Site distorce dados preliminares de possíveis eventos adversos da vacinação no Reino Unido

Site distorce dados preliminares de possíveis eventos adversos da vacinação no Reino Unido

Agência reguladora britânica diz que informações presentes em plataforma de monitoramento não necessariamente indicam reações colaterais de imunizantes

Alessandra Monnerat e Pedro Prata

08 de março de 2021 | 17h42

É enganoso um texto que viralizou nas redes sociais e afirma que as vacinas contra covid-19 causaram doenças oculares e cegueira no Reino Unido. O conteúdo se baseia em relatos preliminares da Agência Reguladora de Medicamentos e Produtos para a Saúde britânica (MHRA, na sigla em inglês), que não foram comprovados como efeitos adversos dos imunizantes Pfizer/BioNTech e Oxford/AstraZeneca.

“Vacinas causam 600 novos casos de doenças oculares e deixam cinco pessoas cegas, de acordo com o governo do Reino Unido”, diz enganosamente um título publicado no blog Contra Fatos.

Agência britânica nega que dados de possíveis eventos adversos representem perigo à saúde. Foto: Adrian Dennis/AFP

A MHRA informa que faz parte do processo de verificação da segurança de uma vacina o acompanhamento de possíveis efeitos adversos mesmo após a liberação do uso. Para isso, utilizam a plataforma Yellow Card (cartão amarelo, em português), na qual qualquer cidadão pode reportar reações adversas ou efeitos colaterais após tomar uma vacina.

“É muito importante observar que os dados do Yellow Card não necessariamente significam que a vacina causou aquelas reações”, explica o site da agência de saúde. Isso porque o órgão britânico solicita que qualquer evento adverso suspeito seja reportado, mesmo que a pessoa não tenha certeza de que foi causado pela vacina.

“Os sintomas relatados são chamados de reações adversas suspeitas e muitas delas não têm relação alguma com a vacina”, complementa a agência. “Geralmente é uma coincidência (que os sintomas e a vacina) tenham ocorrido próximos um do outro”. 

As autoridades de saúde monitoram os eventos adversos suspeitos inseridos na plataforma para distinguir aqueles que são efeitos colaterais reais (e que portanto exigem alguma ação das autoridades) daqueles que são eventos adversos que não possuem relação alguma com as vacinas.

“Nem sempre os eventos adversos suspeitos presentes no Yellow Card são efeitos colaterais comprovados de uma vacina”, diz a agência britânica. “Alguns deles poderiam ter ocorrido de qualquer forma, independentemente do imunizante. Isso é muito comum quando milhões de pessoas são vacinadas, e principalmente quando elas são administradas para os mais idosos, que possuem doenças pré-existentes”.

Até o dia 21 de fevereiro de 2021, haviam sido reportados 29.715 efeitos adversos para a vacina da Pfizer/BioNTech, 42.917 para a vacina da AstraZeneca e 177 nos quais não foram informados o imunizante. Em ambos os casos, o índice de eventos adversos suspeitos é de três a cinco casos para cada mil doses administradas.

A agência britânica resume:

  • O aumento no número de reações adversas suspeitas reflete o avanço da imunização da população, tendo em vista que novos centros de vacinação foram abertos no Reino Unido;
  • O número e a categoria de reações adversas suspeitas reportadas até o momento não fogem do padrão apresentado por outras vacinas usadas corriqueiramente;
  • A segurança geral das duas vacinas está dentro do padrão observado nos testes clínicos;
  • Baseando-se nas informações colhidas até o momento, os benefícios das duas vacinas em prevenir contra a covid-19 e complicações sérias em muito superam qualquer um dos efeitos colaterais conhecidos;
  • Assim como ocorre com todas as vacinas e medicamentos, a segurança das vacinas contra a covid-19 está continuamente sendo monitorada.

Esta checagem foi feita com informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 8 de março de 2021.

O Estadão Verificadesmentiu um boato semelhante envolvendo a agência de saúde CDC, dos Estados Unidos. O órgão americano disse que até o momento não foi registrada nenhuma morte em decorrência de vacinas contra a covid-19 e que estas não mostram, até o momento, nenhum risco para a saúde.

Também não é verdadeiro que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) tenha confirmado mortes por causa das vacinas aplicadas no Brasil. A agência publicou uma nota na qual esclarece que “os dados públicos de notificações do uso de vacinas para covid-19 não indicam qualquer relação das vacinas com eventos adversos graves ou óbitos no País.”

Em resposta a uma checagem da Lupa, o blog Contra Fatos disse que a agência britânica “não nega que os eventos adversos tenham ocorrido”, e que “qualquer leigo sabe que os dados são preliminares. E isso não torna a publicação em questão falsa e muito menos uma fake news”.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.