Joshua Roberts / Reuters / Gabriella Briló / Dida Sampaio / Estadão
Joshua Roberts / Reuters / Gabriella Briló / Dida Sampaio / Estadão

Família Bolsonaro critica a democracia do Brasil desde 1990; relembre

Montagem com presidente como leão atacado por 'hienas' do STF e da ONU é último capítulo em histórico de atrito com outros Poderes da República

João Ker, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2019 | 12h24
Atualizado 31 de outubro de 2019 | 12h33

Na tarde desta segunda-feira, 28, o presidente Jair Bolsonaro publicou uma montagem em sua conta oficial no Twitter, na qual ele aparece como um leão sendo atacado por hienas identificadas como o Supremo Tribunal Federal, a ONU, a imprensa, partidos de oposição e até a Lei Rouanet. Há cerca de um mês, o vereador Carlos Bolsonaro, filho “02” do presidente da República e um dos responsáveis por suas redes sociais, afirmou que o país não poderia mudar “por vias democráticas”. À época, dois auxiliares do presidente disseram, sob condição de anonimato, que "o que Carlos fala não se escreve". Um ministro chegou a afirmar que a postagem do vereador “é uma maluquice”.

Esses, entretanto, não são os únicos episódios que a família Bolsonaro expõe publicamente falas ou atitudes consideradas anti-democráticas. Os registros de tais declarações começam ainda na década de 1990. Relembre-os abaixo: 

 

“Através do voto, você não muda nada no país. Tem que matar uns 30 mil”

Durante entrevista concedida na década de 1990, Jair Bolsonaro afirmou ser favorável à tortura e ao “pau-de-arara”, técnica usada durante a ditadura militar (1964 - 1985). Questionado se fecharia o Congresso Nacional caso um dia caso fosse eleito presidente da República, ele respondeu: “Não há a menor dúvida! Daria golpe no mesmo dia”.

Na mesma sequência, ele afirmou: “Através do voto, você não mudar absolutamente nada no Brasil. Só vai mudar quando tivermos uma guerra civil aqui dentro”. Assista abaixo:

 

“Se quiser fechar o STF, manda um soldado e um cabo”

Em julho do ano passado, Eduardo Bolsonaro defendeu que, para “fechar o STF” bastaria “um cabo e um soldado”, e que os ministros não teriam poder “na rua”. A afirmação foi feita para alunos de um curso preparatório para a Polícia Federal, após o filho do então presidenciável Jair Bolsonaro dizer que o Supremo estaria “pagando pra ver”, caso impugnasse a candidatura de seu pai.

“Será eles que vão ter essa força mesmo? O pessoal até brinca lá: se quiser fechar o STF sabe o que você faz? Você não manda nem um Jipe, manda um soldado e um cabo. Não é querendo desmerecer o soldado e o cabo. O que é o STF cara? Tira o poder da caneta de um ministro do STF, o que ele é na rua?"

 

“Só há democracia e liberdade quando forças armadas querem”

Em março deste ano, durante um discurso improvisado para fuzileiros navais, Bolsonaro disse que a democracia e a liberdade dependem da vontade das Forças Armadas. A declaração foi dada em um quartel da Marinha, no Rio de Janeiro, um dia após a polêmica do “golden shower”.

“(Essa missão) Será cumprida ao lado das pessoas de bem do nosso Brasil, daqueles que amam a pátria, daqueles que respeitam a família, daqueles que querem aproximação de países que têm uma ideologia semelhante à nossa, daqueles que amam a democracia e a liberdade. E isso, democracia e liberdade, só existem (sic) quando a sua respectiva força armada assim o quer”, disse Bolsonaro, no discurso à tropa.

 

“País ingovernável”

Pouco mais de dois meses depois, Bolsonaro voltou com o discurso de que é vítima de um sistema corrompido ao compartilhar, por WhatsApp, um texto que afirma “que o Brasil, fora desses conchavos, é ingovernável”. Atacando o que chama de “velha política”, o texto diz que o presidente sofre pressões de todas as corporações, em todos os Poderes, e que o País “está disfuncional”, mas não por culpa de Bolsonaro. 

 

“Escolhido por Deus”

Na mesma semana, o presidente da República publicou em suas redes sociais um vídeo no qual o pastor congolês Steve Kunda afirma que ele foi “escolhido por Deus” para comandar o País. Na publicação, Bolsonaro escreveu que “não existe teoria da conspiração, existe uma mudança de paradigma na política” e que “quem deve ditar os rumos do país é o povo! Assim são as democracias”.

A Constituição brasileira assegura que o Estado seja laico, ou seja, sem a agregação de valor religioso sobre os governantes e seus atos. Além disso, a forma de governo na qual o líder justifica seu cargo como chefe de Estado por indicação divina é a monarquia absoluta.

 

“O problema do Brasil é a classe política”

No dia seguinte, Bolsonaro criticou a classe política brasileira como um todo, afirmando durante discurso para empresários: “É um país maravilhoso que tem tudo para dar certo, mas o grande problema é a nossa classe política. (...) Nós temos que mudar isso”, disse na ocasião, ao lado de Marcelo Crivella e Wilson Witzel, prefeito e governador do Rio, respectivamente.

Apoio a Ditaduras

Antes mesmo de chegar à presidência, Bolsonaro já elogiou e reverenciou ditaduras militares como a que se instaurou no Brasil, entre 1964 e 1985. Em seu voto durante o impeachment de Dilma Rousseff, ele chamou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra de “herói nacional”, fala repetida ainda no mês passado. Ustra foi o primeiro militar condenado por tortura e sequestro na ditadura.

Na semana passada, o presidente, que já negou a existência de um golpe militar no Brasil, voltou a elogiar regimes ditatoriais. Dessa vez, Bolsonaro exaltou a ditadura de Augusto Pinochet, no Chile, responsável pela prisão e tortura de 32 mil pessoas entre 1973 e 1990.  

 

Desrespeito às Instituições e interferência nos Três Poderes

Além de ter defendido o fechamento do Congresso durante a década de 1990, o presidente é protagonista recorrente de críticas e sugestões de interferência nas instituições brasileiras e nos Três Poderes. Em 2018, ele questionou a atuação do STF, no mesmo dia em que era julgado pelo tribunal por uma denúncia de racismo

Em maio deste ano, ele voltou a criticar o Supremo após este ter aprovado que a discriminação por orientação sexual ou identidade de gênero deve ser equiparada ao crime de racismo. O presidente sugeriu, mais uma vez, misturar política com religião ao defender que indicaria um ministro “terrivelmente evangélico” no STF.

O 'leão' Bolsonaro x 'Hienas' do STF e da ONU

Na tarde desta segunda, 28, o presidente publicou em sua conta oficial no Twitter um vídeo em que ele se põe no lugar de um leão atacado por hienas, identificadas na postagem como o Supremo Tribunal Federal, a ONU, a imprensa, os partidos de oposição, como o PT e o PCdoB, e o seu próprio partido, PSL. A publicação, que veio acompanhada do slogan "Brasil acima de tudo, Deus acima de todos", ainda terminou com a mensagem “Vamos apoiar o nosso presidente até o fim. E não atacá-lo. Já tem a oposição para fazer isso!”.

Apesar de a responsabilidade da postagem ter sido atribuída a Carlos Bolsonaro nos bastidores, e de o próprio presidente ter pedido desculpas pela publicação, ela foi suficiente para criar atrito entre os poderes Executivo e Judiciário, provocando uma nota oficial do ministro Celso de Mello. “O atrevimento presidencial parece não encontrar limites na compostura que um chefe de Estado deve demonstrar no exercício de suas altas funções, pois o vídeo que equipara, ofensivamente, o Supremo Tribunal Federal a uma ‘hiena’ culmina, de modo absurdo e grosseiro, por falsamente identificar a Suprema Corte como um de seus opositores”, afirmou em nota.

"A gente vai ver a história se repetir"

Durante pronunciamento na Câmara feito nesta terça, 29, Eduardo voltou a insinuar que uma nova ditadura militar poderia ser instaurada no Brasil. “A gente vai ver a história se repetir”, afirmou sob vaias, comentando a hipótese de os protestos do Chile chegarem ao Brasil. "Não vamos deixar, não vamos deixar isso aí vir para cá. Se vier para cá, vai ter de se ver com a polícia. E se eles começarem a radicalizar do lado de lá, a gente vai ver a história se repetir. Aí é que eu quero ver como é que a banda vai tocar", disse.

Um novo AI-5, "se a esquerda radicalizar"

Também nesta semana, o deputado disse, em entrevista à jornalista Leda Nagle, que a possibilidade de um novo AI-5 com legislação aprovada via plebiscito, “como ocorreu na Itália”, seria a saída “se a esquerda radicalizar a esse ponto”. Novamente, Eduardo fez a afirmação enquanto comentava os protestos chilenos. 

“Alguma resposta vai ter que ser dada. Porque é uma guerra assimétrica, não é uma guerra em que você está vendo o seu inimigo do outro lado e você tem que aniquilá-lo como acontece nas guerras militares. É um inimigo interno, de difícil identificação aqui no País. Espero que não chegue a esse ponto, né, mas a gente de que estar atento”, afirmou o parlamentar.

A entrevista foi gravada no último dia 28, um dia antes da afirmação feita na Câmara. Instituído pela ditadura militar em 13 de dezembro de 1968, o Ato Institucional nº 5 marcou o período de repressão mais violenta durante o regime.

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