Viral nas redes, estudo retratado distorceu dados para atacar vacinas de covid-19
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Viral nas redes, estudo retratado distorceu dados para atacar vacinas de covid-19

Revista 'Vaccines' identificou que autores usaram dados sobre suspeitas de eventos adversos de forma enganosa; ainda assim, link do artigo foi compartilhado mais de 9 mil vezes no Facebook

Victor Pinheiro

05 de julho de 2021 | 16h52

Um estudo que viralizou nas redes sociais ao questionar os benefícios de vacinas de covid-19 foi retratado nesta sexta-feira, 2, após editores da revista Vaccines constatarem uma série de erros técnicos e associações enganosas. Com base em análises equivocadas, o trabalho apontava que, a cada 100 mil vacinados, de 2 a 11 pessoas são salvas, enquanto 4 sofrem efeitos colaterais fatais. Esse cálculo, no entanto, está errado.

De acordo com a retratação divulgada pelo periódico, os autores empregaram indevidamente dados do sistema de notificações de eventos adversos da Holanda para atribuir às vacinas riscos de morte não comprovados. Quer dizer: a plataforma holandesa mostra notificações de possíveis efeitos adversos, que não foram confirmados pelos órgãos de saúde como sendo causados pela imunização. “Foram levadas ao conhecimento da editora sérias preocupações sobre interpretação incorreta de dados, levando a conclusões equivocadas e distorcidas”, diz a revista Vaccines na retratação.

Dados da plataforma CrowdTangle, que fornece informações sobre o compartilhamento de conteúdos em redes sociais, mostram que somente o link direto do artigo retratado registra mais de 30 mil interações e quase 9 mil compartilhamentos no Facebook. Por outro lado, a retratação alcançou um público muito menor: 1,7 mil interações e 238 compartilhamentos na rede social.

A postagem de um médico infectologista no Instagram que compartilhou a conclusão errônea dos autores soma mais de 5,8 mil curtidas e reúne dezenas de comentários que colocam em dúvida a segurança dos imunizantes. 

Post viral no Instagram publicado antes da retratação do artigo ainda não havia sido atualizado até a manhã deste segunda-feira, 5. Foto: reprodução

O episódio também repercutiu no universo acadêmico. Um texto publicado no blog da revista Science informa que, desde o dia 26 de junho, dois dias após o trabalho ser publicado na Vaccines, ao menos seis cientistas renunciaram a cargos editoriais na revista em protesto à aprovação do manuscrito.

A distorção de dados sobre suspeitas de eventos adversos é uma prática comum de conteúdos enganosos nas redes sociais. O Estadão Verifica já desmentiu boatos que empregavam indevidamente informações da Anvisa (Brasil), da MHRA (Reino Unido) e do CDC (Estados Unidos). As agências defendem que imunizantes aprovados em seus respectivos países são seguros e eficazes.

O órgão britânico, por exemplo, aponta que os relatos de eventos adversos coincidem com o que foi observado nos ensaios clínicos dos produtos e os benefícios da vacinação superam amplamente o risco de reações mais severas extremamente raras.

O que diz a pesquisa e porque está incorreta

Para analisar os supostos riscos e benefícios da vacinação em massa contra covid, os autores da pesquisa retratada promoveram uma comparação entre o número de efeitos adversos reportados ao centro de farmacovigilância holandês Lareb e um índice chamado NNTV, que descreve quantas pessoas precisam ser vacinadas para evitar uma morte por determinada doença.

O site do centro Lareb ressalta em destaque que os relatos contidos na plataforma não permitem determinar que uma reação adversa está de fato associada à vacina, tampouco podem ser interpretados para indicar a frequência com que um evento adverso de um medicamento ocorre. 

Isso acontece porque o evento adverso pode ser resultado de um fator não relacionado à vacina mas que, coincidentemente, ocorreu ou foi identificado após a imunização. Pacientes e prestadores de serviços de saúde são incentivados a reportar qualquer ocorrência depois da injeção mesmo que não tenham indícios claros de conexão com a vacina. 

Como já explicou o Estadão em outras reportagens sobre o tema, para investigar a relação entre um evento adverso e uma substância, cientistas recorrem a um conjunto de fontes de informação, dentre análises estatísticas, estudos epidemiológicos e consulta a fichas médicas individuais de pacientes. 

“Há várias outras imprecisões no artigo, uma delas é que os casos fatais [registrados no sistema Lareb] teriam sido certificados por especialistas médicos. É importante frisar que mesmo essa alegação falsa não implica uma causalidade”, destaca a nota de retratação da revista Vaccines

A vacina da Pfizer mostrou eficácia global de 95% em prevenir mortes em estudos clínicos; Uso do imunizante já foi aprovado pela Anvisa no Brasil e uma série de agências internacionais.  Foto: JEAN-FRANCOIS MONIER / AFP

De acordo com a matéria do blog da Science, os autores do estudo retratado defendem que, apesar da conclusão polêmica, o artigo faz apenas uma associação entre os efeitos adversos reportados e as vacinas, mas não afirma que eles foram causados necessariamente pela vacina. 

Já o índice NNTV foi calculado a partir de dados de um outro estudo, publicado no New England Journal of Medicine (NEJM), que analisou a eficácia da vacina da Pfizer em meio à campanha de imunização em Israel. O trabalho verificou fichas médicas de 1,2 milhão de pacientes do sistema de saúde israelense e concluiu que o imunizante mostrou alta eficácia em prevenir mortes e hospitalizações em níveis semelhantes aos observados nos ensaios clínicos. 

Viés dos autores

Em entrevista ao Estadão, especialistas pontuaram que, além dos erros na interpretação de dados de eventos adversos, há sinais claros de viés dos autores no desenvolvimento do artigo retratado na Vaccines.

A microbiologista da Universidade de São Paulo (USP) Laura de Freitas pontua que os países europeus têm sistemas diferentes de monitoramento de eventos adversos. Em vez de optar por analisar estatísticas em escala continental, o que minimizaria o impacto das diferenças nos sistemas na análise, os autores escolheram extrair dados da plataforma holandesa porque o volume de notificações do país é maior do que o de outras nações europeias.

Já o virologista da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Flávio Guimarães diz desconhecer a métrica NNTV, mas pontuou que causa estranheza o artigo não estabelecer uma base de comparação com outras vacinas já existentes no mercado. “Isso leva a crer que essa métrica pode ser bem semelhante a de vacinas extremamente importantes e icônicas, como a vacina da varíola”, afirma.

Dados da plataforma Crowdtangle mostram que retratação ainda está longe do número de compartilhamento do artigo no Facebook. Foto: Reprodução/Crowdtangle

O especialista ainda pontua que o artigo se baseia mais em relatos do que em fontes com rigor científico apropriado. Uma das principais referências da pesquisa, por exemplo, é um comentário de um médico enviado aos editores da revista The British Medical Journal em resposta a uma matéria divulgada, ainda em novembro, no site do periódico, que noticiou uma eficácia global de 90% da vacinas da Pfizer ainda em resultados preliminares da fase 3 de ensaios clínicos.

Alerta

Para Freitas, o tom direto e alarmista das conclusões dos autores é outro fator de alerta. Ela explica que cientistas dificilmente fazem afirmações “definitivas” em artigos científicos, mesmo que as evidências apontem para um certo resultado. 

“Em trabalhos adequados, geralmente encontramos conclusões mais cautelosas. É comum observarmos expressões condicionais, como ‘parece’, ‘sugere’, ‘pode ser que’, dificilmente uma afirmação definitiva. Afinal, amanhã pode surgir alguma coisa que mude toda aquela história”, pontua a microbiologista. 

A cientista acrescenta que uma boa prática para entender a relevância e a confiabilidade de um estudo é observar a repercussão do artigo em grandes veículos de comunicação, inclusive estrangeiros. “Agora se você só encontra em um site que já tem uma tendência de publicar coisas duvidosas e não há nenhuma outra referência em grandes veículos, você já tem que ficar com um pé atrás”, pontua. 

Outro caminho, segundo Freitas, é acompanhar e interagir com perfis de divulgação científica, que discutam os detalhes dos estudos.

O virologista Flávio Guimarães também aconselha consultar a análise crítica de outros cientistas sobre o trabalho. Ele acrescenta que também vale observar onde o conteúdo foi publicado. “A maioria desses artigos polêmicos é publicada em revistas nebulosas”, com pouca relevância no universo acadêmico, diz ele.

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