Gestor do ‘ecossistema de laranjas’ de Ricardo Coutinho, ‘Cori’ é assessor na Câmara

Gestor do ‘ecossistema de laranjas’ de Ricardo Coutinho, ‘Cori’ é assessor na Câmara

Coriolano Coutinho, preso pela Polícia Federal na terça, 17, é apontado por investigadores como um dos principais coletores de propina para o irmão, o ex-governador da Paraíba que teve a prisão preventiva decretada na Operação Calvário/Juízo Final

Pedro Prata e Fausto Macedo

19 de dezembro de 2019 | 16h00

Preso preventivamente na Operação Calvário/Juízo Final sob suspeita de ‘coletar propina’ para o irmão, o ex-governador da Paraíba Ricardo Coutinho (PSB), Coriolano Coutinho, o ‘Cori’, é assessor parlamentar do deputado federal Gervásio Agripino Maia (PSB/PB). Ele foi detido pela Polícia Federal na terça, 17, no âmbito da Operação Calvário/Juízo Final, que investiga desvios de até R$ 134 milhões da Saúde e a entrega de propinas de R$ 4 milhões provenientes da Educação na residência oficial do ex-governador.

Documento

O nome de ‘Cori’ consta no site da Câmara dos Deputados como assessor de Gervásio desde 19 de fevereiro deste ano. Sua remuneração é de R$ 13.272, ao que se soma auxílios de R$ 982,29.

Gervásio Agripino Maia (PSB/PB) tem como assessor parlamentar Coriolano Coutinho. Foto: Câmara dos Deputados/Divulgação

Para os investigadores, ‘Cori’ circulava nas estruturas de governos para ‘advogar interesses da organização junto aos integrantes do alto escalão’. Como irmão do ex-governador, ele tinha papel de destaque na captação de propina.

O Ministério Público imputa a ‘Cori’ o comando do ‘ecossistema de laranjas’ por meio do qual o ex-governador dissimulava as empresas vinculadas aos seus familiares.

Coriolano Coutinho, o ‘Cori’, irmão do ex-governador Ricardo Coutinho, da Paraíba. Foto: Facebook/Reprodução

O desembargador Ricardo Vital de Almeida, do Tribunal de Justiça da Paraíba, decretou a prisão preventiva de ‘Cori’ atendendo a pedido da Promotoria.

Atos de violência

“Todos os colaboradores disseram ter receio de Coriolano Coutinho, uma vez que pairam sobre ele várias notícias de atos de violência e também pelo domínio que exerce sobre as forças policiais”, destacou o desembargador.

Delatado por Daniel Gomes – operador da Cruz Vermelha do Brasil no Rio Grande do Sul – e Michele Louzada, ‘Cori’ teria recebido R$ 1,5 milhão de propina proveniente da compra de materiais e equipamentos para o Hospital Metropolitano.

Em grampo da Polícia Federal, Ricardo Coutinho foi flagrado combinando a entrega de dinheiro para seu irmão.

O ex-governador acionava o irmão quando Livânia Farias, ex-procuradora-geral do Estado e sua principal emissária, não podia se incubir da tarefa.

ACOMPANHE:

DANIEL GOMES: […] Última coisa que eu fiquei de ver com o senhor hoje foi o negócio do repasse do investimento e do destino do valor, aquele repasse, 10% do valor, o senhor ficou de me dizer se eu passo para Livânia ou se faço com alguém.

RICARDO COUTINHO: Como é que… como é que seria isso?

DANIEL: Então governador, hoje eu tô com 1.5 disponível, tá? Tá no Rio, então eu tinha que trazer pra cá como o senhor me pediu, tá? O outro 1.5 eu acho que… Enfim… No início de janeiro. Me pediu que era até dezembro, como atrasou o contrato eu tô adiantando de outras fontes isso. Não vai ser do investimento, ainda vai demorar muito.

RICARDO COUTINHO: Livânia tá sabendo?

DANIEL: Não!

RICARDO COUTINHO: Então você poderia ver com ‘Cori’.

DANIEL: Deixo com ‘Cori’ (ininteligível). Eu vou dar um jeito de me encontrar com ele amanhã no gabinete, tá? Fechado! Eu já tive com ele hoje, eu ligo pra ele agora e faço (ininteligível), tá?

Foto: TJ-PB/Reprodução

Em sua delação, Daniel diz que Coriolano também ficou responsável pelo recebimento da propina sobre a compra de equipamentos para estruturar o Hospital Metropolitano de Santa Rita.

De maio a agosto de 2018, o irmão de Ricardo Coutinho teria coletado o total de R$ 2,5 milhões em quatro ocasiões.

COM A PALAVRA, A DEFESA

A reportagem busca contato com a defesa de Coriolano Coutinho, o ‘Cori’. O espaço está aberto para manifestação. (pedro.prata@estadao.com)

COM A PALAVRA, RICARDO COUTINHO

Em sua página no Instagram, o ex-governador da Paraíba postou.

“Fui surpreendido com decisão judicial decretando minha prisão preventiva em meio a uma acusação genérica de que eu faria parte de uma suposta organização criminosa.

Com a maior serenidade digo ao povo paraibano que contribuirei com a justiça para provar minha total inocência. Sempre estive à disposição dos órgãos de investigação e nunca criei obstáculos a qualquer tipo de apuração.

Acrescento que jamais seria possível um Estado ser governado por uma associação criminosa e ter vivenciado os investimentos e avanços nas obras e políticas sociais nunca antes registrados.
Lamento que a Paraíba esteja presenciando o seu maior período de desenvolvimento e elevação da autoestima ser totalmente criminalizado.

Estou em viagem de férias previamente programada, mas estarei antecipando meu retorno para me colocar à inteira disposição da justiça brasileira para que possa lutar e provar minha inocência.

Ricardo Vieira Coutinho”

COM A PALAVRA, O PSB

Por meio de nota, a assessoria de comunicação do PSB informou. “Em face da Operação Calvário, deflagrada pela Polícia Federal na manhã desta terça-feira, 17, no Estado da Paraíba, o Partido Socialista Brasileiro reafirma, como sempre, seu total apoio à apuração dos fatos, respeitados o devido processo legal e o amplo direito de defesa. O PSB reitera sua confiança na conduta do ex-governador Ricardo Coutinho e dos demais investigados e investigadas, na certeza de que uma apuração isenta e justa resultará no pleno esclarecimento das denúncias.”

Documento

COM A PALAVRA, GERVÁSIO AGRIPINO MAIA

A reportagem entrou em contato por e-mail com o gabinete do deputado e aguarda posicionamento. O espaço está aberto para manifestação. (pedro.prata@estadao.com)