Na CPI, Ernesto Araújo cita ao menos cinco alegações falsas sobre enfrentamento à covid
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Na CPI, Ernesto Araújo cita ao menos cinco alegações falsas sobre enfrentamento à covid

Ex-ministro das Relações Exteriores disse nunca ter feito 'declarações antichinesas', o que não é verdade

Alessandra Monnerat, Victor Pinheiro, Bianca Gomes e Pedro Prata

18 de maio de 2021 | 13h24

Atualizada às 17h30.

O ex-ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo foi ouvido nesta terça-feira, 18, na CPI da Covid. Durante o depoimento, ele negou ter feito “declarações antichinesas” — o que é falso. Veja a checagem de algumas de suas intervenções na CPI.

O ex-ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo. Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

“Jamais provoquei nenhum atrito com a China.”

“Não vejo nenhuma declaração que eu tenha feito como ‘antichinesa’.”

Em abril do ano passado, Araújo publicou um texto em seu blog intitulado “Chegou o Comunavírus” – termo pejorativo que associa a origem geográfica do vírus com o regime vigente na China. No texto, o ex-chanceler faz comentários sobre um livro de Slavoj Zizek e acusa o filósofo de ver na pandemia “uma imensa oportunidade de construir uma ordem mundial sem nações e sem liberdade”. O artigo denuncia um “jogo comunista-globalista de apropriação da pandemia”, que teria como objetivo “subverter completamente a democracia liberal e a economia de mercado, escravizar o ser humano e transformá-lo em um autômato desprovido de dimensão espiritual, facilmente controlável”. 

Em março de 2020, em um episódio de conflito direto com a China, o ex-chanceler saiu em defesa de Eduardo Bolsonaro após o filho do presidente republicar uma mensagem no Twitter que culpava o país asiático pela pandemia. Na ocasião, o perfil oficial da embaixada chinesa protestou contra o deputado e disse que ele havia contraído “vírus mental”. O então chanceler classificou a reação da embaixada de “desproporcional”, disse que feriu “a boa prática diplomática” e pediu retratação por parte do embaixador, Yang Wanming, que ignorou a sugestão. 

“O Brasil foi o primeiro país que recebeu vacinas exportadas pela Índia.”

É falso. Em janeiro, a Índia anunciou que exportaria material para produção de vacinas para seis países; o Brasil não estava nessa lista inicial. De acordo com comunicado do dia 19 daquele mês, o Ministério das Relações Exteriores da Índia dizia estar fornecendo o material para Butão, Maldivas, Bangladesh, Nepal, Mianmar e o arquipélago de Seicheles. Os países onde os trâmites legais ainda estavam em andamento são Sri Lanka, Afeganistão e as Ilhas Maurício. 

Naquela data, o governo brasileiro tentava importar vacinas da Índia, mas as negociações estavam travadas, de acordo com o então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello. O Brasil chegou a preparar um avião para buscar 2 milhões de doses, mas não recebeu um “ok” do lado indiano. Especialistas consultados pelo Estadão na época apontaram que o País estava isolado diplomaticamente.

Apenas no dia 21, o embaixador da Índia em Brasília, Suresh Reddy, confirmou que seu país tinha liberado a exportação de doses para o Brasil. Marrocos também receberia vacinas indianas. As doses chegaram em solo brasileiro no final do dia 22.

“Jamais fui contra (o consórcio), o Itamaraty esteve atento desde abril de 2020. Assim que o Covax tomou forma, em julho, assinei carta para o gestor do consórcio dizendo que o Brasil tinha interesse em entrar. O contrato ficou pronto em setembro e assinamos naquele momento.”

A primeira reunião da Organização Mundial de Saúde para criação do consórcio Covax Facility de distribuição de vacinas ocorreu em abril de 2020 O Brasil não participou dessa tratativa inicial. Dos 11 países presentes na reunião, o único representante das Américas era a Costa Rica.

A OMS divulgou no final de agosto que o Brasil havia manifestado interesse em entrar no consórcio. Na ocasião, eram 80 os países na lista para participação do Covax Facility. Em setembro, o governo brasileiro anunciou a adesão ao Instrumento de Acesso Global a Vacinas; isso foi formalizado em março de 2021.

“Em relação à hidroxicloroquina (doada pelos Estados Unidos), a ação correspondeu a uma necessidade real de suprir o sistema de saúde brasileiro desse medicamento, que é utilizado para várias doenças. Portanto, nada de ideológico.”

O ex-chanceler deu a entender que a doação de medicamentos não tinha relação direta com a covid-19, o que não é verdade. Os Estados Unidos doaram 2 milhões de comprimidos de hidroxicloroquina para o governo brasileiro em maio de 2020. Na ocasião, o chanceler escreveu em sua conta oficial no Twitter que a doação fazia parte da “Cooperação Brasil-EUA no combate à covid-19” e que o Brasil trabalharia “com os EUA na pesquisa clínica da hidroxicloroquina e no desenvolvimento de uma vacina”.

Em nota oficial, o Itamaraty informou que a hidroxicloroquina seria usada “como profilático para ajudar a defender enfermeiros, médicos e profissionais de saúde do Brasil contra o vírus. Ela também será utilizada no tratamento de brasileiros infectados”.

Como o Estadão Verifica já mostrou, a hidroxicloroquina não possui efeito contra a covid-19. Apesar disso, foi defendida como tratamento contra o coronavírus pelo presidente Jair Bolsonaro e pelo presidente Donald Trump. No entanto, a doação da hidroxicloroquina só foi possível porque na época os estudos já mostravam a ineficácia e os hospitais dos Estados Unidos pararam de requisitá-lo ao governo.

Em março, o Estadão mostrou que milhões dos comprimidos estão encalhados em um depósito do Ministério da Saúde. Já os municípios que receberam grandes quantidades da hidroxicloroquina usaram uma pequena parte e querem devolver o restante.

“Expressei aquilo que praticamente todos os brasileiros percebem como a realidade. Na prática, a autoridade para implementar medidas, sobretudo de organização social, distanciamento ou não, compete aos governos estaduais.”

A informação é falsa. O ex-chanceler reiterou uma alegação que havia feito no ano passado, quando disse que o Supremo Tribunal Federal teria retirado do presidente Jair Bolsonaro a responsabilidade por medidas de combate à pandemia. Como o Estadão Verifica já mostrou, o STF reconheceu a legitimidade concomitante de Estados, municípios e da União no enfrentamento da covid-19.

Na ocasião, o ex-chanceler fez um post em inglês no qual rebatia uma reportagem da emissora norte-americana CNN e disse que “após uma decisão da Suprema Corte de abril de 2020, na prática, governadores passaram a ter toda a autoridade para estabelecer medidas de distanciamento social”.

Ernesto Araújo foi rebatido no Twitter pelo ministro Gilmar Mendes, do STF, que disse que “a Suprema Corte decidiu que a União, Estados e municípios têm autoridade para adotar medidas de distanciamento social. Todos os níveis de governo são responsáveis pelo desastre que estamos enfrentando.”

Na CPI, o ex-chanceler alegou que deu sua opinião sobre a repercussão “na prática” da decisão judicial, não interpretação literal da decisão do STF.

Estadão Verifica tenta contato com a assessoria de Ernesto Araújo. O espaço está aberto.

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