É falso que médicos tenham recomendado fígado de boi e chá de erva-doce contra a gripe

É falso que médicos tenham recomendado fígado de boi e chá de erva-doce contra a gripe

Corrente no WhatsApp voltou a circular nas redes após surtos de H3N2 e casos de ‘flurona’ pelo País

Samuel Lima

06 de janeiro de 2022 | 19h34

Uma mensagem falsa nas redes sociais alega que um diretor do Hospital de Clínicas e um infectologista do Hospital São Domingos, nenhum deles identificado, teriam feito uma série de recomendações para prevenir e tratar uma “nova gripe” — incluindo a ingestão de vitamina C, fígado de boi e chá de erva-doce, supostamente equivalente ao medicamento Tamiflu

O conteúdo, porém, não passa de um boato antigo na internet, que ganhou alcance novamente com os surtos recentes de gripe causada pelo vírus influenza H3N2 e as infecções simultâneas do novo coronavírus, casos que ficaram conhecidos popularmente como “flurona”. O Estadão Verifica recebeu a corrente de WhatsApp de vários leitores nos últimos dias pelo número (11) 99263-7900.

Segundo o boato, um suposto dirigente do HC é quem teria recomendado vitamina C, fígado de boi e chá de erva-doce para a população. Procurado pelo blog por e-mail, o Hospital de Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP) negou que um diretor do hospital seja o responsável pela lista. A instituição classificou o texto como “fake news”. 

Já o Hospital São Domingos, de São Luís (MA), aponta em uma nota publicada em seu site que “não há nenhuma comprovação científica quanto ao uso do chá de erva-doce como medicamento contra o vírus H1N1 ou com o mesmo efeito do Tamiflu”. No caso do hospital maranhense, a mensagem falseia que um infectologista teria declarado que o chá de erva-doce “mata o vírus influenza”, mas a instituição afirma que “nenhum infectologista da sua equipe recomenda seu uso”.

No ano passado, o Ministério da Saúde também decidiu esclarecer o assunto nas redes, quando o suposto relato médico passou a ser associado à covid-19. “Nenhum tipo de chá pode ser utilizado para substituir um tratamento adequado contra a gripe, muito menos contra o novo coronavírus. As orientações que o chá de erva-doce tem a mesma substância do medicamento Tamiflu (fosfato de oseltamivir) também é falsa!”, escreveu no Facebook.

Outra entidade a desmentir a informação de que a erva-doce teria a “mesma substância” do Tamiflu e serviria como tratamento de H1N1 foi o Conselho Regional de Farmácia (CRF-SP). “A erva-doce não tem qualquer relação com o Tamiflu e não pode ser utilizada no tratamento da gripe A”, informou a entidade, em janeiro de 2020.

Algumas das orientações da mensagem realmente podem ser úteis para prevenir a transmissão da gripe. É o caso do uso frequente de álcool em gel e da higienização das mãos ao longo do dia. Tanto o álcool em gel quanto o sabão dissolvem uma camada de gordura comum a diversos tipos de vírus, entre eles o influenza, eliminando aquele agente e impedindo que ele contamine o organismo em um eventual contato com olhos, nariz e boca. Evitar multidões, da mesma forma, pode reduzir a chance de encontrar uma pessoa infectada em meio a surtos.

As demais dicas da lista, no entanto, carecem de evidências científicas. Não há comprovação de que uma maior ingestão de vitamina C realmente proteja o indivíduo contra gripes e resfriados, por exemplo, ainda que a hipótese venha sendo levantada há décadas. O Estadão Verifica também não encontrou informações sólidas de que o consumo regular de fígado de boi, suco de acerola e laranja ou chá de erva-doce possa atuar nesse sentido.

Ao final da mensagem, o boato investe em uma narrativa fantasiosa de que a erva-doce teria a “mesma substância do medicamento Tamiflu, o remédio usado para tratar gripe A – H1N1” e que, assim, o chá “mata o vírus da influenza”. Basta acessar a bula do medicamento disponível no site da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para constatar que não existe erva-doce na fórmula do Tamiflu, nome comercial do fosfato de oseltamivir, desenvolvido pela farmacêutica Roche para combater os vírus influenza A e B.

Documento

A história de que o chá de erva-doce teria o mesmo efeito do Tamiflu provavelmente deriva do fato de que o Pimpinella anisum também é conhecido pelo nome de anis. O anis-estrelado (Illicium verum), uma outra espécie vegetal cultivada principalmente na China, é a fonte do ácido chiquímico, a molécula precursora usada para produzir o medicamento. Só que, para obter o princípio ativo do remédio, o oseltamivir, não basta fazer uma infusão da planta com água quente — o processo é muito mais complexo.

Essa e outras versões do boato já haviam sido desmentidas anteriormente pelas agências de checagem Fato ou Fake, Aos Fatos, Lupa, Boatos.org e e-Farsas, entre outros veículos de imprensa.

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