Compartilhamento de provas alimenta inquéritos que miram Bolsonaro, agora também investigado por relação com milícias digitais

Compartilhamento de provas alimenta inquéritos que miram Bolsonaro, agora também investigado por relação com milícias digitais

Presidente se tornou alvo de sete investigações desde que assumiu o cargo

Rayssa Motta

09 de fevereiro de 2022 | 19h19

Com o sinal verde do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), o presidente Jair Bolsonaro (PL) passou à condição de investigado em mais um inquérito: o das milícias digitais. O chefe do Executivo se tornou alvo de outras seis investigações desde que assumiu o cargo.

A relação de Bolsonaro com grupos que se mobilizam na internet contra a democracia e as instituições passou a ser investigada depois que Moraes autorizou o compartilhamento do material obtido no inquérito sobre o vazamento de uma apuração sigilosa pelo presidente. A PF pediu para usar as provas alegando ter visto um ‘modo de agir correlato’ com as chamadas ‘milícias digitais’.

A própria investigação das milícias digitais, aberta em julho do ano passado, nasceu derivada de outra frente de apuração contra aliados e apoiadores bolsonaristas: o inquérito dos atos antidemocráticos. Na ocasião, o caso precisou ser arquivado por determinação da Procuradoria-Geral da República (PGR). Antes de encerrá-lo, porém, Moraes autorizou o intercâmbio de provas e mandou rastrear o que chamou de ‘organização criminosa’ identificada pela PF.

Presidente Jair Bolsonaro passou a ser investigado em sete procedimentos desde que assumiu o cargo. FOTO: GABRIELA BILO/ESTADÃO

Veja todas as investigações em curso contra Bolsonaro:

  • Disseminação de fake news e ataques ao sistema eleitoral;
  • Interferência indevida na Polícia Federal, como acusou o ex-ministro e pré-candidato a presidente Sérgio Moro ao entregar o cargo no governo em abril do ano passado;
  • Prevaricação por não ter comunicado a Polícia Federal dos inícios de corrupção envolvendo as negociações do Ministério da Saúde para compra da vacina Covaxin;
  • Incitação ao crime por relacionar vacina contra a covid-19 com o vírus da Aids;
  • Vazamento de investigação sigilosa da Polícia Federal sobre uma tentativa de ataque hacker aos sistemas do Tribunal Superior Eleitoral;
  • Inquérito administrativo do TSE, também sobre a divulgação do inquérito que se debruça sobre a tentativa de invasão dos sistemas da Corte;
  • Atuação de milícias digitais.

No relatório final do inquérito sobre a live feita por Bolsonaro no dia 29 de julho do ano passado para questionar a segurança das urnas, com transmissão simultânea pelas redes sociais e pela TV Brasil, a delegada federal Denisse Dias Rosas já havia sugerido que o presidente fosse investigado no inquérito das milícias digitais por promover desinformação. Na ocasião, ela pediu ‘a utilização e a interpretação dos dados referentes ao modo de agir identificado’ no ‘contexto de atuação da suposta organização criminosa’ das milícias digitais.

Ao concluir outra investigação conexa, sobre a divulgação indevida de documentos sigilosos na live, a PF disse que Bolsonaro cometeu o crime de violação de sigilo. O material foi disponibilizado nas redes sociais para levantar suspeitas sobre o sistema de votação em meio aos debates da PEC do Voto Impresso. Para a os investigadores, a tentativa de inflamar a militância bolsonarista com informações falsas indica semelhanças com o ‘modus operandi’ das milícias digitais.

“Corroborando a ideia de articulação de um grupo maior de pessoas cuja atuação se insere em contexto mais amplo, tratado no INQ 4874 [inquérito das milícias digitais]”, escreveu a PF.

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