João de Deus é levado para prisão após interrogatório sobre casos de abuso sexual

João de Deus é levado para prisão após interrogatório sobre casos de abuso sexual

Médium João de Deus chegou no fim da tarde de domingo, 16, à Delegacia Estadual de Investigação Criminal (DEIC), onde prestou depoimento; líder espiritual foi encaminhado para o Complexo Penitenciário de Aparecida de Goiânia

Fausto Macedo, Paulo Roberto Netto/SÃO PAULO e Renan Truffi/GOIÂNIA

16 de dezembro de 2018 | 18h17

João Teixeira de Faria, conhecido como Joao de Deus deixa Delegacia Estadual de Investigações Criminais (Deic). FOTO: ERNESTO RODRIGUES / ESTADÃO

(Atualizada às 00h04 de 17 de dezembro de 2018)

O médium João de Deus deixou o Instituto Médico Legal de Goiânia no fim da noite deste domingo, 16, após prestar depoimento sobre as denúncias de abuso sexual na Delegacia Estadual de Investigação Criminal (DEIC). O líder espiritual foi encaminhado para o Complexo Penitenciário de Aparecida de Goiâna, a 20 quilômetros da capital, onde passará pelo menos a primeira noite de sua prisão preventiva.

Em virtude da idade e dos crimes pelos quais é acusado, o médium ficará em uma cela com apenas três presos, todos advogados. João de Deus teve o mandado de prisão decretado no fim da manhã de sexta, 14, e se entregou às autoridades nesta tarde.

O delegado-geral da Polícia Civil de Goiás, André Fernandes, disse que João de Deus utilizava a fé para cometer abusos sexuais contra suas vítimas. Por isso, uma das possibilidades é que o líder religioso seja enquadrado, entre outras tipificações, no crime de “violência sexual mediante fraude”. Após mais de quatro horas de depoimento, João de Deus não admitiu crime em nenhum dos casos investigados inicialmente.

“Ele respondeu a todas as indagações feitas pela Polícia Civil. Foi um interrogatório de sete páginas, bem detalhado e agora as investigações continuam. Ele apresenta a versão dele sobre os fatos e ao final cabe a nós a tipificação, o relatório e o envio desse material para o Judiciário. Ao Judiciário caberá a última palavra”, disse Fernandes.

“Com certeza, ele não admite (os crimes). Apresenta a versão dele sobre o ocorrido. Ele utilizava a questão da fé, (há) vários argumentos para poder enquadrá-lo nesse tipo (violência sexual mediante fraude)“, complementou Fernandes.

João Teixeira de Faria, conhecido como João de Deus deixa a Delegacia Estadual de Investigações Criminais (Deic). FOTO: MARCOS SOUZA/ ESTADAO

De acordo com o delegado, a investigação sobre as denúncias de abuso sexual contra João de Deus vai se concentrar em 15 casos e que a polícia irá focar, a partir de agora, na “formação da prova”. Fernandes disse que as autoridades poderão mirar alguns funcionários do médium caso a investigação aponte participação nos crimes.

Defesa

O criminalista Ronivan de Moraes, que acompanhou João de Deus na chegada à delegacia, disse que a apresentação às autoridades ocorreu em uma estrada rural nos arredores de Abadiânia, a 90 quilômetros de Goiânia, para ‘preservar a segurança e integridade’ de João de Deus e dos policiais. Segundo ele, a defesa agora vai avaliar as acusações feitas contra o médium.

“A gente não tem informação da consistência dessas informações, mas posso garantir que conheço a Casa [Centro Dom Inácio Loyola, local eram realizados as sessões espirituais e supostos abusos] e o tratamento. São atendimentos públicos em salas reservadas, mas com portas transparentes”, afirmou Moraes.

O criminalista disse que o Ministério Público está fazendo um ‘pré-julgamento’ contra João de Deus ao comentar a movimentação de R$ 35 milhões nas contas e aplicações em nome do médium logo após as primeiras denúncias. “Qual o problema de alguém movimentar a sua conta? Existe um bloqueio de bens contra ele?”, questionou.

Advogado Alberto Toron, que integra a equipe de defesa de João de Deus, fala com a imprensa apos a apresentação do medium, João Teixeira de Faria, conhecido como João de Deus, na Delegacia Estadual de Investigações Criminais (Deic). FOTO: MARCOS SOUZA/ ESTADAO

O criminalista Alberto Toron, que representa João de Deus, negou movimentações financeiras suspeitas e disse que o líder espiritual não planejava deixar o País. “O dinheiro não foi sacado, ninguém saca R$ 35 milhões. O senhor João de Deus apenas baixou as aplicações para fazer frente às necessidades dele. Ele não sacou o dinheiro do banco e não estava fora do Estado”, afirmou.

Mais de 300 denúncias

Desde a revelação do caso, quando as primeiras acusações foram reveladas pelo Jornal Nacional e pelo Conversa com Bial, ambos da TV Globo, a promotoria de Abadiânia, em Goiás, recebeu mais de 330 denúncias de abuso sexual contra João de Deus.

As acusações vieram dos Estados de Goiás, Distrito Federal, Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Pernambuco, Espírito Santo, Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul, Pará, Santa Catarina, Piauí e Maranhão, e pelo menos seis países – Alemanha, Austrália, Bélgica, Bolívia, Estados Unidos e Suíça.

O crime teria ocorrido durante sessões espirituais no Centro Dom Inácio Loyola, em Abadiânia. O espaço atende cerca de 10 mil pessoas todo mês – 40% delas eram estrangeiras. Segundo a Promotoria, João de Deus oferecia “atendimentos particulares” a mulheres após os tratamentos, momento em que os abusos seriam cometidos.

A promotoria alega que quatro funcionários são suspeitos de participação nos crimes.

Na quinta, 14, o Ministério Público protocolou pedido de prisão preventiva contra João de Deus alegando que a liberdade do médium poderia ameaçar mulheres que dizem ter sido abusadas sexualmente ou provocar novas vítimas. O órgão também achou suspeita a movimentação de R$ 35 milhões de contas e aplicações financeiras em contas do médium.

No dia seguinte, a Vara Judicial de Abadiânia expediu o documento, mas João de Deus não foi localizado pelas autoridades em 20 locais. Ele foi considerado foragido da Justiça pelo Ministério Público no sábado e teve o nome incluído na lista de procurados da Interpol.

‘Orações’

O médium fez apenas uma aparição pública após a revelação das denúncias. Ao visitar a Centro Dom Loyola na quarta, 12, se declarou inocente. “Eu estou na mão da lei brasileira. O João de Deus ainda está vivo”, disse.

A mulher de João de Deus, Ana Keila Teixeira, participou de uma festa de distribuição de brinquedos em Abadiânia e pediu oração aos presentes. “Apesar das turbulências, peço que todos continuem rezando para que a verdade prevaleça”, afirmou. O evento é promovido anualmente pela família pela ocasião do Natal.