Israel não está ‘totalmente vacinado com quatro doses’; postagem distorce dados sobre imunizantes

Israel não está ‘totalmente vacinado com quatro doses’; postagem distorce dados sobre imunizantes

No Instagram, atriz e ex-ministra Regina Duarte compartilhou exemplo do país de Oriente Médio para afirmar que imunizantes não funcionam

Clarissa Pacheco

24 de janeiro de 2022 | 14h08

Um post publicado no Instagram da atriz Regina Duarte engana ao sugerir que o exemplo de Israel teria mostrado que a vacinação “não funciona”. Em dezembro, o país do Oriente Médio foi o primeiro a começar a aplicar uma quarta dose de vacina contra a covid-19, mas em janeiro bateu recorde de casos diários da doença. Ocorre que a nova onda de infecções em Israel foi provocada pela variante Ômicron — e as evidências disponíveis até o momento indicam que as vacinas não impedem infecções pela nova cepa, apesar de evitarem casos graves e mortes. Além disso, a quarta aplicação de vacina em Israel é destinada apenas a grupos de risco neste primeiro momento.

A postagem traz um gráfico que mostra uma curva de infecções por covid-19 em Israel, Austrália, Estados Unidos e União Europeia, junto com a afirmação incorreta de que o país é “o único totalmente vacinado com 4 doses”. Na realidade, o porcentual da população imunizada com a quarta aplicação é de cerca de 6%; 65,1% receberam duas doses da vacina, um índice inferior ao do Brasil.

O post de Regina teve mais de 108 mil interações. Veja abaixo a checagem das alegações contidas na postagem.

Quarta dose é destinada apenas a grupos de risco

A primeira afirmação do post é falsa. Israel não está totalmente vacinado contra a covid-19 com a quarta dose. Na verdade, o país foi o primeiro do mundo a iniciar a aplicação do chamado segundo reforço, em dezembro de 2021, mas ela não alcança toda a população. Por e-mail, o Ministério da Saúde de Israel informou que a dose de número 4 vem sendo aplicada em cidadãos com mais de 65 anos de idade ou com histórico de doenças anteriores. Também está prevista a aplicação em profissionais de saúde.

Até as 07h59 do dia 24 de janeiro de 2022, o país tinha revacinado 599.328 pessoas deste público, conforme painel de dados atualizado em tempo real pelo ministério. Ainda segundo o órgão, toda a população adulta do país precisa tomar três doses do imunizante.

No mesmo dia e horário, 4.426.653 pessoas tinham recebido três doses contra a covid-19, enquanto 6.061.637 tinham duas doses e 6.685.604 tinham se vacinado apenas com a primeira injeção. O total de pessoas com ao menos duas doses da vacina até 22 de janeiro corresponde a 65,1% da população, segundo levantamento da plataforma Our World in Data, da Universidade de Oxford, na Inglaterra. Somadas aquelas que receberam apenas uma dose, o percentual sobe para 71,94%.

Dados de Israel foram atualizados em 22 de janeiro, e não no dia 23, como os demais

Além de Israel, o Chile também iniciou a aplicação da quarta dose da vacina no dia 10 de janeiro de 2022, apenas para pessoas imunossuprimidas. O país tem 88,2% da população totalmente vacinada, segundo dados da Our World in Data.

Passaporte vacinal

A segunda afirmação do post é verdadeira, em partes: Israel exige um passaporte de vacinação para israelenses e visitantes, mas não em todos os lugares. Por e-mail, o Ministério da Saúde citou que shoppings, por exemplo, não cobram a apresentação do documento. Por lá, há dois tipos de “passes”: o Green Pass, para entrada em locais que exigem comprovação de vacinação, e o Certificado COVID, para sair do país e visitar nações da União Europeia. Israel recebe viajantes de outros lugares, desde que estejam vacinados.

A adoção de um passaporte vacinal não é exclusividade de Israel, como mostram diversas reportagens publicadas ao longo de 2021. Esta matéria publicada em agosto apontava que o passaporte vacinal já era uma realidade em ao menos 31 países – sendo 27 da União Europeia, além de Suíça, Noruega, Islândia e Vaticano.

Esta outra, de dezembro do ano passado, apontou como a exigência do passaporte aumentou os índices de vacinação em Israel, assim como na França, Itália e Suíça. No Brasil e Estados Unidos, o passaporte também é exigido em muitos espaços, assim como no Canadá.

Recorde de casos ocorreu em janeiro

No post, Regina Duarte tenta utilizar o recorde de casos diários de covid-19 em Israel como argumento de que as vacinas não funcionam — mas especialistas e agências regulatórias já afirmaram em diversas ocasiões que os imunizantes são eficazes (1, 2 e 3).

Israel realmente tem registrado recordes de casos diários de covid-19, assim como outros países ao redor do mundo que enfrentam uma onda da variante Ômicron, mais transmissiva do que as anteriores. É o caso da França, Austrália, Reino Unido, Estados Unidos e do próprio Brasil.

O pico de casos diários de covid-19 em Israel ocorre em 22 de janeiro de 2022: 83.088 registros. Mas o número de mortes não acompanha o de casos — na mesma data em que houve recorde no número de casos, foram contabilizados 16 óbitos por covid-19.

O alto número de casos diários não indica que a vacinação não funciona. Em entrevista ao Estadão Verifica na semana passada, a professora Ethel Maciel, PhD em Epidemiologia da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e presidente da Rede Tuberculose explicou que as vacinas terão que ser adaptadas por conta das novas cepas, mas a efetividade delas continua alta para proteger contra formas graves da doença.

“Como as vacinas foram feitas com o vírus original, essas mutações diminuíram a efetividade”, disse ela. “A gente está vendo que, contra as infecções leves, a vacina está protegendo menos do que protegeria contra o vírus original. Mas, contra doenças graves e progressão para o óbito, elas continuam com uma efetividade muito alta e a vacina é, sim, a estratégia para que nós possamos controlar essa pandemia”.

Ela destacou que apenas atingindo uma alta cobertura vacinal é que a doença será transformada numa enfermidade leve, que possa de fato ser tratada em casa. “A gente precisa que muitas pessoas estejam vacinadas para a gente atingir altas coberturas e conseguir, assim, essa diminuição de transmissão, de adoecimento e de pressão nos serviços de saúde”, explicou.

Em nota, o Ministério da Saúde israelense reafirmou que “o Estado de Israel incentiva vacinas e torna os pontos de vacinação acessíveis em todas as cidades”.

A atriz Regina Duarte foi procurada pelo Estadão Verifica para comentar sobre a origem das informações compartilhadas, mas não respondeu até a publicação deste texto. O espaço segue aberto.


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