Adriano Machado / Reuters
Adriano Machado / Reuters

O Exército, a Nação e a República

Foi com o advento da República que o Exército atingiu sua maioridade institucional

Edson Pujol*, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2019 | 03h00

Uma instituição à qual a Constituição do País confere status nacional e permanente obriga-se a apreciar sua própria história com a responsabilidade de extrair de cada contexto ensinamentos que contribuam para explicar sua identidade e trajetória e que forneçam indicações para sua caminhada futura. Para esse propósito, torna-se mais relevante analisar os processos que norteiam a evolução dessa instituição, que propriamente os distintos episódios em que esteve envolvida. 

No caso do Exército brasileiro, cuja história se confunde com a própria História da Pátria, essa argumentação é ainda mais válida. Se a gênese da Força Terrestre pode ser identificada com o simbolismo patriótico das Batalhas dos Guararapes e se a Independência do País permitiu consubstanciar sua criação formal, foi com o advento da República que o Exército atingiu sua maioridade institucional, assim entendida como a afirmação de seu profissionalismo, requisito indispensável para manter-se à altura da estatura político-estratégica da Nação. 

A chamada “questão militar” encontra-se entre os fatores que mais contribuíram para a crise que resultou na queda da monarquia. Durante a década de 1880, oficiais opuseram-se publicamente a sucessivos gabinetes imperiais, devido à insatisfação provocada pelas atitudes de desprezo em relação ao Exército, à postura abolicionista de recusa a participar da captura de escravos fugidos e ao sentimento de distanciamento e desvinculação do governo. 

Tal posicionamento refletia a adesão à causa republicana de parcela da oficialidade, em grande parte jovens influenciados pelas ideias positivistas de Augusto Comte, professadas pelo tenente-coronel Benjamin Constant e difundidas em sua cátedra na Escola Militar da Praia Vermelha. Com a criação do Clube Militar, em 1887, sob a liderança do Marechal Deodoro e do próprio Benjamin Constant, fortaleceu-se a participação do Exército na mudança do regime. 

Com efeito, a juventude militar não aristocrática formada na Praia Vermelha após a Guerra do Paraguai, adepta da meritocracia e empolgada pelo cientificismo positivista, via na monarquia um anacronismo a retardar a modernização do Brasil e, consequentemente, a profissionalização do Exército, objetivos a serem alcançados por uma sociedade orientada de acordo com o paradigma do “cidadão-soldado”. 

Mediante a assimilação de atributos, tais como organização, articulação, planejamento estratégico, doutrina, ensino, instrução, treinamento, serviço militar, política de pessoal e liderança, essenciais ao profissionalismo de uma força armada, o Exército se consolidaria como genuína instituição republicana, síntese da nacionalidade. 

Transcorridos 130 anos de experiência republicana, os integrantes do Exército de hoje encontram-se empenhados em um processo de transformação com vistas à obtenção de novas capacidades para o cumprimento de renovadas missões. Mas mantêm o compromisso legado pelas gerações passadas, calcado no culto à liberdade e à democracia e no amor à Pátria, o que confere ao Exército os mais altos índices de credibilidade junto à Nação brasileira. 

*COMANDANTE DO EXÉRCITO BRASILEIRO

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