Para atacar vacinas, post mente ao dizer que OMS apontou dano ao sistema imunológico

Para atacar vacinas, post mente ao dizer que OMS apontou dano ao sistema imunológico

Comunicado da Organização Mundial da Saúde não afirma que imunizantes contra a covid-19 seriam ineficazes contra novas variantes, nem que as doses de reforço poderiam prejudicar a resposta imune

Projeto Comprova

19 de janeiro de 2022 | 15h17

Esta checagem foi produzida por jornalistas da coalizão do Comprova. Leia mais sobre nossa parceria aqui.

  • Conteúdo verificado: Texto alegando que a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) teriam declarado que doses de reforço da vacina contra a covid-19 poderiam danificar o sistema imunológico.

É falso o texto apontando que a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) teriam declarado que doses de reforço da vacina contra a covid-19 poderiam “danificar” o sistema imunológico. O conteúdo foi publicado inicialmente no site de Karina Michelin – que já teve outras postagens desmentidas pelo Comprova. O texto ora analisado foi republicado em outros portais e circula também no Instagram.

O boato usa três conteúdos diferentes para confundir sobre a eficácia e a segurança das vacinas e distorcer informações. O primeiro é um comunicado de um grupo de especialistas da OMS que não cita, em nenhum momento, qualquer possibilidade de “dano” ao organismo com as doses de reforço, nem que os imunizantes seriam “ineficazes” diante do surgimento de novas variantes. A entidade apenas recomenda o desenvolvimento de novas vacinas concomitantemente à atualização dos imunizantes atuais para garantir que eles continuem funcionando contra as novas cepas do vírus.

A autora do texto menciona ainda uma entrevista do chefe de Ameaças Biológicas à Saúde e Estratégia de Vacinas da EMA, Marco Cavaleri, em que este manifesta algumas preocupações em relação a uma aplicação contínua de doses de reforço. Para ele, a estratégia poderia levar a uma espécie de “sobrecarga” do sistema imunológico. Uma hipótese parecida foi expressa em uma reportagem do jornal The New York Times, atribuindo a tese de “fadiga do sistema imune” a cientistas não identificados.

O texto checado omite, no entanto, que esse debate atualmente está posto apenas para a quarta dose em diante, pois estudos científicos demonstram que a distribuição de uma terceira dose aumenta o nível de anticorpos e a proteção contra o novo coronavírus. Além disso, o mecanismo conhecido como exaustão do sistema imunológico nunca foi constatado em estudos de nenhuma vacina contra a covid-19, segundo especialistas consultados pelo Comprova.

A EMA não é contra as doses de reforço: ela defende a distribuição da terceira dose das vacinas na União Europeia e discute administrar as injeções mais espaçadamente no futuro, sincronizando as campanhas com a chegada do inverno, por exemplo, como acontece para as vacinas contra a gripe. A recomendação nesse sentido, porém, ainda depende de mais dados.

A autora do post verificado, Karina Michelin, foi procurada pelo Comprova, mas não respondeu até a publicação desta checagem. Para o Comprova, é falso o conteúdo analisado, uma vez que sofreu edições para mudar o seu significado original.

Como verificamos?

O Comprova iniciou a verificação procurando pelos conteúdos mencionados no texto checado. Por meio de pesquisas no Google, chegou ao comunicado da OMS, à conferência da EMA e à reportagem do jornal The New York Times, assim como a notícias de veículos de imprensa profissionais que trataram do mesmo assunto.

O projeto ainda conversou com três especialistas sobre a posição da OMS e a hipótese de que aplicações contínuas dos reforços em curto intervalo de tempo poderiam levar a uma espécie de “sobrecarga” do sistema imunológico: o imunologista Rafael Larocca, ex-pesquisador do Centro de Virologia e Pesquisa em Vacinas da Escola de Medicina de Harvard, o diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) Renato Kfouri e a infectologista Márcia Hueb, do Hospital Universitário Júlio Müller.

A reportagem ainda pesquisou sobre as discussões que envolvem hoje a aplicação de uma segunda dose de reforço, ou quarta dose, que recentemente foi autorizada para grupos de risco em Israel e outros países. A incerteza entre os cientistas está principalmente no benefício em potencial dessa medida agora, e não no suposto risco alegado no texto de que isso poderia prejudicar a imunidade.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 19 de janeiro de 2022.

Verificação

O que diz a OMS

Em comunicado divulgado no dia 11 de janeiro, um grupo de especialistas da OMS afirmou ser “improvável” que a estratégia de repetir doses de reforço com as vacinas disponíveis atualmente seja “apropriada ou sustentável”.

O comunicado é de autoria do Grupo Técnico Consultivo sobre a Composição da Vacina contra a Covid-19 (TAG-CO-VAC), formado por pesquisadores independentes convidados pela OMS. Estes são responsáveis por revisar periodicamente as evidências científicas e analisar as implicações das variantes de preocupação do Sars-Cov-2 em relação aos imunizantes que receberam o aval da entidade.

OMS defende que prioridade global não deveria ser as doses de reforço, e sim a vacinação primária em países com baixo acesso. Foto: Denis Balibouse/Reuters

No texto, o grupo de especialistas da OMS defende que a prioridade global deveria ser a distribuição de vacinas em locais com baixo acesso ainda às primeiras doses, principalmente na população com maior risco de desenvolver quadros graves da doença, como idosos e pessoas com comorbidades. Essa posição da OMS é conhecida desde o ano passado.

Eles escrevem que as vacinas aprovadas conferem um alto nível de proteção para todas as variantes antes da Ômicron. Esta, por ser mais recente, ainda está sendo avaliada em termos de escape vacinal, mas o perfil mutacional e dados preliminares “indicam que a eficiência da vacina pode ser reduzida contra a doença sintomática, enquanto a proteção contra a doença severa é mais provável de ser mantida”.

O grupo também recomenda o desenvolvimento de novas vacinas com “elevado impacto na prevenção de infecções e da transmissão” como forma de reduzir a circulação do novo coronavírus. Nesse meio tempo, na visão desses especialistas, a composição dos imunizantes atuais deveria ser atualizada para garantir que eles continuem funcionando contra as novas cepas do vírus, incluindo a Ômicron e variantes futuras.

O boato checado distorce as informações do comunicado. Não é verdade, por exemplo, que a OMS tenha “atestado a ineficácia substancial do soro contra as mutações atuais” — o grupo de especialistas deixa claro que os medicamentos previnem hospitalizações e mortes, mesmo com o surgimento de novas variantes. A OMS também não afirmou, em nenhum momento, que doses adicionais das vacinas poderiam “danificar” o sistema imunológico.

Infectologista explica preocupação da OMS

A infectologista Márcia Hueb, que atua no Hospital Universitário Júlio Müller, em Cuiabá, Mato Grosso, explica que a grande preocupação da OMS, neste momento, diz respeito à necessidade de alcançar a maior cobertura vacinal possível em todo o mundo com a primeira dose do imunizante contra a covid-19. Para tanto, ela cita que há países que não têm sequer 1% de sua população vacinada.

Em uma busca no portal Our World In Data – organização sem fins lucrativos formada por pesquisadores da Universidade de Oxford e que reúne dados do coronavírus em todo o mundo – é possível encontrar discrepâncias na vacinação que reforçam os apontamentos feitos pela infectologista.

Situações mais críticas são observadas no continente africano. Os percentuais de imunização são extremamente baixos em países como República Democrática do Congo (0,16% de vacinação em primeira dose, com última atualização em 13 de janeiro); Chade (1,13%, sendo a última atualização em 12 de janeiro) e Sudão do Sul (0,4%, com última atualização em 9 de janeiro).

“O que temos que deixar claro é que a Organização Mundial de Saúde vem alertando para o risco de ficarmos muito apegados a fazer a terceira, quarta dose de imunização, enquanto deveríamos estar mais preocupados em vacinar o mundo todo. A OMS alerta neste sentido e não porque há algum risco de se fazer terceira ou quarta dose da vacina”, salienta a profissional.

O que diz a EMA

O texto menciona uma declaração de um dos diretores da Agência Europeia de Medicamentos (EMA), Marco Cavaleri, chefe de Ameaças Biológicas à Saúde e Estratégia de Vacinas, durante uma conferência com jornalistas, em 11 de janeiro. Além da agência de notícias italiana Ansa, outros veículos como Reuters Bloomberg abordaram o conteúdo, disponibilizado no canal da entidade no YouTube.

Em diferentes momentos da entrevista, Cavaleri comenta sobre a aplicação de doses de reforço da vacina contra a covid-19 no contexto do surgimento da variante Ômicron. Ele defende a distribuição de uma terceira dose em países da União Europeia, mas alerta que não há dados suficientes para recomendar uma quarta aplicação e relata preocupações com a estratégia de reforços contínuos em curtos intervalos de tempo.

Médica se prepara para administrar uma dose da vacina da Pfizer para crianças de 5 a 11 anos, em Israel. Foto: Corinna Kern/REUTERS – 22/11/2021

Cavaleri afirma, por exemplo, que dados iniciais obtidos no Reino Unido apontam que o risco de internação por covid-19 é reduzido em cerca de 90% com a terceira dose da vacina, mesmo em um cenário de prevalência da Ômicron. “Está se tornando cada vez mais claro que doses de reforço são necessárias para estender a proteção e a eficácia das vacinas, pois elas decaem com o tempo”, disse.

“Ao mesmo tempo, existe uma discussão emergente sobre a possibilidade de aplicar uma segunda dose de reforço com as mesmas vacinas atualmente em uso”, prossegue o porta-voz da EMA. “Dados ainda não foram gerados para embasar essa abordagem. Ainda que o uso de doses adicionais de reforço possa ser considerado como parte de um plano de contingência, repetidas vacinações com pequenos intervalos não representam uma estratégia viável a longo prazo.”

Durante a entrevista, Cavaleri é questionado novamente sobre o assunto e responde que a aplicação de doses de reforço continuamente, a cada quatro meses, poderia fazer com que a resposta imune “não fosse tão boa quanto gostaríamos” e que é preciso ser cuidadoso para não “sobrecarregar” o sistema imunológico e “fatigar” a população com essas sucessivas campanhas.

“Se a situação epidemiológica tornar essa a melhor opção disponível, então isso pode ser feito uma vez ou duas, mas não é algo que achamos que deva ser feito constantemente. Seria muito melhor começar a pensar em administrar essas doses espaçadamente e, se queremos passar para um cenário epidêmico, a dose de reforço deveria ser sincronizada com a chegada do inverno, como acontece para as vacinas contra a gripe.”

Hipótese de ‘sobrecarga’ carece de evidências

De acordo com o imunologista Rafael Larocca, que já atuou no Centro de Virologia e Pesquisa em Vacinas da Escola de Medicina de Harvard, a declaração provavelmente se refere a um mecanismo conhecido como exaustão do sistema imunológico — algo que nunca foi visto com nenhuma vacina contra a covid-19, seja pela vacinação primária ou pelas doses de reforço.

Estudos científicos demonstram, na realidade, que a terceira dose — a campanha que está em curso hoje no Brasil, exceto imunossuprimidos que podem receber a quarta dose a partir desta semana — aumenta os níveis de anticorpos neutralizantes, o que pode estar relacionado com uma proteção mais robusta contra a doença. Dados também apontam que as pessoas que receberam as doses adicionais estão mais protegidas contra casos graves e mortes por covid-19.

A discussão só faria algum sentido, portanto, para uma eventual quarta dose da vacina em diante, como no caso de Israel, que autorizou uma segunda dose de reforço do imunizante da Pfizer/BioNTech para grupos de risco, como pessoas acima de 60 anos e profissionais da saúde, em uma tentativa do país de conter a disseminação da variante Ômicron.

Em Israel, a imunização contra a covid-19 está bastante adiantada — 47% da população já está vacinada com três doses, em uma campanha que teve início ainda em julho do ano passado. A população com esquema vacinal completo (com duas doses) está estimada em 64%. O país também foi um dos que vacinaram a população de forma mais acelerada, o que faz com que as doses iniciais tenham sido administradas há mais tempo. O cenário é diferente no Brasil, que demorou a engrenar na vacinação e hoje conta com 68,6% da população com esquema vacinal completo, sendo 16,6% com o reforço, no dia 17 de janeiro.

A discussão, no caso da quarta dose, passa pela ausência de dados suficientes comprovando que a campanha traria benefícios reais para além do primeiro reforço. O fato de que cerca de 40% da população mundial ainda não foi vacinada nem com a primeira dose, segundo o Our World In Data, também resulta em críticas sobre essa estratégia.

Em 17 de janeiro, pesquisadores israelenses disseram que um estudo de aplicação de quarta dose em profissionais de saúde em dezembro demonstrou aumento dos anticorpos para um nível um pouco acima da terceira dose, mas não foi suficiente para prevenir mais infecções. Os dados, que envolvem 274 pessoas, são preliminares e ainda não foram revisados ou publicados em uma revista científica.

Larocca conta que essa exaustão, com a perda de funcionalidade de células CD4 e CD8, que participam do processo de defesa do organismo, começou a ser observada para algumas infecções virais em estudos com animais. Nessas pesquisas de laboratório, os modelos são expostos constantemente ao antígeno em questão e não conseguem se livrar totalmente dele, o que acaba gerando o problema.

Em agosto do ano passado, dois cientistas da Coreia do Sul publicaram uma revisão de artigos na revista Cellular & Molecular Immunology em que discutem se esse mecanismo da exaustão celular poderia estar relacionado com a evolução grave da covid-19 em alguns pacientes. Em outro estudo, pesquisadores da Fiocruz e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) notaram marcadores do mesmo fenômeno no soro de pacientes infectados pelo novo coronavírus.

Ou seja, com relação à doença em si, existem indícios de que o problema poderia estar relacionado com a evolução para quadros graves ou mesmo a covid-19 longa. Essa situação, por outro lado, nunca foi vista em estudos sobre nenhuma vacina contra a covid-19 — e Larocca acredita que a chance seja remota com base no fato de que as doses vêm sendo aplicadas em um intervalo de vários meses. “Você teria que ficar estimulando o sistema imunológico muito repetidamente, com uma dose por semana”, salienta.

No caso da terceira dose, evidências mostram que há um aumento no nível de anticorpos após a vacinação, um sinal claro de que o sistema imunológico se beneficiou da injeção. Já sobre a quarta dose, Larocca afirma que a aplicação neste momento “pode até não ter um ganho” comparada a uma estratégia de saúde que estabeleça um maior espaçamento entre as doses, mas que não vê como isso poderia realmente levar a algum prejuízo para a resposta imune.

Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), ressaltou ao Comprova que esse tipo de fenômeno deve ser monitorado junto a outros dados de segurança, mas que, até o momento, as doses de reforço tiveram resultados positivos. “Não há nenhuma evidência nem de aumento de riscos colaterais, nem de redução da proteção. Pelo contrário, as doses de reforço estimulam de forma muito potente o sistema imunológico.”

Ministério da Saúde autorizou terceira dose para população em geral e quarta dose para imunossuprimidos. Foto: Leo Souza/Estadão

Quem é a autora do post?

A autora do texto aqui checado, Karina Michelin, apresenta-se no LinkedIn como produtora e apresentadora de um programa de TV na Flórida, voltado para brasileiros interessados em compras e baladas em Miami. Ela já apareceu em outras cinco verificações do Projeto Comprova espalhando desinformação sobre a pandemia.

Em uma delas, insinuou que testes de covid-19 estariam sendo manipulados e a pandemia era uma farsa. Em outra, mentiu ao dizer que pesquisadores da OMS não têm citações acadêmicas. A terceira investia em uma tese falsa de que as vacinas poderiam causar alterações genéticas. Na quarta, a falsidade era a de que bebês órfãos da Polônia foram usados em experimentos ilegais. Na quinta, inventou que o número de infartos teria crescido em Israel.

Karina Michelin foi procurada pelo Comprova, por email e pelo formulário de contato disponível em seu site, mas não respondeu a nossas tentativas de contato até a publicação desta verificação.

Por que investigamos?

O Comprova investiga conteúdos suspeitos que tenham viralizado sobre pandemia, políticas públicas e eleições. O texto inicialmente publicado no site de Karina Michelin teve mais de 1,4 mil interações, além de ter sido republicado em outros portais. O conteúdo também foi reproduzido no Instagram, tendo mais de 2,9 mil curtidas.

Informações enganosas sobre a vacinação da covid-19 prejudicam a continuidade da campanha de imunização contra o vírus. A eficácia e segurança das vacinas é comprovada por órgãos de saúde nacionais e internacionais.

O conteúdo analisado pelo Comprova foi também objeto de verificação do Boatos.org. De igual modo, o portal atestou não ser verdade que a OMS disse que doses extras de vacinas prejudicam o sistema imunológico.

As vacinas são um dos principais alvos de desinformação hoje nas redes sociais. Em verificações recentes sobre o assunto, o Comprova mostrou que vacinas não injetam “DNA alienígena” e que um vídeo de um protesto nos Estados Unidos atribuiu enganosamente mortes aos imunizantes contra a covid-19.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

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