Post viral inventa que não existe imunizante contra gripe e ignora evidências científicas ao questionar vacinas contra a covid-19

Post viral inventa que não existe imunizante contra gripe e ignora evidências científicas ao questionar vacinas contra a covid-19

Especialistas destacam que o fato de não existirem vacinas aprovadas contra câncer, Aids e outras doenças não invalida os resultados obtidos na prevenção ao novo coronavírus

Samuel Lima e Laila Nery, especial para o Estadão

29 de outubro de 2021 | 18h54

Um post viral acumulou mais de 73 mil compartilhamentos no Facebook ao fazer uma comparação infundada entre o desenvolvimento das vacinas contra a covid-19 e pesquisas sobre influenza, câncer e Aids. A peça inventa que não existe vacina contra a gripe, o que não é verdade. Também não considera que há vacinas que impedem de forma indireta o desenvolvimento de tumores, como a contra o HPV, que previne o câncer de colo de útero.

Especialistas ouvidos pelo Estadão explicam que o fato de não existir imunizantes para a Aids não desqualifica os avanços científicos que resultaram na aprovação de vacinas contra o novo coronavírus em tempo recorde.

Todas as vacinas contra a covid-19 aprovadas no Brasil passaram por uma série de estudos rigorosos, primeiro em laboratório e depois em humanos, com ensaios clínicos divididos em três fases e milhares de voluntários. Antes de serem distribuídos para a população, passaram ainda pela análise da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e por órgãos sanitários de vários outros países, que referendaram os dados dos laboratórios e confirmaram que os produtos são eficazes e seguros. No Brasil, o processo seguiu as mesmas regras exigidas para qualquer outro medicamento.

Sobre o vírus influenza, este foi detectado na década de 1930 — e a primeira vacina contra a gripe foi aprovada nos Estados Unidos em 1945. Desde 1999, o Brasil executa campanhas anuais de vacinação contra a gripe, com 100% da produção sendo feita hoje pelo Instituto Butantan.

Dados falsos e comparação enganosa

O post aqui checado, ignorando as diferenças entre as doenças e usando uma série de dados infundados, traz a seguinte legenda: “Após 40 anos de pesquisa, não há vacina contra Aids. Após 76 anos de pesquisa, não há vacina contra influenza. Após 100 anos de pesquisa, não há vacina contra o câncer. Mas depois de apenas 6 meses existe uma vacina contra um vírus que apareceu de repente e aqueles que questionam esta vacina são conspiradores sem cérebro”.

O Estadão Verifica conversou com três especialistas, e eles foram unânimes em apontar que a tese não faz sentido. Existem diferenças fundamentais entre essas pesquisas, e o fato de não se ter ainda uma vacina contra o câncer e a Aids não desqualifica os avanços obtidos no combate à covid-19. 

Vacinação contra a covid na Malásia. Foto: EFE/EPA/AHMAD YUSNI

As vacinas para combater a Aids estão sendo desenvolvidas desde a década de 1980, quando os primeiros casos foram detectados. Mas, segundo o infectologista Robson Reis, professor da Faculdade Bahiana de Medicina, a estrutura do vírus HIV possui um grau de complexidade muito superior em comparação ao influenza ou aos coronavírus, o que dificulta a produção da vacina. 

“Esse vírus (HIV), ao infectar a célula humana, incorpora o material genético dele ao da célula e isso faz com que as vacinas tenham mais dificuldades de agir. Até mesmo para os medicamentos, que são muito eficazes. Por isso, eles são constantemente atualizados”, explica Reis.

Outra diferença está relacionada com a alta capacidade de mutação do HIV. “Não é incomum que, num momento, o paciente responda bem a um tipo de tratamento e, posteriormente, passe a não responder, por conta de uma mutação no vírus”, relata. 

Reis explica ainda que o Sars-CoV-2, que causa a covid-19, não tem uma estrutura tão complexa quanto o HIV e apresenta o mesmo mecanismo de ação em todas as suas variantes. “O HIV tem variações completamente diferentes umas das outras, trazendo um impacto muito significativo para a defesa do sistema imunológico”, afirma.

Existem três vacinas sendo produzidas para o combate ao HIV na chamada fase 3 de testagem, a etapa final de estudos clínicos antes da aprovação — uma delas, inclusive, no Brasil, pelo estudo Mosaico. Desenvolvido pela Janssen, empresa farmacêutica da Johnson & Johnson, o imunizante em potencial utiliza cópias sintéticas de partes do vírus HIV para estimular o sistema imune.

Da mesma forma, o médico João Paulo Viola, chefe da Divisão de Pesquisa Experimental e Translacional do Instituto Nacional do Câncer (Inca), entende que a comparação entre a covid-19 e o câncer é inadequada. “Quando se fala em uma vacina contra um agente infeccioso, que pode ser um vírus, uma bactéria, isso é completamente diferente de estar discutindo uma vacina anticâncer”, diz.

“O conceito de vacina contra doenças infecciosas é o de uma vacina preventiva, criada para induzir uma resposta imune duradoura que previna a infecção”, explica Viola. “O câncer é uma doença associada a alterações genéticas do nosso organismo, desenvolvido por várias questões ambientais, alimentares e outras.” 

O especialista destaca ainda que as chamadas “vacinas contra o câncer” são um termo usado para se referir a terapias experimentais que se baseiam em conceitos da imunologia, mas atuam de forma curativa, ou seja, para tratar o paciente que já tem aquela enfermidade — algo bem diferente dos imunizantes contra a covid-19, que treinam o organismo para prevenir a entrada e a replicação do Sars-Cov-2 no caso de uma contaminação futura.

Pode-se falar em vacinas “clássicas” para o câncer, mas, neste caso, a forma de atuação é indireta. “Alguns tumores estão associados a infecções, principalmente por vírus. O caso mais clássico é o de colo de útero, desencadeado pelo papilomavírus humano, o HPV. Desenvolvendo a vacina contra o HPV (que já existe atualmente e está disponível na rede pública), previne-se o câncer de colo de útero.” 

Viola destaca ainda o fato de que existem mais de 100 tipos de câncer e que não vê nenhuma possibilidade hoje de se criar um tratamento único que dê conta de todas as formas da doença ao mesmo tempo. O mesmo entendimento é compartilhado pelo médico imunologista e professor do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) José Alexandre Barbuto

“Câncer é o nome que se dá a um conjunto muito grande de doenças que têm algumas características comuns. Mas se falarmos de tipos específicos de câncer, há vacinas, sim, que também fazem parte de nosso cotidiano: a vacina contra o HPV e a vacina contra a hepatite, são, também, vacinas contra o câncer”, ressalta o professor.

Barbuto diz que o post parte de dados equivocados e chega a uma conclusão absurda. “A informação mais obviamente mentirosa é de que não há vacina contra a influenza”, destaca. “Ela é oferecida todos os anos”. A informação está disponível na página oficial do Ministério da Saúde. “A vacina é segura e é considerada uma das medidas mais eficazes para evitar casos graves e óbitos por gripe”, informa o site.

“A vacina pela gripe influenza já existe há bastante tempo e é responsável por evitar milhares de hospitalizações e mortes em todo o mundo. Principalmente durante o inverno e em países com clima frio”, explica o infectologista Robson Reis.

O fornecimento das doses para a campanha anual de imunização contra a gripe é realizado pelo Instituto Butantan, vinculado ao governo do Estado de São Paulo. Procurado pelo Estadão, a instituição de pesquisa encaminhou uma nota com informações sobre o histórico do Programa Nacional de Imunização (PNI). 

O Butantan destaca que o imunizante é oferecido todos os anos ao Sistema Único de Saúde (SUS), entre os meses de março e abril. O imunizante é produzido em cerca de seis meses, a partir da composição definida pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que leva em conta a circulação das cepas do vírus influenza nos hemisférios Norte e Sul naquela temporada.

Os períodos de baixa temperatura, com mudanças bruscas climáticas e o ar seco propiciam ao vírus da influenza um ambiente propício para a multiplicação. O vírus da influenza também tende a se adaptar bem às baixas temperaturas, se tornando mais resistente, o que o torna infeccioso por mais tempo.

Números do post não batem

Em relação aos números citados, o único que faz sentido é o que trata sobre o tempo de desenvolvimento das pesquisas sobre vacinas contra o vírus HIV, que causa a Aids. Esse histórico remonta a cerca de 40 anos, segundo reportagem do UOL.

A primeira vacina contra a covid-19 aprovada no mundo foi desenvolvida em cerca de 11 meses, e não em seis. Foi a Comirnaty, da Pfizer/BioNTech, autorizada pelo governo do Reino Unido em 2 de dezembro de 2020. De acordo com a fabricante, os trabalhos começaram em 10 de janeiro, quando a sequência genética do Sars-Cov-2 foi divulgada pelo Centro de Controle de Doenças da China em uma plataforma de dados global conhecida como GISAID.

Frascos da vacina Pfizer/BioNTech contra covid. Foto: Pfizer/Handout via REUTERS/File Photo

Ao contrário do que alega o post, as vacinas contra o vírus influenza, que causa a gripe, existem e são ministradas todos os anos nas redes pública e privada do Brasil. A campanha de imunização ocorre antes de cada inverno, com a composição atualizada todos os anos para proteger contra as cepas de maior circulação e risco. 

Segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, o vírus influenza foi detectado pela primeira vez na década de 1930. A descoberta foi um marco para que a primeira vacina contra a gripe fosse desenvolvida na década de 1940, nos Estados Unidos, pelo cientista Thomas Francis, Jr., utilizando ovos de galinha fertilizados, método ainda utilizado no desenvolvimento de vacinas.

Também não é correto dizer que a pesquisa por uma vacina contra o câncer dura um século e não teve sucesso. Esse termo pode significar diferentes coisas: tanto um imunizante que previna o câncer de forma indireta, atuando contra agentes infecciosos como o HPV e o vírus da hepatite B — algo que já existe; quanto medicamentos que estimulem o sistema imunológico a combater os tumores.

O segundo caso se refere a experimentos de imunoterapia, conceito este trabalhado pela ciência desde o final do século 19. O primeiro estudo clínico de uma vacina como tratamento de câncer foi publicado em 1959, segundo revisão da revista científica Frontiers in Immunology

O que explica as vacinas contra a covid-19 em tempo recorde

A rapidez com que as vacinas contra a covid-19 foram desenvolvidas costuma ser um dos argumentos de grupos antivacina para negar as evidências de que os produtos funcionam e de modo seguro para a população. Esse discurso, no entanto, omite informações relevantes.

Em dezembro de 2020, um boato frequente nas redes era de que seria preciso no mínimo 10 anos de pesquisa para se criar uma vacina. O projeto Comprova mostrou que essa alegação era falsa porque o tempo não é um dos fatores considerados nos protocolos de aprovação das vacinas pela Anvisa. 

Para que um medicamento seja registrado na Anvisa, o laboratório precisa provar que o produto funciona contra a doença e oferece segurança para distribuição em larga escala. Todas as vacinas contra a covid-19 aprovadas no Brasil — Pfizer, Oxford/Astrazeneca, Coronavac e Janssen — passaram por esses estudos e tiveram os dados referendados pelo órgão sanitário.

Eles também foram publicados em revistas médicas renomadas, como a The New England Journal of Medicine e a The Lancet. Os resultados de fase 3 estão disponíveis publicamente para as vacinas de Oxford/Astrazeneca, Pfizer/BioNTech e Janssen. A exceção é a última etapa de testes da Coronavac no Brasil, que ainda aguarda publicação (os dados brutos já foram analisados pela Anvisa, como citado anteriormente).

De fato, os imunizantes contra a covid-19 foram desenvolvidos em tempo recorde. Antes da pandemia, o imunizante produzido mais rapidamente havia sido o da caxumba, que levou quatro anos para ser criado e aprovado, de acordo com uma reportagem da revista Superinteressante. Outro levantamento, realizado por cientistas da Universidade de Oxford e divulgado pela rede britânica BBC, mostra como o avanço científico permitiu reduzir o tempo de espera até a produção de vacinas contra as principais doenças do planeta.

Como aponta a reportagem da Super, a velocidade com que as vacinas foram produzidas não deve ser razão para desconfiança. “Há um motivo claro para isso: as vacinas da covid-19 seguiram os mesmos passos que as outras vacinas e medicamentos que já estão no mercado há muito tempo”, destaca o texto. “Nenhuma etapa foi pulada ou excluída para agilizar as coisas.”

O rápido desenvolvimento das vacinas no contexto da pandemia se explica por uma série de fatores — entre eles, o conhecimento prévio que se tinha a respeito de outros coronavírus e o ambiente acelerado dos testes, que tiveram investimentos pesados de empresas e governos. Dois exemplos nesse sentido foram a operação “Warp Speed”, do governo dos Estados Unidos, e o consórcio internacional Covax Facility, coordenado pela OMS.

Menino recebe vacina conta covid-19 em Michigan, nos EUA. Foto: JEFF KOWALSKY / AFP

Entre os fatores que permitiram avançar rapidamente por uma vacina está o fato de que várias tecnologias utilizadas agora foram aproveitadas de outras pesquisas — relacionadas, por exemplo, aos coronavírus da Sars e da Mers. Essas doenças não chegaram a ter vacinas finalizadas, entre outros motivos, porque os produtos se tornaram de baixa prioridade quando as epidemias passaram a estar sob controle, esclarece um artigo da Nature

Porém, essas pesquisas ofereceram dicas valiosas de como lidar com o novo coronavírus, a exemplo do alvo prioritário para a produção das vacinas. Esse tipo de vírus tem em comum uma proteína da superfície conhecida como spike, responsável diretamente pela entrada do material genético nas células. Impedir a atuação dessa proteína, por meio de anticorpos neutralizantes, poderia interromper a infecção — e com essa ideia foram criadas as vacinas da Pfizer/BioNTech, de Oxford/Astrazeneca e da Janssen, entre outras.

Outro tipo de pesquisa que caminhava lentamente antes da pandemia era a das vacinas de RNA mensageiro, ou mRNA, plataforma das vacinas da Pfizer e da Moderna contra a covid-19. Esse tipo de tecnologia era estudada há décadas, mas recebeu investimentos fora do ambiente acadêmico apenas a partir de 2010. Durante a pandemia, com um aporte significativo de recursos pelos laboratórios, o imunizante se tornou uma realidade. 

Outros modelos, como o de vírus inativado, na qual se baseia a Coronavac, já estão consagrados e são usados há mais de 70 anos em larga escala pela medicina. Elas já se fazem presentes rotineiramente na rede pública de saúde, com vacinas contra poliomielite (no caso da versão injetável), hepatite A, gripe (influenza) e raiva.

Além dos investimentos e das tecnologias do século 21, outro fator que ajudou a acelerar o desenvolvimento das vacinas foi a facilidade em obter voluntários e realizar os estudos clínicos. Diante de uma elevada circulação do vírus, não foi difícil encontrar participantes, inclusive profissionais da área da saúde na linha de frente da pandemia, e chegar a um número razoável de contaminações para avaliar o desempenho dos produtos.

Alguns laboratórios também optaram por avançar rapidamente entre as diferentes etapas de estudos clínicos, assim que tinham constatado um nível adequado de segurança. Normalmente, os ensaios são divididos em três etapas distintas, em que mais voluntários são recrutados e alguns grupos de risco passam a ser incluídos. Em meio ao cenário de emergência, não raro foram apurados dados para as fases 1 e 2 de forma praticamente simultânea.

Os próprios órgãos regulatórios agilizaram o fluxo de trabalho burocrático, de modo que a análise de diferentes documentos ocorresse simultaneamente com a condução dos testes clínicos — a chamada “análise contínua”. A partir do momento que haviam dados suficientes para demonstrar segurança e eficácia, os produtos foram devidamente aprovados.

Para João Paulo Viola, imunologista do Inca, imaginar que as vacinas foram criadas “do nada” em menos de um ano é uma ilusão, pois ignora o fato de que as tecnologias usadas hoje foram geradas a partir de décadas de avanços científicos. “É verdade que as vacinas contra a covid-19 foram desenvolvidas em poucos meses”, comenta o especialista, “mas a tecnologia já vem sendo trabalhada há muitos anos.”

Esse boato também foi desmentido pela AFP Checamos.


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