Forças Armadas participam de teste de segurança das eleições para acalmar Bolsonaro

Presidente está há um mês sem ameaçar descumprir ordens do Supremo ou ofender os ministros; Barroso conduz reunião da Comissão de Transparência das Eleições nesta segunda

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

04 de outubro de 2021 | 10h00

Caro leitor, 

 

Nesta semana, Bolsonaro vai completar um mês sem ofender ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) ou ameaçar descumprir ordens da Corte. O ex-presidente Michel Temer deve se preparar para receber os telefonemas de felicitações pelo feito. Há nos quartéis muitos que, se pudessem, enviariam mimos e lembranças ao ex-presidente por, finalmente, terem um ou dois fins de semana tranquilos. Mas ninguém se ilude. Ninguém aposta que a calmaria seja mais longa do que a drôle de guerre que antecedeu a blitzkrieg, em maio de 1940. Uma hora Bolsonaro vai retomar suas campanhas. 

Basta acompanhar, para tanto, as postagens compartilhadas em grupos de WhatsApp frequentados por militares e policiais. Na semana passada, um desses grupos foi inundado com posts contra a vacinação – não apenas de adolescentes – e o uso de máscaras. Uma das publicações afirmava que a vacina contra covid-19 tornava as pessoas mais expostas a doenças como câncer. Espalhar notícias falsas como essa pelas redes sociais em meio à pandemia pode ter o mesmo efeito de alguém gritar "fogo" no meio de uma sessão de cinema. Por enquanto, a adesão da população brasileira aos imunizantes mostra o fracasso do negacionismo. 

No Sermão da Quinta Dominga da Quaresma, o padre Antônio Vieira disse sobre o Brasil: "Não há dúvidas (...) que de todos os modos e por todos os modos aqui se mente". "Novelas e novelos, são as duas moedas correntes desta terra, mas têm uma diferença, que as novelas armam-se sobre nada, e os novelos armam-se sobre muito, para tudo ser moeda falsa." O religioso afirmava que, nessas terras, até o clima era enganoso: "Amanhece o sol muito claro, prometendo um formoso dia, e dentro em uma hora tolda o céu de nuvens, e começa a chover como no mais entranhado inverno".

Ninguém estava a salvo dessa contingência tropical. Quando o almirante dom Fradique de Toledo Osório, o Marquês de Valdueza, veio "restaurar a Bahia", em 1625, foi surpreendido pelo aguaceiro em Salvador com a toda a gente da Armada em campo para passar a tropa em revista. Admirado com a inconstância do clima, sentenciou: "En el Brasil hasta los cielos mientem". Ao comentar essa situação com seus fiéis em São Luís, no Maranhão, Vieira se saiu com essa: "Não sei se é isto descrédito, se desculpa. Que mais pode fazer um homem, que ser tão bom como o céu da terra em que vive?" Imagina se conhecesse o zap do presidente...

Há muita convicção e pouca responsabilidade na ética de Bolsonaro. E no Twitter de alguns generais. Paulo Chagas insiste em defender a cloroquina e a ivermectina. Diz ter vários testemunhos de que elas funcionam. O general desconhece o que é método científico ou efeito placebo e desconsidera até mesmo o fato de que, independentemente do que uma pessoa tomar, a chance de ela não desenvolver nenhum sintoma ou sintoma leve de covid-19 ao ser contaminado pelo Sars-Cov-2 é muito mais alta do que a de desenvolver as formas graves da doença.

Há séculos testemunhas afirmam ser o mel e o limão uma cura para todos os males. E o general acredita que a ciência se faz com o testemunho de amigos. Ao mesmo tempo diz que se vacinou e tomará a terceira dose. O sincretismo no Brasil tem raízes profundas... Desde que Bolsonaro silenciou a respeito dos militares, a maioria dos seus antigos companheiros também diminuiu sua exposição nas redes sociais. É o caso do general Santos Cruz, que anunciou que será candidato, ainda que não saiba por qual partido. Diz o general que entra na política para que os militares não se envolvam na política.

O Clube Militar se rebelou contra a obrigatoriedade do comprovante de vacinação para entrar em suas sedes. A diretoria obteve liminar na Justiça –  decisão cassada pelo STF – para que membros não imunizados pudessem andar livremente em suas dependências. A Casa da República virou a Casa da Cloroquina. E isso um mês após assinar com o Clube da Aeronáutica e com o da Marinha uma nota de apoio ao voto impresso. O salvacionismo e a moralização da política se colocaram à serviço da esperteza do bolsonarismo, que desejava fazer com que as urnas mentissem em 2022. Fradique de Toledo não fazia ideia do futuro desse País...

A fraude no voto foi só mais uma das mentiras do bolsonarismo. A agência de checagem de informações Aos Fatos detectou 4.020 declarações falsas ou distorcidas feitas por Bolsonaro desde sua posse, em 2019, até 1.º de outubro. É possível que esse número já esteja ultrapassado quando o leitor estiver diante desta linha da coluna. Aos Fatos, o Estadão Verifica, além de outras agências, participaram de uma coalizão de verificação que colaborou com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no combate a campanhas de desinformação nas eleições municipais de 2020. O tribunal estuda reeditar essa aliança na eleição de 2022. 

Hoje, o TSE vai abrir mais um capítulo da guerra contra a mentira na eleição e pela lisura do voto. Os 12 integrantes da Comissão de Transparência das Eleições da Corte participam do Ciclo de Transparência Democrática – Eleições 2022. Durante o evento no tribunal será feita a abertura dos códigos-fontes das urnas. Entre os convidados pelo presidente do TSE, ministro Luís Roberto Barroso, para compor a comissão está o general Heber Garcia Portella, comandante de Defesa Cibernética das Forças Armadas.

Heber foi indicado a pedido de Barroso, que procurou o ministro da Defesa, general Walter Braga Netto, a quem o comando está subordinado. Além dos militares, a comissão conta com a Polícia Federal, a OAB, universidades, o Ministério Público Federal, o Tribunal de Contas da União e organizações não governamentais. Até agora as Forças Armadas não conhecem qual será o seu papel no trabalho e qual o alcance dessa participação. Eles querem saber se, além de verificar a integridade das urnas, também poderão examinar a segurança da transmissão dos dados dos Estados para o TSE. 

A presença do general Heber esvaziou, por enquanto, o discurso de Bolsonaro contra o voto eletrônico. Acalmou o presidente. Em entrevista à revista Veja, o capitão disse que, com as Forças Armadas na comissão, não havia mais porque duvidar da lisura da eleição. Barroso pode acordar hoje com o sol entre nuvens no céu de Brasília. Mas é melhor não esquecer a lição aprendida no século 17 por dom Fradique de Toledo. Nem a conclusão do Padre Vieira. Afinal, que mais pode fazer um homem, que ser tão bom como o céu da terra em que vive?

Marcelo Godoy

Marcelo Godoy

Repórter especial

Jornalista formado em 1991, está no Estadão desde 1998. As relações entre o poder Civil e o poder Militar estão na ordem do dia desse repórter, desde que escreveu o livro A Casa da Vovó, prêmios Jabuti (2015) e Sérgio Buarque de Holanda, da Biblioteca Nacional (2015).

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