Não, Japão não substituiu vacinação por ivermectina contra a covid-19

Não, Japão não substituiu vacinação por ivermectina contra a covid-19

Campanha de imunização continua no país e já chegou a mais de 80% da população; antiparasitário não é sequer autorizado no Japão para casos de covid-19

Clarissa Pacheco

19 de janeiro de 2022 | 14h41

Texto atualizado em 1º de fevereiro de 2022, às 13h45, para incluir resposta por e-mail da PMDA

Um vídeo que circula pela internet desde novembro do ano passado voltou a viralizar nas redes, com afirmações falsas sobre a campanha de vacinação e o combate à pandemia do SARS-CoV-2 no Japão. No vídeo, narrado em inglês, um homem diz que o país asiático substituiu a imunização pelo uso da ivermectina como uma cura permanente da covid-19. É mentira. O Japão não só mantém a campanha de vacinação como autorizou o uso da vacina Moderna como reforço para tentar conter o avanço de novos casos pela variante Ômicron. Além disso, a ivermectina sequer é listada entre as drogas aprovadas contra a covid-19 pela Agência de Produtos Farmacêuticos e Dispositivos Médicos (PMDA) do Japão.

A afirmação de que os japoneses trocaram a vacina pela ivermectina é a principal alegação falsa do vídeo, que tem quase cinco minutos de duração, foi legendado em português e se espalhou pelas redes. Um dos argumentos do autor da peça de desinformação é de que a vacina era uma boa saída apenas no momento inicial da pandemia, mas que agora é necessária uma “cura definitiva” para a doença. Ele mente ao dizer que essa cura é a ivermectina, um antiparasitário.

O Estadão Verifica ouviu a pesquisadora Ethel Maciel, PhD em Epidemiologia, professora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e presidente da Rede Tuberculose. Ela alerta que o vídeo, além de ser falso, até “envelheceu”, uma vez que já existem medicamentos indicados para tratamento da covid-19, como antivirais e anticorpos monoclonais – estes últimos, inclusive, aprovados no Japão. Não é o caso da ivermectina.

Segundo Ethel, os medicamentos aprovados por outras agências são os remédios da Pfizer e da Merck (conhecida fora dos Estados Unidos e Canadá como MSD), além dos anticorpos monoclonais. “Agora, nós já temos medicamentos que são efetivos, que têm eficácia comprovada, que impedem uma progressão naquelas pessoas que podem desenvolver uma doença mais grave”, disse ela. “É por isso que a gente tinha que estar brigando aqui no Brasil, não discutir medicamentos que a gente já sabe que não são eficazes”.

Além disso, a epidemiologista explica que, mesmo com a existência de medicamentos eficazes contra a covid, é falsa a alegação do vídeo de que as vacinas precisam ser substituídas por esses remédios. “Medicamento não substitui a vacina, são estratégias diferentes”, afirmou. “O medicamento atua na doença individual. A pessoa está doente e tem uma chance de progredir para uma doença mais grave? Então, eu trato aquela doença. A vacina é uma estratégia de prevenção e ela funciona num nível coletivo, então a gente precisa que muitas pessoas estejam vacinadas para que a gente diminua a circulação do vírus, o agravamento da doença e a progressão para o óbito”.

Este mesmo vídeo já foi desmentido por agências de checagem em todo o mundo entre os meses de novembro e dezembro de 2021. Apesar disso, há mais de 100 publicações recentes no Facebook com a mesma alegação falsa. Leitores do Estadão também perguntaram pelo WhatsApp (11-97683-7490) se as informações eram verdadeiras.

As alegações falsas do vídeo

Japão não interrompeu campanhas de vacinação

Primeiro, o narrador do vídeo diz que o país asiático “disse não às campanhas de vacinação das farmacêuticas”, o que é falso. Em dezembro de 2021, o premiê japonês Fumio Kishida anunciou que pretendia acelerar a campanha de reforço vacinal no país por conta do avanço de casos confirmados de contágio pela variante Ômicron. Ele afirmou que o Japão tinha um contrato de 170 milhões de doses da Pfizer e Moderna, o que deveria ser suficiente.

Nesta terça-feira, 18, o Japão bateu recorte de novos casos diários de covid-19 – foram 32.197 em 24 horas. Depois de decretar estado de “quase-emergência” nas províncias de Okinawa, Yamaguchi e Hiroshima, o governo japonês decide nesta quarta, 19, se decreta a “quase emergência” também em Tóquio. Enquanto isso, o site oficial do Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar (MHLW) recomenda que as pessoas se vacinem contra a covid-19.

“Atualmente, o número de novas pessoas infectadas está aumentando em todo o país, e a infecção pela cepa Ômicron está se espalhando”, anuncia o ministério. “Medidas básicas de controle de infecção também são eficazes contra a cepa Ômicron. Pedimos a sua cooperação contínua na prevenção da propagação da infecção. Se você não foi vacinado, considere a vacinação”.

O alerta está em um card em japonês publicado no site do órgão. Outro aviso é de que a vacina não é 100% eficaz e que, por isso, mesmo vacinadas, as pessoas devem manter medidas como usar máscara e lavar as mãos.

Também é falso que o Japão tenha adotado a ivermectina como droga para uma “cura melhor e mais duradoura”. A agência japonesa responsável por avaliar e aprovar fármacos e dispositivos médicos sequer lista a ivermectina entre os medicamentos autorizados para uso em casos de covid-19 no país.

No site oficial da agência, a PMDA, as drogas aprovadas são Remdesivir (antiviral), Baricitinibe (usado originalmente no tratamento de artrite reumatoide), Casirivimabe e imdevimabe (associação de anticorpos monoclonais), Sotrovimabe (anticorpo monoclonal) e molnupiravir (antiviral). Já as vacinas aprovadas no Japão são a Comirnaty (Pfizer), a Spikevax (Takeda/Moderna) e a Vaxzevria (AstraZeneca).

Em nota ao Estadão Verifica, a PMDA informou que não interrompeu a campanha de vacinação e que a ivermectina não está aprovada para uso no tratamento da covid-19. “Três vacinas SARS-CoV-2, da Pfizer, Moderna e AstraZeneca, estão atualmente aprovadas no Japão e nenhuma delas foi descontinuada. Observe que não divulgamos informações sobre produtos aplicados e sob revisão. E, os ensaios clínicos de Ivermectina estão em andamento. No entanto, a Ivermectina não está aprovada para uso no tratamento de doenças causadas pela infecção por SARS-CoV-2 (COVID-19)”, diz a nota.

Foto de um frasco de ivermectina. Nos Estados Unidos, medicamento é usado como vermífugo veterinário. Foto: Houston Cofield/The New York Times

A ivermectina não vinha tendo bons resultados contra a covid-19

O narrador ainda usa a alegação já desmentida de que a ivermectina vinha tendo bons resultados contra a covid-19. A própria fabricante do medicamento, a farmacêutica Merck, informou que dados não apontavam para eficácia do medicamento contra a covid-19. Uma peça de desinformação que tentava desqualificar a nota da Merck foi desmentida pelo Estadão Verifica em março do ano passado.

A última atualização da Organização Mundial de Saúde (OMS) sobre o uso da ivermectina aponta que as evidências sobre o tratamento de pacientes com covid com o antiparasitário são inconclusivas e que o remédio só deve ser usado em ensaios clínicos. “A Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) não recomendam o uso de ivermectina para quaisquer outros propósitos diferentes daqueles para os quais seu uso está devidamente autorizado, como para tratamento de oncocercose e sarna”, diz texto no site da organização.

Desconfiança do Japão com vacinas

Outra afirmação feita no vídeo é de que o Japão é um país com desconfiança histórica a respeito de vacinas. Isso é verdade, mas, diferentemente do que insinua a publicação, isso não indica que os japoneses não tenham aderido à imunização contra a covid-19 – mais de 80% da população já se vacinou. De fato, a campanha de vacinação  atrasou no Japão se comparada com outros países – só no final de fevereiro de 2021, dois meses após o início da vacinação no Reino Unido, é que o Japão começou a vacinar sua população.

Na época, especialistas atribuíram a desconfiança a ações judiciais anteriores no país, incluindo uma de 1992, que decidiu que o governo poderia ser responsabilizado por efeitos colaterais de diversas vacinas. Uma pesquisa feita em 15 países pela empresa britânica Ipsos Mori apontou que os japoneses estavam entre os mais reticentes com a vacinação – 60% desejavam ser vacinados, enquanto apenas 17% desejavam “fortemente a vacina”. As preocupações com efeitos colaterais atingiam 62% da população em 30 de janeiro de 2021.

Apesar disso, o Japão está hoje entre os países com maior percentual no mundo de população vacinada com duas doses. De acordo com dados da plataforma Our World in Data, da Universidade de Oxford, 79,01% tinha recebido duas injeções contra a covid-19 no dia 18 de janeiro de 2022. Considerando os que iniciaram o esquema vacinal, o percentual sobe para 80,32%, atrás apenas de Emirados Árabes Unidos (98,99%), Portugal (93,82%), Cuba (93,02%), Chile (91,03%), Cingapura (89,30%), China (87,5%), Canadá (84,38%) e Itália (82,15%).

Mortalidade infantil

Outra alegação do vídeo é de que o Japão tem a menor taxa de mortalidade infantil entre os países desenvolvidos por recomendar o mínimo de vacinas em crianças menores de 1 ano. A relação, contudo, é enganosa. Em 2018, o Unicef divulgou dados sobre mortalidade infantil no mundo e o Japão de fato encabeça a lista dos países com a menor taxa de mortalidade infantil. Mas isso não tem relação com não-vacinação de bebês menores de 1 ano, e sim com a presença de profissionais qualificados.

O país tem uma legislação que inclui vacinas para 14 doenças. A Lei de Vacinação do Japão diz que as vacinas devem ser aplicadas à medida em que a imunidade da mãe para o bebê começa a enfraquecer, seguindo um calendário específico para cada vacina. As previstas são: difteria, coqueluche, tétano, poliomielite aguda, hepatite B, infecção HIB (Influenza), infecção pneumocócica pediátrica, tuberculose (BCG), sarampo, rubéola, catapora, encefalite japonesa, HPV e rotavírus.

Vídeo tenta relacionar picos de casos à vacinação

Uma última alegação do vídeo é de que o Japão registrou um pico de casos de covid-19 em agosto de 2021, quando já havia vacinação, muito maior do que o número de casos registrados em agosto de 2020, quando não havia vacina. A comparação é enganosa, já que o pico de casos em agosto no ano passado não foi provocado pelos imunizantes, como insinua o vídeo.

Quando os casos bateram recordes, entre julho e agosto, o país asiático recebia as Olimpíadas de Tóquio. Durante os jogos, os casos quadruplicaram. Além disso, o período da alta de casos coincide com a onda da variante Delta em todo o mundo.

Por fim, o autor do vídeo afirma que em setembro de 2021 houve uma queda brusca de casos no país, sem a necessidade de doses de reforço das vacinas. Ele atribui isso a uma legalização no Japão do uso da ivermectina, o que não ocorreu. Especialistas japoneses atribuíram a queda rápida no número de casos aos altos índices de vacinação e a mudanças de comportamento das pessoas, que adotaram uma abordagem mais rigorosa das medidas contra a infecção quando perceberam que os hospitais estavam sobrecarregados e as pessoas estavam morrendo em casa.

Vacinas continuam protegendo

De acordo com a epidemiologista Ethel Maciel, o fato de pessoas vacinadas também desenvolverem a covid-19 não significa que as vacinas não são eficazes. É muito importante, explica, continuar vacinando a população mundial para aumentar a cobertura vacinal. “No início, as vacinas impediam, sim, até mesmo as infecções leves. Mas, a gente não conseguiu vacinar o mundo todo e agora tem as variantes e ainda um percentual grande de pessoas não vacinadas no mundo, aproximadamente 50% de pessoas que ainda não receberam nenhuma dose de vacina. A gente precisa avançar na vacinação para diminuir e controlar a transmissão do vírus”, afirma.

Ela acrescenta que é muito provável que as vacinas precisem ser reformuladas, porque elas foram feitas a partir do vírus original. “Essas mutações diminuíram a efetividade.  A gente está vendo que, contra as infecções leves, a vacina está protegendo menos do que protegeria contra o vírus original. Mas, contra doenças graves e contra a progressão para o óbito, elas continuam com uma efetividade muito alta e a vacina é, sim, a estratégia para que nós possamos controlar essa pandemia, mas a gente precisa que muitas pessoas estejam vacinadas”, acrescenta.

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