Pivô de investigação, médico condenado a mais de 100 anos de prisão pode ser ‘testa de ferro’ de Márcio França, diz Polícia

Pivô de investigação, médico condenado a mais de 100 anos de prisão pode ser ‘testa de ferro’ de Márcio França, diz Polícia

Cleudson Garcia Montali teria sido o responsável por montar suposto esquema de desvios em contratos da Saúde; delegados suspeitam que ele seja 'laranja' de Márcio França; ex-governador de São Paulo nega irregularidades e qualifica a operação que o atingiu nesta quarta-feira, 5, como 'política'

Rayssa Motta, Fausto Macedo, Pepita Ortega e Luiz Vassalo

06 de janeiro de 2022 | 09h00

*Atualizado às 15h para manifestação de Márcio França

O médico Cleudson Garcia Montali foi o pivô que arrastou o pré-candidato ao governo de São Paulo, Márcio França (PSB), ao centro das suspeitas de corrupção em contratações firmadas entre organizações sociais e prefeituras paulistas na área da Saúde. O ex-governador de São Paulo nega irregularidades e qualifica a operação que o atingiu nesta quarta-feira, 5, como ‘política’.

Ele é descrito pela Polícia Civil como um ‘homem sem rosto’. A expressão foi cunhada porque, apesar dos indícios de que estruturou um esquema de desvios que teria contaminado diferentes cidades de São Paulo, sua atuação estaria reservada aos bastidores das negociações, não raro com a ajuda de intermediários.

“Gerindo e articulando setores importantíssimos dentro da organização criminosa para coordenar, cooptar e arregimentar essas ações delitivas, figurando no topo da cadeia de comando e liderança da organização criminosa, agindo como “homem de trás” para orquestrar e/ou intermediar esses atos com outras células criminosas”, narram os delegados Luiz Ricardo de Lara Dias Júnior e Francisco Antonio Wenceslau, responsáveis pela investigação, em documento encaminhado à Justiça e obtido pelo Estadão.

Márcio França diz que operação contra ele é ‘política’: “Ela é, evidentemente, de cunho político eleitoral”. Foto: Alex Silva/Estadão

A base do suposto esquema, segundo a investigação, seria a mesma de outros arranjos clássicos de corrupção: contratos superfaturados e serviços não prestados. Para isso, diz a Polícia, eram usadas as organizações sociais Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Birigui e Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Pacaembu.

O inquérito diz que Montali agia como ‘testa de ferro’ de Márcio França e que dois tinham ‘forte vínculo’. “Notadamente no período em que ele foi governador, ocasião em que a Organização Social Irmandade da Santa Casa de Pacaembu celebrou vários contratos com o estado de São Paulo, gizando que referida organização social gerenciou os três equipamentos públicos situados na cidade de Santos”, afirmam os delegados.

Um despacho assinado por Márcio França no período em que ele assumiu o Palácio dos Bandeirantes, na esteira da renúncia de Geraldo Alckmin (sem partido) para disputar a presidência em 2018, chamou atenção dos investigadores. Em dezembro daquele ano, o então governador reconduziu o médico ao cargo de diretor do Departamento Regional de Saúde de Araçatuba (SP). Ele havia sido demitido sob suspeita de improbidade administrativa. “O que se deu no apagar das luzes de seu mandado (dia 20 de dezembro de 2018), mesmo contrariando manifestação do Ministério Público pela não recontratação”, dizem os investigadores.

Um terceiro ponto investigado pela Polícia Civil são as doações financeiras recebidas pelo pessebista nas campanhas a governador de São Paulo, em 2018, e a prefeito da capital, em 2020. Um dos investigados chegou a admitir, em depoimento, que depositou R$ 5 mil a mando do médico em 2018.

Em agosto, Montali foi condenado a 104 anos, dois meses e 20 dias de reclusão em processo derivado da Operação Esquema X. No mês passado, uma primeira sentença sobre o caso emitida pelo juízo de Birigui, no interior paulista, imputou ao médico mais 96 anos de prisão.

COM A PALAVRA, O EX-GOVERNADOR MÁRCIO FRANÇA

Sei que a vida pública exige resignação. Mas as injustiças tem limite. Transformar suposições ridículas e falsas em matérias é de doer na alma.

Não tenho, nem nunca tive nenhuma relação comercial com Cleudson, citado na matéria.

Um Delegado de Polícia, exercendo função de confiança do Governo, falar que alguém “pode ser” testa de ferro de outro, sem NENHUMA prova e sem nunca me ouvir, chega a ser leviano até para incautos.

Todos sabem que estamos em ano eleitoral e em algumas pesquisas, sou o 1º colocado na disputa.

Tenho 40 anos de vida pública, exercendo diversos cargos, sou pai e avô. Difícil assistir uma fala tão irresponsável de uma suposta autoridade pública, a não ser o nítido desejo de agradar seu superior.

Nunca houve nenhuma decisão minha, que não tenha sido avalizada anteriormente pela Procuradoria Geral do Estado de SP.

Todos devem ser investigados e DEPOIS de provada alguma culpa, devem ser punidos.

Nas últimas eleições já fui vítima de muitas mentiras. O povo de SP também foi. Mentir e caluniar são características de outras pessoas .

O tempo dirá mais uma vez.

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