Capítulo 10

Bolsonaro e o desabafo do general Paulo Chagas

Tuitada do jovem vereador do Rio não pode desestabilizar o País; o presidente tem de tomar uma atitude

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2019 | 11h01

Caro leitor,

A briga de Carlos Bolsonaro com o vice-presidente da República, general Hamilton Mourão, provocou rumores entre os sabres em Brasília. As críticas a Mourão, pedras lançadas na trincheira do grupo militar que apoia o presidente Jair Bolsonaro, receberam como resposta quatro tuítes do general Paulo Chagas. Bolsonarista de primeira hora, Chagas foi o candidato apoiado pelo presidente ao governo do Distrito Federal. Foi derrotado.

Na quarta-feira, dia 24, ele primeiro comentou sobre os amigos de Bolsonaro que prejudicam o chefe. Depois, afirmou que "em uma família cristã bem organizada, os pais amam seus filhos e os filhos amam seus pais". No terceiro, defendeu a lealdade e os serviços prestados à Pátria por Mourão” e, por fim, afirmou que quem fica especulando sobre o que o vice-presidente diz, "sabendo ou não, está a serviço da oposição". 

Chagas saiu aspirante na Academia Militar das Agulhas Negras em 1971. É da Cavalaria. A fala é franca, como deve ser a de um soldado: "Não tenho dúvida de que o Carlos Bolsonaro ama o presidente, mas ele está atrapalhando. O presidente tem tantos inimigos, não precisa desse tipo de contribuição. Esse menino tinha muito mais coisa para fazer pelo Brasil do que ficar discutindo se o Mourão é um bom vice-presidente ou se não é", disse à Coluna do Estadão.

Por meio do general, pode-se entender o que muitos militares sentem. Para ele, apesar de o governo ter feito "muita coisa importante em cem dias", vive-se em "um clima de insegurança e até os amigos atrapalham". Chagas fala o que outros calam.

Há ainda militares que preferem evitar tomar partido, porque pensam que o melhor é contemporizar, discutir os grandes temas, como a reforma da Previdência. Esse é o caso do deputado federal Roberto Sebastião Peternelli Júnior (SP), um dos dois generais eleitos pelo PSL para a Câmara Federal. "Todos devemos nos concentrar nos assuntos fundamentais para o País." Mas, mesmo Peternelli, manda um recado: "As figuras do presidente e do vice-presidente têm de ser preservadas." Peternelli saiu aspirante na turma de 1976, uma antes de Bolsonaro. A exemplo do chefe é paraquedista.

Chagas vai mais direto ao ponto, demonstrando o incômodo que os ataques a Mourão provocaram em outros oficiais generais: "Afinal, o que é que o Mourão fez que eu ainda não entendi? O Mourão deu um 'like' em uma publicação da Sherazade? Isso é importante para o Brasil? Isso tem influência sobre a vida nacional? Isso não tem. O like dele não tem. Agora, a repercussão disso, a opinião do jovem vereador, a crítica do jovem vereador, colocando em dúvida a lealdade do vice-presidente, tem influência grave sobre a estabilidade da política no Brasil." Chagas repetiu duas vezes a expressão "jovem vereador", antes de a substituír por "vereador do Rio".

Ativo nas redes sociais - ele tem 128 mil seguidores no Twitter -, o general continuou seu raciocínio afirmando que "uma tuitada de um vereador do Rio, seja ele filho do presidente ou do papa" mão pode fazer diferença para o País. "Mas atrapalha, enche o saco e nós estamos girando em torno dessas bobagens em vez de pensar o Brasil." Amante dos cavalos, assim como Mourão, Chagas foi contemporâneo de academia do general Eduardo Villas Bôas, ex-comandante do Exército, de quem é amigo pessoal. Tem outros amigos no governo, como o general Rocha Paiva, que foi nomeado para a comissão de anistia do Ministério da Família e dos Direitos Humanos.

Na segunda-feira, Chagas compareceu à Polícia Federal. Foi prestar esclarecimentos no inquérito do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre as chamadas fake news e ameaças a ministros da Corte. Manteve-se calado diante das perguntas do delegado da PF. Na semana passada, sua casa foi varejada pelos federais em busca de provas de que estaria ameaçando os ministros. Recebeu a solidariedade de Villas Bôas. Chagas prossegue explicando o que pode estar por trás de tanta cizânia nas hostes bolsonaristas: "Como são os bons soldados, os soldados preparados? O soldado sabe se reciclar. Essa é a grande virtude do soldado; o soldado ouve, sabe ouvir a crítica. E o que Mourão fez? Fez media training no Exército para aprender a falar com a imprensa. Ele aprendeu a se comportar como um político. Veja o quanto o Mourão se modificou: a imprensa está procurando primeiro falar com ele do que com o presidente. E isso está criando uma ciumeira absurda e indevida e uma interpretação totalmente ao arrepio da realidade."

Seria essa interpretação absurda sobre as intenções de Mourão que levou o líder evangélico e deputado Marco Feliciano (PSC-SP) a pedir o impeachment do vice. "De que lado ele (Feliciano) está? Ele quer o bem do governo Bolsonaro? Ele propõe - em cem dias de governo - que o Mourão está boicotando o Bolsonaro e deve sofrer impeachment. Mas isso vai parar o País!" Chagas não esconde o desconforto com a pretensão do parlamentar. "Em que esse cidadão está pensando? Onde quer chegar? Ele quer se promover ou pretende o bem do Brasil? Ele está chutando contra o próprio gol. Desconhece totalmente o general Mourão." O general para por um momento e sentencia, em um movimento de pinça, que envolve o adversário: "Ele está jogando pedra dentro da nossa trincheira."

Chagas não reluta nem quando está diante de Olavo de Carvalho, mesmo com o veto de sua família, que lhe pediu que evitasse novas polêmicas com o guru do governo Bolsonaro, apontado por muitos militares como "o fabricante das pedras" lançadas por Feliciano, Carlos e Eduardo Bolsonaro na vidraça de Mourão. Chagas foi alvo de uma campanha na internet depois de se indispor com o ideólogo do bolsonarismo. "Eu estava conversando com uma psicanalista. O excesso de fumo atrapalha, interfere no pensamento e no cérebro. A gente vê o Olavo de Carvalho cada vez mais agressivo e menos lógico até. Por quê? Isso pode ser um processos degenerativo. Ele é o principal que pensa que faz o bem para o Brasil e só tem prejudicado o País."

O general repete o apodo que deu a Olsvo de Carvalho. "Ele é o Rasputin, o Rasputin do governo Bolsonaro. Assim como o Rasputin foi um dos grandes responsáveis pela queda do  Czar, na Rússia, esse cidadão só atrapalha, age como o monge russo." Chagas lembra que ele e seus colegas não precisaram do morador da Virgínia para saber da existência do teórico comunista italiano Antonio Gramsci. "Antes de existir Olavo de Carvalho, já se falava sobre Gramsci nos quartéis e a ameaça que ele representa. O general Coutinho (Sergio Augusto de Avellar Coutinho) já falava sobre isso; eu assisti a palestras do Coutinho sobre o tema. O Del Nero (general Agnaldo Augusto Del Nero) também tratou disso em um livro excelente: A Grande Mentira".

Nos últimos dias, Chagas tem conversado com colegas civis e militares. Está preocupado "com esse ambiente, essa divisão que se criou dentro do governo, que não podia acontecer e que tem de ser superado o quanto antes". A solução para ele "depende, principalmente, de o presidente tomar uma atitude, um rumo, de tal forma que todos se alinhem com ele". E é aí que seu desabafo se une ao desejo de outros generais, como Peternelli: "Todos que querem o bem do Brasil - e o bem do Brasil é o sucesso desse governo -, todos têm de estar alinhados."

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Marcelo Godoy

Marcelo Godoy

Repórter especial

Jornalista formado em 1991, está no Estadão desde 1998. As relações entre o poder Civil e o poder Militar estão na ordem do dia desse repórter, desde que escreveu o livro A Casa da Vovó, prêmios Jabuti (2015) e Sérgio Buarque de Holanda, da Biblioteca Nacional (2015).

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