‘Tratamento precoce’ de covid-19 citado por enfermeiro em vídeo não tem respaldo científico
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‘Tratamento precoce’ de covid-19 citado por enfermeiro em vídeo não tem respaldo científico

Não há estudos científicos que comprovem a eficácia de hidroxicloroquina, ivermectina, azitromicina, zinco e vitamina D contra o novo coronavírus

Victor Pinheiro, especial para o Estadão

08 de dezembro de 2020 | 16h03

Em vídeo com mais de 2,4 milhões de visualizações no Facebook, um enfermeiro recomenda a adoção de “tratamento precoce” contra a covid-19 com hidroxicloroquina, ivermectina, azitromicina, zinco e vitamina D. Diversos estudos já mostraram que esses medicamentos não funcionam no controle do coronavírus. Até o momento, não existe nenhum tratamento comprovadamente eficaz contra a doença. Nem a Organização Mundial de Saúde (OMS) nem a Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa) recomendam o uso dos remédios citados.

O enfermeiro que aparece no vídeo, Anthony Ferrari Penza, já foi desmentido em outras três ocasiões pelo Projeto Comprova — coalizão de veículos de imprensa da qual o Estadão Verifica faz parte. Em uma delas, afirmou que um médico morreu por complicações da vacina de Oxford, o que é falso; o enfermeiro também disse que Etiópia e Austrália recomendam o uso de ivermectina, o que não é verdade; Penza chegou até mesmo a acusar governos estaduais e municipais de venderem corpos de vítimas da covid-19. Após a divulgação desse último vídeo, o Conselho Regional de Enfermagem do Rio de Janeiro abriu um procedimento administrativo para apurar a atuação de Penza.

Tratamento precoce de Covid-19 citado por médico em vídeo não tem respaldo científico

No vídeo analisado nesta checagem, o enfermeiro afirma ser importante recorrer a um “tratamento precoce” já na primeira fase da covid-19, que ele chama de fase viral. “Você teve todos esses sintomas (dor de cabeça, coriza, dor de garganta) você já precisa urgentemente começar a primeira fase do tratamento, que é um protocolo recomendado por vários médicos. Azitromicina, hidroxicloroquina, zinco e ivermectina. Tudo com recomendação médica tá?”, diz Penza na gravação.

Ao Estadão Verifica, o consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) Fábio Gaudenzi destaca que a covid-19 realmente apresenta uma fase de replicação viral no início da doença, mas pontua que ainda não foram identificados medicamentos eficazes para inibir a ação do vírus.

No vídeo, o enfermeiro diz ainda que a doença causada pelo novo coronavírus também se desenvolve em fases inflamatória e trombogênica; e chega a sugerir que “hoje existe cura” e que há tratamentos medicamentosos para cada etapa da infecção.

O infectologista Gaudenzi destaca que, assim como afirma Penza no vídeo, alguns corticoides são utilizados para modular a inflamação de pacientes em estado grave, e que esse procedimento foi adotado com base em respaldo científico. O médico da SBI diz ainda que em alguns casos o paciente pode desenvolver microtrombos, o que agrava bastante a doença. No entanto, diferentemente do que informa o enfermeiro, apenas o tratamento dos coágulos não é suficiente para resolver as complicações causadas pelo novo coronavírus.

Em resposta por telefone ao Estadão Verifica, o enfermeiro Anthony Ferrari disse que apenas informou sobre protocolos usados por colegas médicos — que segundo ele, são aplicados no mundo inteiro. Ferrari afirmou que não recomendou nenhum medicamento, apesar de falar no vídeo que o tratamento precoce é “importante” e “urgente”. Ele argumentou ainda que, embora não tenha comprovação científica de que os medicamentos funcionam, há evidências observacionais de médicos.

Acompanhamento precoce

De acordo com Gaudenzi, embora não existam medicamentos com eficácia comprovada para o tratamento precoce da covid-19, práticas não medicamentosas podem auxiliar no combate nos primeiros estágios da doença. O infectologista destaca a importância do acompanhamento clínico e da orientação do paciente desde o início dos sintomas, seja por visitas programadas a unidades de saúde ou por teleconferência.

“O paciente precisa ser identificado no início dos sintomas, precisa ser examinado e depois monitorado, para que no caso de qualquer mudança no seu quadro clínico ele possa ser reavaliado e submetido a condutas de fisioterapia respiratória, oxigenação ou mesmo, no momento certo, o uso do corticoide”, pontuou Gaudenzi ao Estadão Verifica.

Tratamento precoce com hidroxicloroquina é duvidoso

Embora presente no protocolo de manejo de pacientes com covid-19 do Ministério da Saúde, a aplicação da hidroxicloroquina no tratamento da doença não é indicada pela Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa). O órgão diz que ainda é arriscado afirmar que a substância vai funcionar no tratamento da doença e “não recomenda o uso indiscriminado do medicamento, sem a confirmação de que realmente funciona”, conforme o site da instituição

Caixa do remédio sulfato de hidroxicloroquina, conhecido como Reuquinol. Foto: Márcio Pinheiro/SESA

Em nota publicada em junho, a Sociedade Brasileira de Infectologia se opôs à recomendação da hidroxicloroquina para pacientes hospitalizados com covid-19. Sobre a aplicação do medicamento para tratamento nos primeiros dias da doença, em casos leves e moderados, a organização afirma que essa possibilidade ainda é avaliada e que se aguardam resultados de pesquisas científicas.

Documento

Um estudo clínico randomizado com 423 pacientes, publicado na revista científica Annals of Internal Medicine, concluiu que a hidroxicloroquina não reduz a severidade ou prevalência de sintomas em pacientes não hospitalizados com sintomas iniciais da covid-19. Os autores destacam, porém, que mais estudos são necessários para confirmar os resultados. 

Já uma pesquisa realizada na Bélgica com cerca de 8 mil participantes indicou uma redução da mortalidade por covid-19 em pacientes medicados com doses baixas da droga. Os próprios autores afirmaram em entrevista ao projeto Comprova, no entanto, que o trabalho não é suficiente para atestar a eficácia da hidroxicloroquina em qualquer estágio da doença. 

Ivermectina

A ivermectina apresentou potencial de inibir o novo coronavírus em testes em laboratório. Um estudo conduzido pela universidade australiana Monash University detectou a eliminação de 100% do microrganismo em experimentos in-vitro em 48h. Ainda não há, entretanto, evidências que comprovem que o mesmo resultado pode ser obtido no organismo humano. 

Diante da incerteza, a Anvisa publicou em julho uma nota contra a recomendação do uso indiscriminado do vermífugo. A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), por sua vez, “aconselha fortemente contra o uso de ivermectina para quaisquer outros propósitos diferentes daqueles para os quais seu uso está devidamente autorizado.”. 

A entidade diz em seu site que uma revisão de estudos publicados entre janeiro e maio de 2020 mostrou que os trabalhos apresentavam um alto risco de viés e as evidências existentes eram insuficientes para se chegar a uma conclusão sobre os benefícios e danos do medicamento. 

Para infectologista, o melhor a se fazer para combater a covid-19 é adotar medidas de prevenção da doença, como o uso de máscaras. Foto: Alex Silva/Estadão

Azitromicina

Também não há dados que sustentem o uso da azitromicina contra a covid-19 em qualquer fase da doença. O medicamento é um antibiótico com efeito antibacteriano e não age diretamente contra o vírus. Segundo o informe da Sociedade Brasileira de Infectologia, o benefício clínico do efeito “anti-inflamatório e imunomodulador” da azitromicina em pacientes com covid-19 ainda está por ser comprovado. 

Um estudo brasileiro publicado na revista Lancet em setembro indicou que a droga não acelera a melhora, nem reduz a mortalidade de pacientes em estado grave da doença. Outra pesquisa brasileira, publicada no New England Journal of Medicine, apontou que o antibiótico não apresentou resultados satisfatórios combinada a hidroxicloroquina no tratamento de pacientes com sintomas leves e moderados. 

Zinco e Vitamina D

No vídeo, Anthony Ferrari também aborda o uso de suplementos alimentares como zinco e a vitamina D. Segundo Fábio Gaudenzi, no entanto, nenhum trabalho conseguiu demonstrar que o uso de suplementação com essas substâncias reduz a possibilidade de pessoas contraírem a covid-19 ou apresentarem quadros mais graves da doença. 

O infectologista afirma que o engano tem origem em uma interpretação equivocada de trabalhos que sugerem que a deficiência de nutrientes pode estar associada ao desenvolvimento de sintomas mais graves da covid-19. Gaudenzi explica que a suplementação deve ser orientada somente a pessoas com carência dessas substâncias. 

“Pessoas com deficiências nutricionais têm um deficit global de imunidade. Só que o excesso de vitaminas também não ajuda. O ideal é estar em equilíbrio”, afirma o médico. “Esse equilíbrio vai manter o seu organismo com o melhor desempenho possível para enfrentar a doença, mas não quer dizer que você tem uma superimunidade, esteja superprotegido ou completamente imune ao novo coronavírus”, destaca. 

O consumo excessivo de vitamina D pode provocar danos à saúde, como explica este conteúdo ‘tira dúvidas’ do Estadão

A prevenção é o caminho

Para o médico infectologista, o fator decisivo em relação à covid-19 é a prevenção. Segundo ele, embora já se tenha conhecimento sobre os riscos associados a comorbidades e a idade avançada de pacientes, ainda não há como prever quem vai desenvolver quadros leves ou graves da doença. “É uma loteria que o melhor é não jogar”, afirma. 

Gaudenzi pontua que a covid-19 é uma doença multifatorial. “Hoje sabemos, por exemplo, que a carga viral a qual o paciente foi exposto é também um componente muito importante, por isso a importância de equipamentos de proteção e máscaras”. 

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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