Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Bolsonaro quer ver filho embaixador nos EUA

Com apoio da cúpula do Itamaraty, presidente anuncia a intenção de indicar Eduardo para posto em Washington; ‘eu aceitaria’, diz deputado, que não tem carreira na área

Eliane Cantanhêde, Julia Lindner e Renato Onofre, O Estado de S.Paulo

11 de julho de 2019 | 18h10
Atualizado 17 de julho de 2019 | 11h19

BRASÍLIA – Depois de avisar há meses que trocaria o embaixador do Brasil nos Estados Unidos, o presidente Jair Bolsonaro finalmente deixou claro o porquê da demora: durante todo esse tempo, ele articulava a indicação do próprio filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), para o posto diplomático mais importante e mais disputado não apenas no Brasil, mas em praticamente todos os países, a embaixada em Washington. Eduardo é presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara.

O presidente só anunciou a intenção publicamente ontem, durante a solenidade de posse do novo presidente da Agência Brasileira de Inteligência (Abin). Ao ser indagado por jornalistas, o virtual futuro embaixador indicou que aceitará a missão. “Se for da vontade do presidente e ele realmente me entregar essa função de maneira oficial, eu aceitaria”, afirmou Eduardo, que, quarta-feira, 10, completou 35 anos – idade mínima para um brasileiro assumir uma representação diplomática no exterior.

Ao falar no nome do filho, o presidente citou atributos que o credenciariam para a vaga, como inglês fluente e canais abertos nos Estados Unidos, inclusive na Casa Branca: “Ele é amigo dos filhos do (presidente dos EUA, Donald) Trump, fala inglês, fala espanhol, tem vivência muito grande de mundo. No meu entender poderia ser uma pessoa adequada e daria conta do recado perfeitamente”.

Para o ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, no entanto, a indicação de Eduardo para o cargo poderá ser enquadrada como nepotismo. “Não tenho a menor dúvida (de que é nepotismo). Sob a minha ótica, não pode, é péssimo. Não acredito que o presidente Bolsonaro faça isso. Será um ato falho, um tiro no pé”, disse o ministro ao Estado.

Em 2017, Marco Aurélio suspendeu a nomeação de Marcelo Hodge Crivella para o cargo de secretário da Casa Civil da gestão do pai, Marcelo Crivella (PRB), na Prefeitura do Rio, por entender que se tratava de nepotismo. Uma súmula vinculante do STF veda a nomeação de parentes em cargos públicos, mas ministros da Corte têm entendido que ela não alcança cargos políticos.

Ao ser questionado, Eduardo disse que a indicação é legítima. “A possibilidade (de se configurar nepotismo) pode ocorrer, mas a primeira análise que fizemos aqui é que não se enquadraria nisso. Seria uma indicação igual como de um presidente indicar um ministro. Estaria fora da súmula vinculante. Fora da questão do nepotismo”, afirmou.

Tanto o Itamaraty quanto a Embaixada dos EUA em Brasília reagiram com surpresa ao anúncio feito pelo presidente. Nos bastidores, as avaliações são semelhantes: nos dois locais, a versão é de que Eduardo tem uma grande vantagem, que é ter as portas abertas no Brasil e nos Estados Unidos, onde foi o único brasileiro a participar, inclusive, da audiência bilateral entre os presidentes Bolsonaro e Donald Trump. “Ele conhece todo mundo lá, isso ajuda muito na aproximação, nas relações”, resumiu um embaixador da cúpula do Itamaraty.

Eduardo: ‘Eu aceitaria qualquer missão que o presidente me der’

A própria equipe do ministério, porém, não arrisca um palpite sobre a reação de diplomatas de carreira, que há meses trabalham com a hipótese de o número dois da embaixada em Washington, Nestor Forster, assumir a vaga que, hoje, formalmente, ainda é do embaixador aposentado Sérgio Amaral. Forster, que aderiu desde cedo à campanha presidencial de Bolsonaro e é interlocutor do “guru” Olavo de Carvalho, foi recém-promovido, assumindo a condição de embaixador em exercício com a volta de Amaral para o Brasil, no mês passado.

Não é inédito, nem mesmo estranho, que uma personalidade fora da carreira assuma embaixadas no exterior ou mesmo o cargo de chanceler. Os exemplos de políticos e empresários que já exerceram o papel de embaixador são muitos ao longo da história. Entretanto, essa prática sempre foi menos comum em Washington, posto número um da diplomacia e, portanto, em geral reservado a diplomatas de carreira.

Eduardo admitiu a falta de experiência na diplomacia, mas citou vantagens que o fato de ser filho do presidente pode proporcionar caso assuma a embaixada em Washington. “Óbvio que não sou um diplomata de carreira, não fiz o concurso público. Mas depende da missão que o presidente vai passar. Eu acredito que a nomeação ou indicação de uma pessoa tão próxima do presidente seria visto com bons olhos pelo lado americano”, disse.

‘Cargo sempre foi ocupado por pessoas técnicas’, diz analista

Para Lucas Leite, doutor em Relações Internacionais e professor da FAAP, a indicação, caso confirmada, representará um “desrespeito” aos demais diplomatas brasileiros. “Ele não é um diplomata formado de carreira, nós temos historicamente uma série de pessoas que são muito mais capacitados para o cargo. Independente do governo ser mais de esquerda, de direita, centrista, sempre foi um cargo ocupado por pessoas muito técnicas e capacitadas”, afirmou.

Após a indicação oficial do nome de Eduardo – o que ainda não foi feito –, ele terá de cumprir todas as etapas para a confirmação de embaixadores em postos no exterior. Uma delas, provavelmente a mais delicada, é passar por uma sabatina no Senado, onde, aliás, há uma fila de mais de vinte embaixadores brasileiros esperando sua vez. Caso aceite e passe pela sabatina, Eduardo terá de renunciar ao cargo de deputado./ COLABORARAM RAFAEL MORAES MOURA, VINICIUS PASSARELLI e PAULO BERALDO 

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