Relatório alarmista de médica britânica distorce dados para alegar que vacinas são inseguras
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Relatório alarmista de médica britânica distorce dados para alegar que vacinas são inseguras

Ministério da Saúde do Reino Unido reafirmou que os imunizantes contra covid aprovados até o momento são eficazes, seguros e salvaram milhares de vidas

Victor Pinheiro

24 de junho de 2021 | 17h55

Não existe qualquer evidência que justifique a suspensão da vacinação contra a covid-19 no Reino Unido, ao contrário do que sugerem publicações nas redes sociais. Um perfil antivacina no Instagram afirma que um “relatório britânico urgente” traz informações sobre efeitos colaterais que justificariam a paralisação das injeções. No entanto, o tal relatório não é oficial — foi feito por uma médica ligada a um grupo que promove tratamentos ineficazes contra o novo coronavírus. Além disso, distorce dados preliminares de possíveis eventos adversos. Procurado pelo Estadão Verifica, o Ministério da Saúde da Grã-Bretanha reafirmou que as vacinas aprovadas até o momento são eficazes, seguras e salvaram milhares de vidas.

A doutora June Raine, executiva-chefe da agência britânica reguladora de medicamentos (MHRA), lembrou que mais de 72 milhões de doses contra covid já foram aplicadas, no maior programa de vacinação da história do país. “Nenhum remédio ou vacina eficiente não tem risco”, disse ela. “Nossa orientação segue sendo que os benefícios da vacina superam os riscos na maioria das pessoas. Ainda é fundamentalmente importante que as pessoas venham se vacinar, e tomem a segunda dose quando convocados”.

A postagem no Instagram já acumula mais de 2 mil interações. Leitores também solicitaram a checagem por WhatsApp, (11) 97683-7490.

O documento que serviu como base para o post é assinado por uma organização chamada The Evidence-Based Medicine Consultancy, liderada pela médica britânica Tess Lawrie. A análise consiste em um levantamento de relatos de eventos adversos das vacinas da Pfizer, Moderna e Oxford-Astrazeneca registrados no sistema Yellow Card até o dia 26 de maio. Mas, como o Estadão Verificaexplicou antes, qualquer cidadão pode relatar possíveis eventos adversos junto ao MHRA, mesmo que não tenha certeza que foram causados pela vacinação.

Os autores afirmam no relatório estar cientes de que as informações sobre reações adversas de vacinas da plataforma não querem dizer que o imunizante é de fato a causa do evento reportado ou é inseguro para consumo. Mesmo assim, eles se contradizem ao defender que já há evidências suficientes para que a MHRA, equivalente à Anvisa no Brasil, declare que vacinas são inseguras. 

Em tom alarmista, o documento afirma, sem apresentar provas adicionais, que há fortes indícios na relação entre a vacinação e diferentes eventos adversos relatados ao Yellow Card. Segundo os autores, é necessário interromper a campanha de imunização até que mais investigações sejam conduzidas. 

O relatório omite, no entanto, que técnicos independentes do governo britânico monitoram e conduzem investigações dos eventos reportados em conjunto com outras fontes de evidência, incluindo boletins médicos, análises estatísticas e estudos epidemiológicos. 

Até o momento, a conclusão é de que as vacinas são seguras e efetivas para combater a pandemia. Procurada pela reportagem, a MHRA ressaltou que as três vacinas utilizadas no país foram autorizadas para uso a partir da revisão de dados de qualidade, eficácia e segurança produzidos nos estudos clínicos dos imunizantes. O órgão ainda reforçou que os relatos de suspeitas de eventos adversos no Yellow Card não provam que a ocorrência está associada à vacina.

Informações semelhantes constam no boletim de eventos adversos divulgado semanalmente pela agência. A última edição publicada em 17 de junho, que compila dados do início da vacinação até o último dia nove, esclarece que os relatos de reações adversas suspeitas são avaliados por especialistas em conjunto com outras fontes de evidências.

“Aplicamos técnicas estatísticas que podem apontar se há mais eventos adversos do que o esperado, a partir do que se sabe sobre a taxa de incidência base de doenças na ausência de vacinação”, explica o boletim. Os investigadores ainda consultam estudos epidemiológicos e dados fornecidos por provedores de serviços de saúde. 

Ao contrário do que afirmam os conteúdos alarmistas, o próprio relatório do MHRA aponta que a grande maioria dos relatos de eventos adversos do Yellow Card até o momento “confirma o perfil de segurança observado nos ensaios clínicos”. As principais reações relatadas são de sintomas análogos à gripe, dor de cabeça, calafrios, dor no braço e no local da injeção, cansaço e aceleração de batimentos cardíacos. 

“Geralmente, essas reações não estão associadas a doenças mais sérias e refletem a resposta imune esperada das vacinas”, diz o boletim.

Reações severas são raríssimas, diz governo britânico

O governo britânico destaca que eventos adversos graves são muito raros e que os casos relatados são monitorados de perto. Um exemplo citado no relatório “urgente” analisado aqui consiste nas reações alérgicas graves, ou anafilaxia, possivelmente associadas a vacinas de RNA Mensageiro da Pfizer e da Moderna. 

As autoridades sanitárias do país mantêm a recomendação de que pacientes com histórico alérgico a ingredientes das vacinas não recebam os imunizantes. As fichas técnicas dos produtos são públicas.

O relatório alarmista destaca relatos de tromboembolismo, a formação de coágulos na corrente sanguínea com potencial de prejudicar o fluxo de sangue no corpo. O documento omite, porém, que os casos relatados são investigados por uma equipe técnica independente e a conclusão das análises até o momento indica que os “benefícios da vacina superam os riscos na maioria das pessoas”. A Agência Europeia de Medicamentos (EMA) emitiu parecer semelhante baseado nas notificações de seu próprio sistema de monitoramento farmacológico.

Segundo o MHRA, os registros de eventos adversos ocorrem em proporção de 20,2 casos a cada milhão de doses aplicadas em adultos de 18 a 49 anos e 10,7 casos por milhão em grupos acima de 50 anos. O boletim do governo britânico afirma ainda que o Yellow Card recebeu relatos de mortes com coincidência temporal com a vacinação com a vacina da Astrazeneca, mas as análises do órgão apontam que o imunizante não tem conexão com as mortes reportadas.

Também não há indícios de que a vacinação esteja associada à paralisia de Bell, uma doença caracterizada por paralisia, na maioria das vezes temporária, em parte da face de pacientes. “O número de relatos de paralisia facial recebidos até agora é semelhante à taxa natural esperada e não sugere um risco maior após as vacinas”, diz o governo do Reino Unido. 

A primeira-ministra da Escócia, Nicola Sturgeon, recebe a segunda dose de vacina contra covid. Foto: Jeff J. Mitchell/Reuters

Estudo especulativo

O relatório contra a vacinação de covid-19 aponta que a natureza e a variedade dos eventos adversos relatados ao sistema de monitoramento britânico coincidem com potenciais patologias descritas em um trabalho teórico publicado por uma cientista da computação do Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT), dos Estados Unidos, na revista International Journal of Vaccine Theory, Practice, and Research.

De acordo com o próprio site, o periódico aceita artigos que discutam hipóteses sobre a segurança de medicamentos e permite conclusões baseadas na opinião pessoal dos autores, desde que sejam bem fundamentadas. 

O artigo levanta hipóteses de cenários em que vacinas de RNA mensageiro poderiam provocar doenças inflamatórias multissistêmicas; doenças neurodegenerativas, entre outros fenômenos. Porém, nada disso foi comprovado até o momento. Os próprios autores admitem, por exemplo, que não há estudos que de fato demonstrem que essas vacinas são capazes de modificar o DNA humano — tese que é amplamente contestada por especialistas. 

A carta alarmista assinada por Tess Lawrie também cita que estudos científicos sugerem que as proteínas spike do vírus produzidas a partir da imunização com produtos de RNA mensageiro levam a danos induzidos por vacina. Uma das referências consiste em uma pesquisa que analisou os níveis de proteínas do novo coronavírus em amostras de sangue de apenas 13 pessoas vacinadas. 

Como já reportou o Estadão Verifica, um dos autores já se manifestou para desmentir que os dados do estudo indicam qualquer efeito danoso dos imunizantes ao organismo. Esse boato também foi alvo de verificação do Projeto Comprova

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