Postagem enganosa divulga números de suspeitas sem confirmação de eventos adversos pós-vacina

Postagem enganosa divulga números de suspeitas sem confirmação de eventos adversos pós-vacina

Publicações nas redes sociais não deixam claro que notificações enviadas à Anvisa não são comprovadamente causadas pelos imunizantes; número citado corresponde a 0,007% do total de brasileiros vacinados com a primeira dose

Jullie Pereira, especial para o Estadão

25 de junho de 2021 | 19h55

Atualizada em 28/06/2021.

São enganosas postagens no Facebook e no Instagram que divulgam notificações enviadas à Anvisa de eventos adversos pós-vacinação, sem deixar claro que essas informações se referem a casos suspeitos — que não foram comprovadamente causados pelos imunizantes contra covid. Os posts alegam que foram notificados 4.900 eventos adversos, sendo 399 mortes suspeitas. Porém, além de se referirem a relatos sem confirmação, esse número representa 0,007% do universo de pessoas vacinadas com ao menos uma dose contra o coronavírus.

Todas as vacinas aprovadas para uso no Brasil passaram por testes que confirmaram sua eficácia e segurança, e que foram ratificados pelos órgãos de controle sanitário. Já são mais de 69,1 milhões de pessoas vacinadas com a primeira dose, de acordo com dados do consórcio de veículos de imprensa formado por Estadão, Extra, O Globo, Folha de S. Paulo, G1 e UOL.

As postagens analisadas usam como fonte os dados do Painel de Notificações de Farmacovigilância da Anvisa. A própria plataforma, no entanto, informa que os números são de suspeitas. “Ou seja, embora os eventos tenham sido observados após a administração de um determinado medicamento ou vacina, não é possível ter certeza que estejam relacionados ou tenham sido causados por esse medicamento ou vacina”, comunica o site.

De acordo com o aviso do painel, os casos notificados podem ter várias causas, como doenças subjacentes ou interações com outros medicamentos.

As notificações de possíveis eventos adversos são esperadas e até mesmo incentivadas pela Anvisa. Mesmo após a aprovação de uso das vacinas, elas continuam a ser monitoradas e analisadas na fase de farmacovigilância. Logo, todo possível evento adverso precisa ser notificado para análise. No “Plano de Monitoramento de Eventos Adversos de Medicamentos e Vacinas Pós-Autorização de Uso Emergencial”, a agência de vigilância sanitária deixa isso claro:

“A Anvisa espera e estimula que um grande volume de informações sobre reações adversas durante a imunização seja registrado nos sistemas oficiais. Estes eventos adversos pós-vacinação serão avaliados e revisados em sua relação benefício-risco e comunicados oportunamente”, afirma. 

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As suspeitas de eventos adversos registradas no painel são relacionadas a remédios e vacinas. Quando aplicado o filtro de vacinas contra covid-19, o painel mostra que foram notificados 6. 263 casos entre 17 de janeiro, data em que a primeira pessoa foi vacinada no Brasil, até o dia 20 de junho. Destes, 31% são considerados graves. 

Os registros mais frequentes são de dor de cabeça: 2.952 casos. Depois, febre (2.768 casos) e dor muscular (1.337). 

Foto: Sistema de farmacovigilância da Anvisa

De qualquer forma, as notificações de eventos adversos são apenas suspeitas que posteriormente são investigadas para confirmar se existiu ou não interferência da vacina. A Anvisa não divulga os resultados dessas análises. Logo, não é possível saber se todas as notificações foram, de fato, causadas pelas vacinas contra a covid-19.

Na publicação “Vigilância dos Eventos Adversos Pós-Vacinação: cartilha para trabalhadores de sala de vacinação”, o Ministério da Saúde e a Secretaria de Vigilância em Saúde explicam que os eventos adversos podem ocorrer por vários motivos e, por isso, devem ser investigados caso a caso.

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“Após a aplicação da vacina, poderiam surgir sinais e sintomas decorrentes de outra doença que estivesse em período de incubação. Neste caso, seria um evento que ocorreu por coincidência e não devido à vacinação. Para se confirmar a relação do evento adverso com a vacinação, após a notificação, deve proceder-se à investigação do caso”, dizem os órgãos.

Estadão Verifica entrou em contato com a Anvisa, que enviou o link para acesso ao painel de farmacovigilância.

A peça analisada aqui foi publicada pelos perfis do site “Brasil sem Medo”. O Estadão Verifica entrou em contato com os responsáveis pelo site, que disseram que “a matéria deixa muito clara a natureza provisória das notificações”. Apesar disso, as chamadas nas redes sociais do “Brasil Sem Medo” analisadas nesta verificação não esclarecem que os números são de possíveis eventos adversos não confirmados.

A equipe do site escreveu ainda que “não há outro meio de a sociedade saber sobre a segurança dessas vacinas” que não pelos dados de farmacovigilância da Anvisa. “Afinal, qual o problema em não confiar nas vacinas para covid? O mesmo não poderia ser sustentado sobre medicamentos de tratamento para covid?”, diz um trecho da resposta.

Importante ressaltar mais uma vez que os imunizantes contra a covid em uso no País foram testados em estudos que demonstram sua segurança e eficácia. Até o momento, não existem pesquisas que comprovem que medicamentos como cloroquina e ivermectina podem tratar a doença causada pelo novo coronavírus.

Esta checagem também foi feita pela AFP.

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