Para desencorajar vacinação contra a covid-19, texto viral defende ‘reforço natural’ da imunidade com informações enganosas

Para desencorajar vacinação contra a covid-19, texto viral defende ‘reforço natural’ da imunidade com informações enganosas

Especialistas apontam que alimentação saudável e atividade física contribuem para a saúde, mas não substituem vacina e outros cuidados na pandemia; lista ainda traz recomendações genéricas e sem base científica

Samuel Lima

14 de fevereiro de 2022 | 17h04

Grupos negacionistas estão espalhando uma lista no WhatsApp e no Facebook com supostas orientações para crianças e adultos “reforçarem naturalmente o sistema imunológico” dentro de poucos dias e semanas. Parte dos assuntos abordados realmente pode ser útil para a saúde em geral, como uma alimentação balanceada e a prática de atividade física, enquanto outros carecem de evidências científicas — a exemplo de banhos de água fria, consumo de extratos de plantas e jejum.

A ideia da mensagem é desencorajar a vacinação contra a covid-19 e as medidas de prevenção como uso de máscaras, álcool em gel e distanciamento social, que ajudam a reduzir o risco de contágio pelo novo coronavírus. As pessoas que receberam as doses da vacina, por exemplo, são chamadas enganosamente de “cobaias” na peça de desinformação. Especialistas consultados pelo Estadão alertam que nenhum “reforço natural” deve substituir a imunização, que é a melhor forma de montar defesas contra o vírus.

As vacinas tiveram a eficácia e a segurança comprovadas em uma série de estudos rigorosos, com milhares de voluntários. Os dados depois foram referendados por autoridades de saúde nacionais e internacionais e publicados em revistas médicas. Esse termo, assim como o argumento de que as vacinas seriam “experimentais” ou “picadas”, faz parte de um vocabulário próprio de grupos antivacina para confundir a população.

A campanha de imunização ainda passa por um monitoramento constante de eventos adversos, sendo que mais de 90% das notificações relacionadas aos imunizantes são de caráter leve a moderado, como dor no braço e sintomas semelhantes a uma gripe, segundo dados do Ministério da Saúde encaminhados ao projeto Comprova. O risco de óbito por covid-19 é cerca de 56 vezes maior do que a chance de ter um evento adverso grave pós-vacinação, conforme levantamento do governo federal feito entre janeiro e outubro do ano passado.

O fato de as vacinas terem sido desenvolvidas em “tempo recorde”, da mesma forma, não deve ser motivo de desconfiança. Como mostrou o Estadão Verifica anteriormente, o processo seguiu as mesmas regras exigidas para outros medicamentos. A agilidade na disponibilização das vacinas contra a covid-19 se deve ao conhecimento prévio que se tinha a respeito de outros coronavírus, ao aproveitamento de pesquisas de tecnologia em imunizantes, ao ambiente acelerado de testes e aos investimentos pesados de empresas e governos, entre outros fatores.

‘Reforço natural’ não deve substituir vacina

Em relação à lista apresentada na corrente de WhatsApp, parte das recomendações realmente faz sentido, enquanto outras carecem de embasamento científico. De qualquer forma, especialistas deixam claro que nenhum “reforço natural” deve substituir a vacinação e outras medidas de prevenção simplesmente porque é arriscado confiar apenas no seu histórico de saúde para se proteger contra a covid-19.

“Nenhum cientista vai dizer para você não reforçar naturalmente as defesas, mas apenas isso não é suficiente”, declarou a imunologista e professora da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) Cristina Bonorino. “É claro que cuidar da massa corporal, das vitaminas, alimentar-se e dormir bem é importante. Só que o patógeno é especializado em infectar o hospedeiro, em tentar driblar a defesa, por mais que seja uma pessoa saudável.”

Há casos graves documentados até mesmo entre atletas. Pessoas que seguem essa cartilha, portanto, não estão totalmente livres de contrair a doença ou de ter complicações e sequelas. Dessa forma, Bonorino reforça que não faz sentido esperar por uma contaminação pelo vírus, pois seria o mesmo que “brincar com a sorte”. 

Guilherme Werneck, professor do Instituto de Estudos em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), lembra que as vacinas oferecem uma proteção específica contra o vírus, o que não é possível de se adquirir com nenhum dos outros itens mencionados na lista. “Ter uma alimentação saudável e fazer atividade física faz bem para a saúde, mas não gera uma imunidade específica. A vacina é a melhor oportunidade para montar essas defesas.” 

Analisando a lista

O Estadão Verifica pediu um parecer dos especialistas a respeito da lista que circula nas redes sociais. Parte dos itens conta com o apoio da comunidade médica, como a adoção de uma dieta saudável, rica em frutas e legumes e com menos alimentos industrializados, e a prática regular de exercícios físicos. Ambos contribuem para evitar fatores de risco para a covid-19, como obesidade, hipertensão e diabetes.

Outros trechos do conteúdo, por outro lado, carecem de evidências científicas e não fazem parte das orientações gerais de entidades como a Organização Mundial da Saúde (OMS). A mensagem defende, por exemplo, a adoção de jejum intermitente, banhos de água fria, consumo de extratos de plantas como equinácea e astrágalo e de “óleos essenciais antivirais”, além de sugerir uma suplementação de vitaminas e minerais.

Alguns estudos apontam que o jejum intermitente — em que a pessoa alterna períodos de alimentação regular com outros sem consumir nada — pode trazer benefícios, mas essa estratégia não é consenso. Médicos alertam que a prática pode trazer riscos para a saúde em alguns casos, principalmente quando feita sem orientação profissional. O prazo de “três dias” para fortalecer o sistema imunológico não é realista.

Sobre o banho de água fria, a história parece derivar de um estudo de 1995, encontrado pela AFP Checamos, que verificou um conteúdo semelhante. A pesquisa sugere uma tendência de aumento dos linfócitos T, uma célula do sistema imunológico, em indivíduos que se submeteram a imersões em água gelada durante seis semanas. Porém esse estudo é limitado e não prova que a técnica funcionaria em relação à covid-19 ou outras doenças. 

O post defende ainda, sem maiores detalhes, o consumo das plantas equinácia, astrágalo, sabugueiro, rosa canina e artemísia “em suas formas concentradas e corretas”, além de “óleos essenciais antivirais”. O problema é que, novamente, faltam estudos atestando que a prática funciona para prevenir alguma enfermidade.

Guilherme Werneck, da UFRJ, lembra que muitos produtos naturais apresentam atividade antiviral em estudos iniciais de laboratório e que existe uma área da medicina que constantemente investiga os compostos para prospectar novos medicamentos. Mas, por outro lado, há uma distância considerável até a descoberta de um remédio.

“Esses extratos vegetais contam com milhares de moléculas. Para saber exatamente como pode ajudar, precisa fazer estudo químico, quebrar o extrato e estudar cada molécula separadamente”, acrescenta Cristina Bonorino, da UFCSPA. Em janeiro, o Estadão Verifica checou uma mensagem que também confundia o medicamento Tamiflu com a fonte do princípio ativo, ignorando todos os processos envolvidos.

A corrente de WhatsApp também engana ao defender uma dosagem alta das vitaminas C e D e de zinco, selênio e magnésio, incentivando a compra de suplementos pela população. Os dois especialistas consultados pelo Estadão Verifica alertam que esse tipo de recomendação não pode ser feita de modo genérico e exige acompanhamento médico.

“Existem níveis de referência (para essas substâncias), que é o nível normal esperado em uma pessoa saudável. O certo é ter esses nutrientes na quantidade correta, nem de mais e nem de menos. Esse monitoramento deve ser feito com o médico de família, para depois repor com a alimentação ou com o uso de um suplemento”, orienta Bonorino.

“É perigoso falar genericamente”, adverte Werneck. “Alguns componentes, quando em excesso, acumulam no corpo e outros são expelidos. Essas recomendações precisam ser muito bem pensadas, levando em conta a realidade de cada pessoa e investigando até que ponto ela precisa.” O médico destaca ainda que há risco de efeitos colaterais a serem avaliados.

Por fim, a mensagem fala sobre cuidados com a saúde mental. Essa é uma preocupação expressa pela OMS ainda em março de 2020, por conta da possibilidade de aumento na incidência de doenças como ansiedade e depressão, que podem ser agravadas com o isolamento e com o próprio cenário epidemiológico entre profissionais de saúde e a população em geral. Assim como nos casos anteriores, esse tipo de cuidado não torna dispensável a vacinação e outras medidas de prevenção.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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