‘Se o Márcio França ganhar, nós vamos ter a Saúde de São Paulo na nossa mão’

‘Se o Márcio França ganhar, nós vamos ter a Saúde de São Paulo na nossa mão’

Em ligação interceptada pela Polícia Civil em agosto de 2020, funcionário de organização social sob suspeita de corrupção relata ter ouvido de um colega a declaração; após ser alvo de buscas nesta quarta-feira, 5, ex-governador de São Paulo classificou a operação como 'política'

Rayssa Motta, Luiz Vassalo, Fausto Macedo e Pepita Ortega

06 de janeiro de 2022 | 05h00

Márcio França diz que operação contra ele é ‘política’. Foto: Werther Santana/Estadão Conteúdo

Grampeado pela Polícia Civil de São Paulo, Fernando Rodrigues de Carvalho, contratado pela organização social responsável pela gestão do Hospital Geral de Carapicuíba, na região metropolitana paulista, ofereceu sem saber aos delegados uma das declarações mais contundentes contra o ex-governador Márcio França (PSB).

Em telefonema com a médica Maria Paula Loureiro de Oliveira Pereira, ex-diretora do hospital, em agosto de 2020, ele relatou ter ouvido de Régis Pauleti, outro funcionário da OS Associação Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Pacaembu, a seguinte frase: “Se o Márcio França ganhar, nós vamos ter a Saúde de São Paulo na nossa mão.”

Esse e outros grampos estão transcritos no pedido enviado à Justiça em dezembro pelos delegados Luiz Ricardo de Lara Dias Júnior e Francisco Antonio Wenceslau para fazer buscas contra o pré-candidato ao governo de São Paulo e outros investigados sob suspeita de corrupção em contratos na área da Saúde. A operação foi aberta nesta quarta-feira, 5, e classificada por França como uma ‘trapalhada’. Ele diz que a ofensiva foi baseada em ‘fatos produzidos por autoridades com medo de perder as eleições’ e apontou abuso de poder político.

Outro áudio obtido pela Polícia Civil, mais antigo, foi trocado entre o médico e presidente do clube Penapolense, Nilso Moreira, e o então prefeito de Penápolis (SP), Célio de Oliveira, que se refere a um suposto acerto com França para a criação de um ambulatório na cidade. O político diz que o assunto tem que ficar ‘debaixo de segredo’.

“O AME está acertado com o vice-governador Márcio França. Ele vai assumir o governo dia 31 de março e até lá a gente vai dar uma embromada em toda essa situação, mas ele vai fazer, ele vai fazer porque ele já me garantiu, vai ser o que ele vai dar pra minha administração aqui. Já combinei com ele, mas isso aí tem que ficar de baixo de um segredo, mas o Márcio França vai, vai ser o Márcio França que vai assinar o AME para Penápolis, e aí nós vamos fazer naquele modelo lá, tá? Nós vamos chamar o Rodrigo, construir e depois acertar um aluguel pra ele, em relação ao que ele vai investir no prédio”, diz a transcrição.

O contrato foi de fato assinado por Márcio França no período em que ele assumiu o Palácio dos Bandeirantes, na esteira da renúncia de Geraldo Alckmin (sem partido) para disputar a presidência em 2018, mas foi cancelado tão logo o atual governador, João Doria (PSDB), tomou posse.

A Polícia Civil usa as gravações para ilustrar o que classifica como ‘indícios veementes’ do envolvimento de Márcio França em corrupção na Saúde do Estado.

“Notadamente no período em que ele foi governador, ocasião em que a Organização Social Irmandade da Santa Casa de Pacaembu celebrou vários contratos com o Estado de São Paulo, gizando que referida organização social gerenciou os três equipamentos públicos situados na cidade de Santos”, apontam os delegados.

Em nota, França nega relação com o caso e diz que a operação é política.

“Minha voz não estará em nenhum desses diálogos investigados, simplesmente porque não tenho relação com o caso. Repito, essa operação política não irá me intimidar e eles terão de me enfrentar nas urnas”, afirma o texto.

COM A PALAVRA, O EX-GOVERNADOR

Começaram as eleições 2022. 1ª Operação Política. Não há outro nome para uma trapalhada, por falsas alegações, que determinadas “autoridades”, com “medo de perder as eleições”, tenham produzido os fatos ocorridos nesta manhã em minha casa.

Toda operação policial tem nome! Essa é uma operação política e não policial. Ela é, evidentemente, de cunho político eleitoral. Não tenho ou tive qualquer relação comercial ou advocatícia com as pessoas jurídicas e físicas que são alvo da investigação.

É lamentável que se comece uma eleição para o Governo de SP com estas cenas de abuso de poder político.

Já venho há tempos alertando que um grupo criminoso em SP tenta me impedir de expressar a verdade. Sabem que não compactuo com eles, que querem tomar conta do Estado de SP. Se depender de mim, não vão conseguir.

Eu não sou alvo de nenhuma operação, pois sou advogado particular, não tenho relações nem vínculo com serviços públicos. Não tenho relação com a área médica ou de saúde. Tenho 40 anos de vida pública, não respondo a nenhum processo criminal.

Só deixarei de ser governador de SP se o povo paulista não quiser. Não tenho medo de ameaças ou de chantagem. Em 40 anos de vida pública, já fui muitas vezes difamado e injustiçado, nunca condenado.

Aliás, já enfrentei adversários muito mais qualificados. Não vão ser os meus atuais concorrentes, notórios mentirosos, que me farão recuar.

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