Depoimentos reforçam ‘padrão de ação’ de João de Deus, diz delegado

Depoimentos reforçam ‘padrão de ação’ de João de Deus, diz delegado

André Fernandes, chefe da Polícia Civil de Goiás, afirmou após médium se entregar neste domingo, 16, que relatos indicam 'comportamento de abusos' de João Teixeira, denunciado por mais de 330 mulheres; líder espiritual será encaminhado para o Complexo Penitenciário de Aparecida de Goiânia

Fausto Macedo e Paulo Roberto Netto

16 de dezembro de 2018 | 19h21

Delegado geral da Policia Civil, Andre Fernandes, fala com a imprensa apos a apresentação do médium, João Teixeira de Faria, conhecido como João de Deus, na Delegacia Estadual de Investigações Criminais (Deic). FOTO: MARCOS SOUZA/ ESTADAO

O delegado-geral da Polícia Civil de Goiás, André Fernandes, afirmou que depoimentos colhidos pela força-tarefa que investiga as denúncias de abuso sexual contra o médium João de Deus apontam para um ‘padrão de ação’ nos supostos crimes. O líder espiritual se apresentou às autoridades na tarde deste domingo, 16, e presta depoimento na Delegacia Estadual de Investigação Criminal (DEIC) de Goiânia.

João de Deus será encaminhado para o Complexo Penitenciário de Aparecida de Goiânia para passar pelo menos a primeira noite de sua prisão preventiva, informou Fernandes. Após o interrogatório, o médium será levado ao Instituto Médico Legal para exame de corpo de delito antes de ir para a unidade prisional.

Em virtude da idade e dos crimes pelos quais é acusado, João de Deus será posto em uma cela individual, isolada dos demais detentos.

O médium João de Deus se entrega à polícia. Foto: EFE/Igo Estrela/Metropole

Segundo Fernandes, a Polícia Civil já colheu quinze depoimentos ‘contundentes’ durante a semana com vítimas de João de Deus. Os relatos serviram para embasar a ordem de prisão preventiva, apresentado na quarta-feira, 12, e decretado na manhã de sexta, 14.

“Foram depoimentos contundentes, precisos, longos, de mais de duas horas, todos detalhados e com circunstância. A palavra da vítima tem uma relevância muito grande”, afirmou Fernandes.

Segundo ele, foi detectado um ‘modus operandi’ nos supostos crimes, mas não detalhou qual padrão seria. “A Polícia Civil ainda formará mais provas nesta semana, mas os vários depoimentos que possuímos reforça o comportamento de abuso, reforça o padrão de ação, e isso será levado ao Poder Judiciário.”

O delegado afirma que a tipificação dos supostos crimes cometidos por João de Deus estão sendo analisados de acordo com cada caso. Em relação às denúncias de casos prescritos, Fernandes afirma que as vítimas ainda serão ouvidas e poderão ser chamadas como testemunhas.

O delegado afirmou ainda que a polícia irá investigar a movimentação suspeita de R$ 35 milhões na conta e aplicações financeiras de João de Deus dias depois da revelação das primeiras denúncias.

‘Atendimentos particulares’

O Ministério Público recebeu mais de 330 denúncias de abuso sexual contra João de Deus desde a revelação dos primeiros casos. As acusações vieram dos Estados de Goiás, Distrito Federal, Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Pernambuco, Espírito Santo, Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul, Pará, Santa Catarina, Piauí e Maranhão, e pelo menos seis países – Alemanha, Austrália, Bélgica, Bolívia, Estados Unidos e Suíça.

O crime teria ocorrido durante sessões espirituais no Centro Dom Inácio Loyola, em Abadiânia, cidade a 112 quilômetros de Brasília. O espaço atende cerca de 10 mil pessoas todo mês – 40% delas eram estrangeiras. Segundo a Promotoria, João de Deus oferecia ‘atendimentos particulares’ a mulheres após os tratamentos, momento em que os abusos seriam cometidos.

Defesa

O criminalista Alberto Toron, que acompanhou as negociações com as autoridades desde a sexta-feira, 14, quando a Vara Judicial de Abadiânia expediu decreto de prisão preventiva contra João de Deus, alega ‘estranheza’ com o fato de denúncias de supostos crimes cometidos há 30 anos terem voltado à tona agora.

Advogado Alberto Toron, que integra a equipe de defesa de João de Deus, fala com a imprensa apos a apresentação do medium, João Teixeira de Faria, conhecido como João de Deus, na Delegacia Estadual de Investigações Criminais (Deic). FOTO: MARCOS SOUZA/ ESTADAO

“À medida em que os fatos forem sendo apurados, as pessoas forem sendo ouvidas, vamos poder ver se são aproveitadores”, disse, ao citar uma holandesa que denunciou João de Deus e que, segundo o criminalista, tem um passado ‘mais que duvidoso’. “Se fere de forma tão grave, como mulheres voltaram [ao Centro Dom Inácio Loyola, onde foram cometidos os supostos crimes]?”, questionou.

O criminalista pediu “calma e serenidade” em relação à apuração das acusações.

“Precisamos de um pouco de calma e serenidade para que não se faça um linchamento”, afirmou Toron. “Em respeito a essas mesmas pessoas e mulheres, precisamos fazer essa investigação com todo o cuidado.”

Toron disse que apresentará um pedido de habeas corpus para suspender a prisão preventiva em troca de medidas cautelares, como o uso de tornozeleira eletrônica.