GABRIEL LORDELLO/ESTADÃO
GABRIEL LORDELLO/ESTADÃO

Liberal-progressista do PSB procura primeira-dama

Político estreante, Felipe Rigoni tem aula de como ser um ‘bom deputado’ e acalenta projeto de virar presidente da República

Luiz Maklouf Carvalho, O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2019 | 14h00

Correções: 03/08/2019 | 19h54

ENVIADO ESPECIAL / VITÓRIA - Cego, 28 anos, loiro, olhos azuis, pele rosada, 124 quilos, procura companheira para futura esposa, mãe, e, talvez, primeira-dama do Brasil.

Está aí um anúncio fictício que resume os planos de curto, médio e longo prazos do engenheiro de produção e deputado federal Felipe Rigoni Lopes, do PSB, que ameaça puni-lo por ter votado a favor da reforma da Previdência. "Quero casar, ter quatro filhos, e, um dia, ser presidente da República", disse ele ao Estado durante entrevista em seu escritório político em Vitória (ES), na tarde do último dia 26, uma sexta-feira.

Estava chateado com os últimos disparates do presidente Jair Bolsonaro - "se não fosse trágico, seria cômico", disse -, particularmente com a ameaça de catapultar o filho deputado, o "03" Eduardo, a embaixador nos Estados Unidos. "Não está preparado, o inglês dele é comparável ao do Joel Santana", afirmou, referindo-se ao técnico de futebol famoso pelo embromation english.  Rigoni passou uma temporada fazendo intercâmbio nos Estados Unidos, e um ano na Universidade de Oxford, na Inglaterra, onde fez mestrado em Políticas Públicas. Teve até palestra de David Cameron, o ex-primeiro-ministro, contou.

O deputado chegou ao escritório, de jeans e camisa polo, com a ajuda de um assessor - sempre tem um ou uma por perto. Não usa bengala, mas tateia bem o conjugado de duas salas em que trabalha sua equipe. Em passos curtos, e cautelosos, o tênis vai conferindo a escuridão. A mão gorda procura acertar a do interlocutor, e a aperta, firmemente. Os olhos parecem encarar, à altura do rosto, com uma fresta que às vezes abre um pouco mais. O azul ainda está lá - mas é opaco, embaçado, enevoado, turvo. Tanto faz, para ele, ser chamado de cego ou de deficiente visual. "Pode chamar do que quiser, que eu vou continuar a não enxergar", brincou, na primeira de algumas tiradas de humor sobre a treva em que vive desde os 16 anos, quando a luz foi cessando, cessando, cessando, e cessou.

"Meu slogan da campanha ia ser 'Uma nova visão no Brasil', mas poderia ser mal visto", contou, divertido. Deu risada, também, com as recorrentes piadas "um cego de visão", "mais perdido que cego em tiroteio" e "em terra de cego quem tem um olho é rei". No programa do jornalista Pedro Bial, da TV Globo, - onde compareceu recentemente com a deputada Tabata Amaral (PDT-SP), e o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE), todos estreantes na política - Rigoni disse que a vantagem de ser relator de projetos, na Câmara, é não ter de ver cara feia. Cara bonita também não, como a de uma futura consorte que, miseravelmente, para ele, ainda não existe. "Já me acostumei a não ver, não faz mais falta, é um outro tipo de sensibilidade", comentou.

Sentado à mesa de reunião de oito lugares, o deputado pede o primeiro cafezinho dos quatro que tomou. A xícara é colocada em suas mãos - e ele o bebe tranquilamente, com a pontaria certeira. O problema começa quando a coloca de volta na mesa. Xícara e pires viram um alvo potencial das mãos que gesticulam com vigor. Por três vezes os acertou, algo atabalhoadamente, mas nada que atrapalhasse o ritmo da conversa.

Leitura com ajuda de 'Raquel'

"Sou um liberal-progressista", definiu-se, depois de citar com conhecimento de causa autores considerados cânones da doutrina econômica como Adam Smith, Karl Marx, Friedrich Hayek, John Maynard Keynes e, entre os modernos, o Thomas Piketty de O capital no século XXI.

Como que Rigoni os "leu"?, por assim perguntar. Com a ajuda fundamental de Raquel - como apelidou a voz metálica do aplicativo do celular, ou do computador, que lê os livros para ele, em inglês ou português, numa velocidade difícil de acompanhar. No momento, Raquel está às voltas com Sapiens, uma breve história da humanidade, de Yuval Noah Harari.

Quando coloca o celular próximo ao ouvido, para mostrar a facilidade e a utilidade do aplicativo, é como se Raquel pudesse vê-lo, ou vice-versa. "A Raquel foi uma verdadeira libertação", disse o deputado. Ele não pode perceber o quanto se olha para o cor-de-rosa nos braços musculosos (é faixa marrom de jiu-jítsu) e no rosto bem nutrido - mas explica a razão: "Odeio usar protetor solar, nunca usei". Como o recesso parlamentar o tem levado de vez em quando à praia - em Vila Velha, onde mora, ou em Itaúnas, onde vai -, o sol não tem deixado por menos.

Descendente de italianos que migraram para o Espírito Santo, mexeram com o plantio de café e, aos poucos, foram melhorando de vida, Rigoni é da capixaba Linhares, 158 mil habitantes, filho mais velho do ex-vereador e hoje empresário Ricardo Lopes e da floriculturista Jane Rigoni, dona de um viveiro em que cultiva begônias, gérberas e ixoras, entre outras plantas. O filho ajudava e atrapalhava, desde pequeno. Quando foi ficando cego, o que é a vida, virou craque no plantio delicado e difícil das ixoras, em que as sementes têm de se encaixar "em uma espuminha", em cima de gravetos. "Eu tinha mais precisão do que os outros", gabou-se.

Ao todo, 17 cirurgias

Sua visão começou a claudicar ali pelos cinco anos, quando ficou difícil divisar os contornos na tela da TV, obrigando-o a chegar muito perto. "Essa é uma imagem muita clara que eu tenho dessa época", disse, sem perceber a contradição. Mas deu para estudar, ser um bom aluno e tocar a infância e o começo da juventude. Ali pelos 12 uma catarata o cegou do lado esquerdo. Seguiu em frente, sem maiores dramas, até os 15, quando um colega de escola percebeu que estava escrevendo linha em cima de linha, e quando já não via mais do que manchas escuras onde antes havia, por exemplo, o portão da garagem da casa. 

O problema foi diagnosticado como uma inflamação na úvea, o conjunto da íris, uma uveíte. Fez 17 cirurgias, como já cansou de contar. "Fui perdendo a capacidade de captar luz, até não enxergar mais nada", explicou. Disse ao Estado que tanto na catarata, quanto na uveíte, acredita ter havido erro médico. Em 2006 veio o breu. "Foi um baque muito grande", lembrou. "Meu maior medo era me tornar incompetente - e continua sendo."

Fechou-se em copas por uns tempos, engordou horrores - "de comer barras inteiras de chocolate, tal a ansiedade" -, mas foi vendo luz, no túnel, e correu atrás. Aprendeu a tocar violão, seguiu no jiu-jítsu, estudou inglês na Califórnia, formou-se engenheiro de produção na Universidade de Ouro Preto, onde morou em uma república de estudantes por nome "Copo Sujo". Fez quase tudo aquilo que o nome sugere - barzinhos, amizades, namoradas. "Aí a vida melhorou", contou, feliz, dando ênfase à última parte.

De coaching a político

Tinha tudo para não ser político - começando pelo exemplo do pai, que odiou a experiência como vereador (89-92) e tornou-se empresário. Mas algum anseio difuso por uma ação mais coletiva - como tentou explicar - o levou a querer trocar a profissão de coaching, tipo um técnico em autoajuda, onde ganhava bem, por uma vaga na Câmara Municipal de Linhares, pelo PSDB, em 2016. Teve 1.156 votos (1,40%), e não se elegeu. O pai, que então já voltara a atuar, sem mandato, no direção local do PSDB, foi um entusiasmado cabo eleitoral.

Veio o mestrado em Oxford, em 2017, e, em 2018, como contou, um convite para trabalhar em um banco europeu, ganhando 10 mil euros mensais. Preferiu voltar para o Brasil, em junho de 2018, e despontar nos movimentos Acredito, Renova Br e Empresa Junior. Já estava decidido a tentar ser, até onde a vista alcança, o primeiro cego deputado federal na história do Brasil. (Há outros em câmaras  municipais e no legislativo estadual - como o deputado Rafael Silva, também do PSB, em São Paulo, já em seu sétimo mandato. "A deficiência visual nunca me impediu de atuar com seriedade e independência", disse Silva.)

Mesmo sendo um liberal-progressista de leitura e carteirinha, Rigoni escolheu filiar-se ao Partido Socialista Brasileiro, de ideário essencialmente oposto. Funcionou, na opção, a velhíssima política do interesse eleitoreiro e pragmático. "No PSB eu tinha mais chances", disse. Mostrou, também, uma "Carta-compromisso entre o Movimento Acredito e o PSB". Nela se lê que o partido "se compromete a respeitar as autonomias política e de funcionamento do Acredito, bem como a identidade do movimento e de seus representantes". Rigoni foi eleito com 84.405 votos.

"Quem lê e entende números, sabe que a reforma da Previdência é essencial para o futuro do Brasil", disse o deputado na terceira xícara de café, coitada. "Sou contra punições por ter votado a favor - e acho que o PSB é que deve rever e modernizar sua posição programática. Afinal, de seus 32 deputados federais, nem todos são socialistas."

'Como é que eu faço para ser um bom deputado?'

Em dezembro do ano passado, já eleito, o estreante Felipe Rigoni procurou o veterano advogado, ex-deputado constituinte, ex-ministro da Justiça, da Defesa e do Supremo Tribunal Federal, Nelson Jobim, hoje no conselho de administração do BTG Pactual. Jobim havia dado uma palestra à turma jovem do Renova Br - e encantara Rigoni. Ele ligou, pediu para ser recebido, e Jobim concordou. "Como é que eu faço para ser um bom deputado?", perguntou, de cara, olho no olho, em uma sala de reunião do BTG. Jobim deu a aula que se pode imaginar - funcionamento do colégio de líderes, etc, etc -, mas uma frase em particular martela até hoje na cabeça e na prática do deputado: "Felipe, na política você não escolhe seu interlocutor". É isso que ele tem feito - como dão prova os aplausos que já andou recebendo de gregos e troianos na casa de Rodrigo Maia, em cujo gabinete entrou por engano numa reunião de lideranças a que não fora chamado, com a presença do ministro Paulo Guedes. Ficaram vendo o constrangimento que só ele podia sentir - e tudo acabou em abraços.

Falta voltar aos 92 quilos de antigamente, e, principalmente, para a energia de seus 28 anos, conseguir a possível futura primeira-dama. "Achei que depois de eleito fosse ficar mais fácil - mas não está sendo", disse, ente um sorriso e outro. Tem alguma em vista? O trocadilho infame arrancou uma gargalhada, e uma resposta quase auspiciosa: "Tem, mas ela ainda não sabe". Quem viver, verá.

Correções
03/08/2019 | 19h54

O peso do deputado federal Felipe Rigoni é 124 quilos, e não 144 quilos como foi informado anteriormente.

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