Luis Macedo/Camara dos Deputados
Luis Macedo/Camara dos Deputados

Primeiro parlamentar cego, Rigoni quer mais acessibilidade no Congresso e diálogo na política

Deputado que perdeu a visão aos 15 anos diz que é necessário ter mais interlocução com o governo e defende troca no ministério da Educação

Paulo Beraldo e Bruno Nogueirão, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2019 | 13h40

Primeiro parlamentar cego ao chegar ao Congresso Nacional, o deputado federal Felipe Rigoni (PSB-ES) se adaptou com facilidade à estrutura da Câmara dos Deputados. "Tudo que eu preciso para minha atuação parlamentar eu tenho", diz. No entanto, não pode dizer o mesmo dos visitantes com deficiência visual. “Falta piso tátil, faltam mais sinalizações, os policiais legislativos não podem sair de seus postos para orientar as pessoas cegas que entram. Isso acaba dificultando a vida e estou reivindicando mudanças", afirma. 

Com a chegada de Rigoni, a Câmara adaptou o sistema de votação eletrônica, adquiriu softwares para leitura de tela e instalou placas em braile. Elaborou ainda um projeto para instalar sinalização tátil no piso e corrimãos em rampas e escadas, com objetivo de ampliar a acessibilidade do local.

Se para ele a acessibilidade está em ordem, a relação entre o Congresso e o Executivo não está no mesmo patamar. Quase três meses após o início da nova gestão presidencial, ele diz que o governo ainda está "desorganizado" e que falta interlocução. "Entre a velha política, que eu também sou contra, e nem se falar, tem muita diferença. É preciso pelo menos sentar na mesa para conversar. O governo não fala", avalia. Ele também defende a troca do ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez. "Esse hoje é o pior ministério. Preferia que fosse alguém com mais capacidade para o cargo". 

No seu dia a dia, Felipe Rigoni não gosta de usar bengala nem cão-guia. Prefere colocar a mão no ombro de alguma pessoa próxima e caminhar até onde precisa chegar. Engenheiro mecânico formado pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), chegou a Brasília em fevereiro deste ano, aos 27 anos, para exercer seu primeiro mandato. É uma das 243 pessoas que participaram da maior renovação da Câmara dos Deputados desde 1986 - 47% de novos parlamentares.

Superação

 Rigoni lutou desde os seis anos de idade contra uma infecção ocular chamada uveíte. Aos 15 anos e após 17 cirurgias, veio a confirmação de que estava cego. "Nessa época, entrei num ciclo de pensamentos negativos muito grande. Imaginava que era tudo muito injusto, não via razão para viver", conta.

Nesse período, o apoio familiar foi decisivo. Um dia, em 2006, enquanto Felipe chorava na sala de casa, o pai se aproximou do filho e disse: "Felipe, lembre que você tem uma escolha". Falou aquilo e saiu. Felipe demorou para compreender a mensagem. 

"Até hoje, quando tenho um dilema, vem esse momento com meu pai. Comecei a entender que eu tinha uma escolha, não da situação, mas da atitude que eu teria diante de cada situação. Não dava para fazer nada em relação ao fato de ser cego, mas dava para fazer em relação à atitude que eu tinha sobre isso", afirma.

Em seu primeiro discurso na Câmara, em 20 de fevereiro deste ano, o capixaba de Linhares contou essa história e recebeu aplausos dos presentes. Em determinado trecho, dá o tom do que tende a guiar sua atuação. "Enquanto a gente fica aqui obstruindo o andamento de projetos que concordamos para marcar posição, tem 60 milhões de brasileiros endividados e quase 13 milhões de desempregados. Acredito que não foi para esse tipo de atitude que milhões de brasileiros depositaram a esperança em nós".

As palavras abriram portas para o novato no Congresso. "Todo mundo começou a me tratar melhor a partir dali", diz. Rigoni tem se aproximado de parlamentares mais experientes para identificar quais de suas pautas, ligadas à gestão pública eficiente, à educação e ao desenvolvimento econômico, podem ter resistência e como fazê-las ir adiante.

Após as duas últimas semanas, em que houve troca de insultos públicos entre o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e o presidente Jair Bolsonaro, Rigoni se diz "preocupado" com a aprovação da reforma da Previdência, o projeto mais importante da atual administração. 

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