‘Quando no governo de São Paulo, defendeu os interesses da organização criminosa’; Leia tudo o que a polícia e a Promotoria dizem de Márcio França

‘Quando no governo de São Paulo, defendeu os interesses da organização criminosa’; Leia tudo o que a polícia e a Promotoria dizem de Márcio França

Ex-governador diz que operação é 'política' e deriva de 'fatos produzidos por autoridades com medo de perder as eleições'

Fausto Macedo, Rayssa Motta, Pepita Ortega e Luiz Vassallo

07 de janeiro de 2022 | 06h00

Antes de abrir a operação que fez buscas na quarta-feira, 5, contra o pré-candidato ao governo de São Paulo, Márcio França (PSB), a Polícia Civil expôs à Justiça as suspeitas de corrupção em contratos firmados entre organizações sociais e prefeituras paulistas.

Ao longo de 212 páginas, os delegados Luiz Ricardo de Lara Dias Júnior e Francisco Antonio Wenceslau detalham os indícios reunidos contra 15 pessoas, incluindo o político, seu irmão, Cláudio França, e o médico Cleudson Garcia Montali, pivô que arrastou o pessebista para o centro das investigações. A suspeita é que Montali, que já foi condenado a mais de 100 anos de prisão, seja ‘testa de ferro’ do ex-governador, segundo o documento.

“Tem-se, do exposto, que Márcio França, ao que tudo indica, possui forte vínculo pessoal com Cleudson Garcia Montali, restando evidenciando, ao longo da investigação, que França, quando no governo de São Paulo, defendeu os interesses da Orcrim [organização criminosa], bem como os interesses particulares de Cleudson”, diz a Polícia.

O requerimento, obtido pelo Estadão, foi enviado ao juízo da 2.ª Vara Criminal de Santos, no litoral paulista, em 16 de dezembro. Foi a partir dele que a Polícia Civil recebeu autorização judicial para deflagrar a operação. Ao todo, os agentes estiveram em 34 endereços nas regiões de Araçatuba, Bauru, Baixada Santista, Campinas, São Paulo e Presidente Prudente.

“Cada uma das medidas se faz necessária como forma de se apreender documentos que possam ser esclarecedores para a investigação; documentos e/ou anotações que permitam a descoberta de patrimônios ocultados pelos investigados, dispositivos que armazenam imagens de câmeras de vigilâncias; em especial telefones de celulares e aparelhos eletrônicos similares que podem apresentar conversas desenvolvidas através de aplicativos de mensagens (apagadas ou não) pelos investigados, com conteúdos reveladores de conversas”, argumentaram os delegados.

O ex-governador de São Paulo Márcio França . Foto: Tiago Queiroz/Estadão

No mesmo documento, os investigadores também transcrevem ligações e áudios interceptados para ilustrar o que classificam como ‘indícios veementes’ do envolvimento de Márcio França no suposto esquema de corrupção. Em uma das gravações, um funcionário da OS Associação Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Pacaembu relata ter ouvido de um colega a seguinte frase: “Se o Márcio França ganhar, nós vamos ter a Saúde de São Paulo na nossa mão.”

“Diante das provas apresentadas e que nos foram encaminhadas por meio de compartilhamentos autorizados judicialmente (…), por meio das quais se verifica, ao que tudo indica, participação das pessoas físicas acima nomeadas e uso das pessoas jurídicas acima identificadas no esquema criminoso relacionado a desvio de dinheiro público por meio das organizações sociais de Cleudson Garcia Montali”, seguem os delegados.

As primeiras informações que colocaram Márcio França sob suspeita de corrupção sugiram a partir de denúncias anônimas levadas ao Ministério Público do Estado na Operação Raio X. O Estadão também teve acesso a um pedido de quebra de sigilo bancário e fiscal contra o irmão dele, datado de abril do ano passado, nesta outra investigação, que corre na esfera cível. A operação contra o ex-governador se debruça sobre personagens e suspeitas semelhantes, mas corre na esfera criminal.

A tese do Ministério Público de São Paulo na Raio X é que pregões da Caixa de Saúde de São Vicente (SP), autarquia que presta assistência médica aos servidores municipais, tenham sido direcionados a empresas de Cláudio França com o intuito de usar o órgão como cabide de emprego e para desviar dinheiro público. As suspeitas que recaem sobre Márcio França, por sua vez, envolvem possível uso da influência política para operacionalizar o suposto esquema.

Márcio França. Foto: Alex Silva/Estadão

Peça-chave na articulação de uma possível chapa entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin (sem partido), França diz que a operação contra ele é política e deriva de ‘fatos produzidos por autoridades com medo de perder as eleições’. “Essa é uma operação política e não policial. Ela é, evidentemente, de cunho político eleitoral”, afirma.

Também nega qualquer relação com Cleudson Garcia Montali, apontado como o líder do suposto esquema de corrupção. “Não tenho, nem nunca tive nenhuma relação comercial com Cleudson, citado na matéria. Um Delegado de Polícia, exercendo função de confiança do Governo, falar que alguém “pode ser” testa de ferro de outro, sem nenhuma prova e sem nunca me ouvir, chega a ser leviano até para incautos”, disse em nota enviada ao blog.

Sobre os grampos citados pela Polícia Civil, o ex-governador afirma: “Minha voz não estará em nenhum desses diálogos investigados, simplesmente porque não tenho relação com o caso. Repito, essa operação política não irá me intimidar e eles terão de me enfrentar nas urnas.”

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