Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Bolsonaro: amigos na polícia ajudaram a aliviar 'tensão' de chance de busca em casa de filhos

Segundo presidente, havia tentativa de 'plantarem provas' e que era papel do então ministro Sérgio Moro defendê-lo

Vinícius Valfré, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2020 | 00h02

BRASÍLIA - O presidente Jair Bolsonaro sugeriu na noite desta sexta-feira, 22, que amigos dele nas polícias Civil e Militar ajudaram a aliviar a "tensão" provocada pela "possibilidade de busca e apreensão" na casa de um de seus filhos. "O tempo todo vivendo sob tensão. Possibilidade de busca e apreensão na casa de filho meu, onde provas seriam plantadas. Graças a Deus, tenho amigos policiais civis e policiais militares no Rio de Janeiro... Estava sendo armado para cima de mim", declarou o presidente, na portaria do Palácio da Alvorada

Sem especificar a que se referia, Bolsonaro não deixou claro se teve alguma informação privilegiada de operações que poderiam afetá-lo politicamente. Alegou, porém, que era papel do então ministro da Justiça, Sérgio Moro, defendê-lo, para que pudesse "trabalhar" e "ter paz".

"Moro, eu não quero que me blinde, mas você tem a missão de não deixar eu ser chantageado. Nunca tive sucesso pra nada. É obrigação dele me defender. Não é me defender de corrupção, de dinheiro encontrado no exterior. Não. É defender o presidente para que ele possa trabalhar, possa ter paz", disse Bolsonaro.

O ex-ministro da Justiça usou as redes sociais, em seguida, para rebater o presidente, sob o argumento de que não é atribuição de quem ocupa o cargo obstruir investigações em curso na Justiça estadual. 

Moro disse, ainda, que as únicas apurações relacionadas a Bolsonaro que chegaram ao seu conhecimento ocorreram em dezembro de 2019 e envolveram um filho e um amigo do presidente. Nessa época, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), e o ex-assessor dele Fabrício Queiroz foram alvos de operação do Ministério Público do Rio de Janeiro que investigava lavagem de dinheiro. Buscas e apreensões foram realizadas em endereços ligados a ambos.

"Não cabe também ao Ministro da Justiça obstruir investigações da Justiça Estadual, ainda que envolvam supostos crimes dos filhos do Presidente. As únicas buscas da Justiça Estadual que conheço deram-se sobre um filho e um amigo em dezembro de 2019 e não cabia a mim impedir", afirmou o ex-juiz da Lava Jato, em postagem no Twitter. 

O Ministério Público fluminense apura irregularidades na Assembleia Legislativa do Rio,  onde Flávio exerceu mandato de deputado estadual. Um relatório do Coaf (órgão federal de inteligência financeira) identificou movimentações atípicas de Fabrício Queiroz.

No último domingo, o empresário Paulo Marinho (PSDB-RJ), que, em  entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, disse ter ouvido de Flávio que um policial federal “vazou” a ele informações sigilosas sobre a investigação na Assembleia e recomendou a pronta exoneração de Queiroz

A partir das declarações do empresário, o Ministério Público Federal e a Polícia Federal abriram procedimentos para averiguar a denúncia. O empresário alega ter provas. 

No vídeo da reunião ministerial de 22 de abril - peça-chave para o desfecho do inquérito aberto em virtude das denúncias feitas por Moro, que acusou Bolsonaro de interferência política na Polícia Federal -, o presidente revelou usar um "sistema de informações" particular, que seria mais eficiente do que os oficiais.

"Sistemas de informações, o meu funciona. O meu particular funciona. Os que têm oficialmente, desinforma (sic). E, voltando ao tema, prefiro não ter informação a ser desinformado em cima de informações que eu tenho”, afirmou o presidente na reunião de 22 de abril.

Nesta sexta-feira, ao fazer uma espécie de pronunciamento em frente ao Palácio da Alvorada, Bolsonaro disse que esse sistema particular consiste na remessa de informações por parte de policiais e militares de sua confiança, espalhados pelo País.

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