenóbio.

A história dos rebeldes, porém, com as anotações feitas por seus superiores, não foi localizada pelos funcionários do Arquivo Histórico em suas prateleiras. Pesquisadores e historiadores ficam assim sem saber como a instituição e seus comandantes julgaram os dois. Restou a memória dos legalistas e mesmo ela esteve ameaçada. Em 1982, houve uma grande confusão no arquivo quando a Biblioteca do Exército, a editora da Força Terrestre, pediu uma cópia dos papéis do comandante da FEB. Primeiro, nada foi encontrado. Depois, os documentos foram localizados, e as cópias fornecidas.

Mas qual a importância disso tudo? A trajetória dos comandantes da FEB ajuda a compreender o papel do Exército na República. Eles participariam de forma decisiva dos manifestos, sublevações e golpes dos anos 1920 aos 1960. Por meio deles,  portanto, pode-se alcançar até os que hoje conduzem o Planalto. Se o governo de Jair Bolsonaro de fato se importasse com a memória do País, mandava encontrar os papéis de Falconière e enviaria os originais de Cordeiro de Farias de volta ao Arquivo Histórico do Exército.

Em vez disso, o País assiste às patriotadas sobre a pandemia e os preços nos supermercados. Vê o governo perder tempo e dinheiro com peças amadoras de publicidade sobre "grandes vultos nacionais", enquanto Mário Frias, o mais novo candidato a Weintraub, lacra na internet. Tudo é espetáculo e vaidade neste governo.

É verdade que o presidente visita veteranos da Itália. Mas o alvo das imagens produzidas pela assessoria do Planalto está à vista de todos: as urnas de 2022. Não basta lembrar dos que lutaram contra a selvageria nazista enquanto o destino dos papéis da FEB permanece confuso e desconhecido.  O desprezo pela memória e o esquecimento do passado servem apenas ao arbítrio, à mentira e ao engodo. Servem para transformar homens de carne e osso em heróis de contos de fada, cujas pernas não tremem jamais depois de uma batalha. 

Marcelo Godoy

Marcelo Godoy

Repórter especial

Jornalista formado em 1991, está no Estadão desde 1998. As relações entre o poder Civil e o poder Militar estão na ordem do dia desse repórter, desde que escreveu o livro A Casa da Vovó, prêmios Jabuti (2015) e Sérgio Buarque de Holanda, da Biblioteca Nacional (2015).

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