Mauro Pimentel/AFP
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Daniel Silveira, pivô de embate de Bolsonaro e STF, participa de atos com tom eleitoral no Rio e SP

Condenado por ataques à democracia, o deputado, que recebeu perdão do presidente, disse que 'a liberdade vale mais que a própria vida', mas afirmou que estava armado no ato em Copacabana

Vinicius Neder e Renato Vasconcelos, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2022 | 11h18
Atualizado 01 de maio de 2022 | 19h29

NITERÓI, RIO E SÃO PAULO - Pivô do mais recente embate do presidente Jair Bolsonaro (PL) com o Supremo Tribunal Federal (STF), o deputado Daniel Silveira (PTB-RJ) participou de dois atos no Rio de Janeiro e um em São Paulo neste domingo, 1º, . Em clima de campanha eleitoral, o parlamentar, condenado a 8 anos e 9 meses de prisão por ataques à democracia e por incitar violência física contra ministros da Corte, foi ovacionado por bolsonaristas.

Silveira, que recebeu, no último dia 21, o perdão de Bolsonaro, foi primeiro a Niterói, na região metropolitana. Depois, a Copacabana, na zona sul da capital fluminense e, por fim, a São Paulo, para participação na manifestação na Avenida Paulista.

Nas duas manifestações no Rio, Silveira fez quatro discursos no total, três em Copacabana e um em Niterói. Em todas suas falas, sempre de cima de um carro de som, ressaltou pontos como defesa da “liberdade” e pediu votos para o presidente Bolsonaro.

“A liberdade vale mais que a própria vida, um homem, uma mulher, sem liberdade não vivem, simplesmente existem”, afirmou Silveira, logo cedo, em Niterói. “Vamos viver e colocar o Brasil na liberdade que o presidente tanto sonha. Não tem nada que preocupe mais o presidente do que livrar o Brasil do socialismo que vem avançando.”

Ao defender a “liberdade” em um dos discursos em Copacabana, o parlamentar também defendeu o porte de armas. “Quem aqui, ama sua família? Quem aqui vai permitir que alguns poucos venham dominar os nossos filhos, doutrinando e até mesmo adestrando? Com os nossos filhos e a nossa família, não. Aquele outro, do outro lado, o de nove dedos (numa referência ao ex-presidente Lula), disse que ia acabar com a família, que ia acabar com o armamento. Estou armado e sempre vou estar armado. Quem aqui estiver armado, ninguém aqui é bandido não. Aqui todo mundo quer se proteger, quer ser livre”, afirmou Silveira.

Nos discursos em Copacabana, Silveira tambpem acrescentou algumas temáticas, como a comparação com a Venezuela e o enfrentamento à pandemia de covid-19.

“Se não fosse o presidente Bolsonaro, seríamos, sim, uma Venezuela em proporções continentais”, afirmou Silveira, no primeiro dos três discursos. “A pandemia existiu, sim, mas, ainda assim, politizaram para prejudicá-lo (a Bolsonaro). E ele conseguiu manter o Brasil entre os países que conseguiram se segurar durante a pandemia. Aquele tal do ‘fica em casa, a economia a gente vê depois’, ele previu e nos avisou”, completou o parlamentar.

Também classificou como “presos políticos” ele e outros apoiadores de Bolsonaro que enfrentam processos no Judiciário por participação em atos antidemocráticos, como o ex-deputado federal Roberto Jefferson (PTB) e os jornalistas Oswaldo Eustáquio e Allan dos Santos.

“Isso é inadmissível num país que fala que tem democracia, mas age como ditadura. Então, não se dobrem perante arbitrariedades estatais. Quem manda no Brasil somos nós”, afirmou Silveira, no segundo dos três discursos em Copacabana.

Nas duas manifestações no Rio, Silveira foi ovacionado como candidato a senador nas eleições gerais de outubro. O deputado, no entanto, continua impedido de disputar as eleições em outubro, segundo o ministro Alexandre de Moraes, do STF. Em despacho na semana passada, Moraes afirma que o decreto editado por Bolsonaro não alcança a inelegibilidade ligada à condenação criminal, prevista na Lei da Ficha Limpa, conforme entendimento pacificado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Ex-assessor de gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio, Fabrício Queiroz também participou de ato em favor do presidente Jair Bolsonaro na Praia de Copacabana, na zona sul. Queiroz é acusado de comandar um suposto esquema de rachadinha no gabinete do então deputado estadual.

São Paulo

No ato paulista, o deputado chegou quando os manifestantes começavam a dispersar. Discursando ao lado de  Cristiane Brasil, filha do presidente do PTB, Roberto Jefferson, ele voltou a repetir que a liberdade é mais importante que a vida e pediu votos para o presidente Jair Bolsonaro.

"Pedir que cada um seja o maior cabo eleitoral de Jair Bolsonaro. Eu estou aqui por ele", disse Daniel.

Antes da chegada de Silveira, os manifestantes rezaram um pai nosso e cantaram o hino nacional. Última parlamentar a discursar antes dele, a deputada federal Carla Zambelli (PL) criticou o que classificou como uma perseguição dos ministros do Supremo à liberdade de expressão. "São Paulo ainda está carente de candidato ao senado. Mas eu tenho certeza que vamos conseguir fazer a melhor escolha para conseguir votar o impeachment dos ministros do STF."

Ao final do discurso do deputado, um princípio de confusão aconteceu ao lado do carro de som do PTB, quando um segurança alegou ter sido ameaçado por um homem armado. Apoiadores e membros da organização acionaram policiais militares deslocados para acompanhar o ato, mas ninguém foi detido.

O tenente-coronel Marcelo Vieira, comandante do 11º batalhão, informou que foram repassadas informações sobre dois homens, um deles portando uma bandeira do Brasil. "Não localizamos o suspeito que estaria armado. As características de dois homens foram repassadas para as equipes do motorizado, mas até o momento ninguém foi detido", informou o comandante.

Após a situação controlada, Silveira desceu do veículo e foi assediado por simpatizantes, que o chamaram de "mito" e "herói".

Estiveram presentes ex-integrantes do governo Bolsonaro, como o ex-ministro da Ciência, Tecnologia e Inovações Marcos Pontes, o ex-presidente da Fundação Cultural Palmares Sérgio Camargo e o ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles.

Um tema recorrente nos discursos foi a realização de uma apuração paralela à contagem de votos do TSE nas eleições de outubro, como defendido pelo presidente Bolsonaro. "O PTB vai manter um sistema de apuração paralelo ao do TSE", disse Cristiane Brasil. "Quem está certo não tem medo de uma apuração paralela, né, gente?". Zambelli também defendeu uma apuração paralela, realizada pelas forças armadas, como vem defendendo o presidente.

Tietagem

Tanto em Niterói quanto em Copacabana, Silveira caminhou pelas ruas, acompanhado de seguranças e cercado por apoiadores, que se acotovelavam em busca de uma foto ou “selfie”, e gritavam seu nome. Na zona sul da capital fluminense, andou entre os trios elétricos sobre os quais discursou. A caminhada final terminou num veículo preto na Avenida Atlântica, na orla da praia, no qual entrou e deixou o local do ato.

Em Niterói, o parlamentar deixou a manifestação a pé, acompanhado de seguranças, até um edifício residencial na região. No início do percurso, foi cercado por apoiadores. Após algumas quadras de caminhada, o número de manifestantes no entorno de Silveira foi diminuindo à medida que o grupo se afastava do local da manifestação, por uma via perpendicular à orla. Nessa via de esquina com a praia, o parlamentar ouviu alguns gritos de "Lula!", "fora, Bolsonaro!" e "prisão para milicianos!", tanto de moradores dos apartamentos da área quanto de, pelo menos, dois homens que estavam em frente a uma farmácia. Apoiadores de Silveira reagiram com gritos.

Ao comparecer nos atos organizados por bolsonaristas neste domingo, 1º, Dia do Trabalho, Silveira ignora a decisão STF que o proibiu de participar de eventos públicos. A proibição foi decretada pelo ministro Alexandre de Moraes no final de março, na mesma decisão que mandou o deputado voltar a usar tornozeleira eletrônica, e posteriormente confirmada pelo plenário do STF. A medida foi sugerida pela Procuradoria-Geral da República (PGR) após Daniel Silveira reiterar ataques aos ministros do Supremo.

Em despacho na última terça-feira, 26, ao pedir esclarecimentos do deputado sobre o desligamento da tornozeleira, Moraes reiterou que as medidas cautelares continuam valendo mesmo após a condenação a oito anos e nove meses de prisão por ataques antidemocráticos e o decreto editado pelo presidente para perdoar a pena. O ministro afirmou que o STF ainda precisa analisar os efeitos do perdão – ações da oposição foram distribuídas ao gabinete da ministra Rosa Weber, que já comunicou que não pretende decidir monocraticamente e vai pautar o tema direto do plenário.

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