Gilmar, Toffoli e Lewandowski trancam ação da Máfia da Merenda contra Fernando Capez

Gilmar, Toffoli e Lewandowski trancam ação da Máfia da Merenda contra Fernando Capez

Ministros da 2.ª Turma decidem, por maioria, arquivar processo contra deputado do PSDB de São Paulo; foi vencido ministro Edson Fachin; decano Celso de Mello não foi à sessão desta terça-feira, 26

Amanda Pupo/BRASÍLIA

26 Junho 2018 | 12h02

Fernando Capez. FOTO: ELIARIA ANDRADE/ ESTADAOcapez

A Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, por maioria, trancar uma ação penal contra o ex-presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, deputado Fernando Capez (PSBD), acusado por envolvimento na Máfia da Merenda.

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Os ministros Dias Toffoli e Ricardo Lewandowski acompanharam o voto do relator do caso, Gilmar Mendes, para quem a ação penal foi aberta sem justa causa, sem provas e depoimentos de testemunhas que validassem o processo, descartando momentos em que os depoentes estivessem sob “coação”. Dessa forma, Gilmar atendeu integralmente o pedido da defesa do parlamentar, que alegou ‘stress psicológico’, ‘fortes enxaquecas’, pelo que chamou de “injusta acusação”.

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Ficou vencido no colegiado o ministro relator da Lava Jato, Edson Fachin. O decano Celso de Mello não estava presente na sessão.

Em maio deste ano, por 12 votos a 9, o Órgão Especial do Tribunal de Justiça de São Paulo tornou Capez réu por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. O parlamentar começou a ser investigado na Operação Alba Branca – deflagrada em janeiro de 2016 contra organização criminosa que se instalou em pelo menos 30 prefeituras paulistas e na Secretaria do Estado da Educação para fornecimento de sucos e merendas escolares.

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A propina no caso em que o deputado é investigado teria sido destinada a Capez, a lobistas e a um representante comercial da Cooperativa Orgânica Agrícola Familiar (COAF), sediada no município de Bebedouro (SP), e apontada como o carro-chefe das fraudes. A denúncia afirma que os valores a Capez, as comissões repassadas a lobistas da Máfia da Merenda e ao representante comercial da COAF ‘alcançaram ao menos o patamar de 10% do valor dos contratos administrativos – R$ 11.399.285,00 – celebrados entre a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo e a Cooperativa’.

Delator. Entre as provas que foram contestadas pela defesa de Capez está uma ligação do deputado para a Secretaria Estadual da Educação, depoimentos de testemunhas que foram submetidas a suposta coação da promotoria e da polícia civil, abuso que também teria atingido o delator do caso, o lobista da Máfia da Merenda Marcel Júlio.

Em conteúdo de delação revelado em abril de 2016, Marcel relatou à Procuradoria-Geral de Justiça encontros com Capez, afirmando que o tucano exigiu dinheiro porque sua campanha eleitoral estava ‘sofrendo’. Marcel também contou que ele e o pai, Leonel Julio, ex-presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo Leonel Julio (antigo MDB, 1976), auxiliaram Capez na campanha de 2010.

Marcel Júlio disse também que, em 2014, esteve três vezes seguidas no escritório do político. A primeira apenas com o assessor do tucano, Luiz Carlos Gutierrez, o Licá, para quem teria entregado documentos. Depois duas vezes com Capez.

O lobista também contou que o empresário Cássio Chebabi, ex-presidente da COAF, e César Bertholino procuraram seu pai, após encontrarem dificuldades no chamamento público da cooperativa.

Por outro lado, a defesa do deputado afirma Marcel teria dito que Capez “nunca lhe solicitou vantagem indevida, e que não tinha intimidade com o mesmo”. Além disso, o advogado de Capez, Alberto Zacharias Toron, defendeu que, mesmo que a delação de Marcelo fosse considera verdadeira, seria irrelevante, por não ter sido comprovada por outros elementos de prova.

“É incontroverso que a vinculação do Paciente aos fatos descritos na denúncia resulta exclusivamente, a um, de prova confessadamente obtida por meio ilícito, mediante coação e indução de testemunhas”, alegou a defesa do parlamentar.

Gilmar, ao votar, destacou que a Segunda Turma tem “entendido que as palavras de delator não podem ser usadas unicamente para recebimento de denúncia”, assim como não podem ser utilizadas para condenar alguém. O exemplo mais recente é o caso da senadora e presidente do PT Gleisi Hoffmann, absolvida pelo colegiado na semana passada.

O ministro também destacou os votos vencidos no Tribunal de Justiça de São Paulo, daqueles que se posicionaram para não aceitar a denúncia oferecida pelo Ministério Público. A posição do relator do caso em SP, desembargador Sérgio Rui, foi lida por Gilmar. Na ocasião, o magistrado alegou não ter encontrado ‘elemento mínimo’ para abertura de ação penal contra o ex-presidente da Assembleia Legislativa.

Abuso. Ainda segundo os defensores de Capez, há uma gravação de áudio feita por um advogado, onde o promotor que atuou no caso “explicitamente ameaçou a testemunha caso não mencionasse o nome do paciente: ‘esse aí realmente precisa de um reforço na memória num local mais adequado’”.

“É um caso de abuso de autoridade de investigação direcionada a perseguir alguém, coagindo pessoas a deporem contra determinada pessoa. Se isso não é possível num estado de exceção, muito menos pode ser admitido num estado democrático de direito”, afirmou o ministro Dias Toffoli.

Vencido, Fachin disse que a Segunda Turma, ao conceder o pedido de Capez, estaria antecipando o julgamento da ação penal contra o deputado. “Não verifico, considerando que a instância própria fez juízo de indícios mínimos de materialidade de autoria, como apta a dimensão jurídica que leve a concessão de ordem”, observou o ministro.

Em maio, antes do julgamento do recebimento da denúncia ser finalizado, a Procuradoria-Geral de Justiça de SP apresentou aos desembargadores do Órgão Especial do TJ-SP dados de quebra sigilo telefônico e bancário de ex-assessores de Capez que corroboravam com depoimentos que o ligam à Máfia da Merenda.

As investigações apontam salto nos depósitos e saques em espécie nas contas de antigos aliados e assessores do tucano – Jeter Rodrigues Pereira e José Merivaldo dos Santos. O rastreamento da Procuradoria aponta movimentações bancárias atípicas nos períodos posteriores aos supostos repasses de Marcel Júlio, por meio de contratos simulados de consultoria.

COM A PALAVRA, FERNANDO CAPEZ

“Penso que este seja o momento para garantir a mim o direito de resposta na mesma dimensão da calúnia que sofri, bem como a oportunidade de contar à sociedade a verdade distorcida e todo o conteúdo do processo omitido do conhecimento público.”

COM A PALAVRA, O MINISTÉRIO PÚBLICO DE SÃO PAULO

O Ministério Público de São Paulo informou que ‘só depois da notificação formal por parte do Supremo Tribunal Federal, vai se manifestar sobre o caso’.

A denúncia contra Capez ao Tribunal de Justiça do Estado foi apresentada pelo procurador-geral de Justiça de São Paulo, Gianpaolo Poggio Smanio, que atribuiu ao parlamentar crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

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