Médico distorce informações sobre efeitos colaterais da CoronaVac

Médico distorce informações sobre efeitos colaterais da CoronaVac

De acordo com Instituto Butantan, apenas 0,03% dos voluntários chineses que receberam imunizante tiveram reações adversas como perda de apetite, dor de cabeça e cansaço

Gabi Coelho, especial para o Estadão, e Tiago Aguiar

28 de outubro de 2020 | 18h05

Não é verdade que efeitos colaterais da CoronaVac possam ser piores do que a própria covid-19. A alegação falsa foi feita pelo neurocirurgião Paulo Porto de Melo em entrevista ao programa Pânico, da Jovem Pan. Ele fazia comentários sobre o imunizante contra coronavírus produzido pela farmacêutica chinesa Sinovac e pelo Instituto Butantan, testado em São Paulo. De acordo com as informações sobre a vacina disponíveis até o momento, reações adversas mais graves, como perda de apetite, dor de cabeça e cansaço, foram observados em apenas 0,03% dos 50 mil voluntários chineses que receberam o imunizante.

As informações sobre efeitos colaterais foram divulgadas pelo diretor do Butantan, Dimas Covas, em coletiva de imprensa feita pelo governo de São Paulo, no dia 23 de setembro. De acordo com ele, os 9 mil voluntários que participaram dos testes com o imunizante no Brasil não tiveram sintomas adversos significativos após sete dias de acompanhamento.

Todas (as outras vacinas testadas no mundo) tiveram efeitos colaterais grau três, que são os mais importantes. A vacina do Butantan não teve”, disse Covas. “Febre é outro indicativo importante, e na do Butantã foi de apenas 0,1%. Em febre acima de 38 graus, foi zero. É a vacina mais segura neste momento, não só no Brasil, mas no mundo”. 

Ainda segundo o diretor do Butantan, os efeitos colaterais registrados foram apenas dores na região em que a vacina foi aplicada, febre, dor muscular, fadiga e calafrios. Essas reações são consideradas comuns por profissionais da saúde. Segundo dados do instituto, a incidência de eventos adversos entre os voluntários brasileiros foi de 35%. Em quatro vacinas testadas no Brasil — Moderna, Pfizer/BioNTech, AstraZeneca e CanSino — esse índice foi de cerca de 70%, afirma o Butantan.

Durante a entrevista ao programa Pânico, o neurocirurgião compara de forma incorreta dados de letalidade da covid-19 e efeitos colaterais da vacina em teste. Ele indica que um estudo publicado em outubro, produzido por um pesquisador da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, aponta que a doença causada pelo coronavírus mata menos de 1%. Já o índice de voluntários chineses que testaram a vacina do Sinovac e apresentaram efeitos colaterais adversos foi de 5,36%.

Documento

O que não fica claro pela fala do médico é que nenhum dos voluntários que recebeu a vacina na China morreu. Além disso, apenas 0,03% dos chineses que participaram do teste tiveram reações consideradas mais graves, como perda de apetite, dor de cabeça e fadiga.

De acordo com o virologista Flávio Guimarães da Fonseca, do Centro em Tecnologia em Vacinas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a vacina produzida em parceria pela Sinovac e pelo Butantan usa o vírus inativado. É a mesma estratégia usada nos imunizantes de tétano, coqueluche, ACWYB, pneumocócica, hepatites A e B, gripe e HPV. 

“Uma vez que o vírus está morto não tem nenhuma possibilidade de desenvolver problemas de ordem patológica, mais severa, que se tenha notícia, que seja cientificamente conhecido”, comentou o virologista.

Na entrevista da Jovem Pan, o neurocirurgião Paulo Porto de Melo também distorce dados publicados pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos. Ele afirma que o órgão do governo dos Estados Unidos contabilizou mais de 200 mil óbitos e concluiu que apenas 6% dos casos eram mortes por covid-19. Na realidade, porém, o que o CDC divulgou foi que, entre as mortes causadas pela coronavírus, apenas 6% não estavam relacionadas a outras comorbidades.

“Em 94% das mortes por covid-19, outras condições foram detectadas para além dela. Estas condições vão desde doenças crônicas, como diabetes e hipertensão, até condições agudas que ocorreram como consequência da covid-19, como pneumonia e insuficiência respiratória”, informou o CDC ao Estadão Verifica em setembro.

Em setembro, o CDC publicou um levantamento que estimou que, em pessoas de 0 a 19 anos, a letalidade da covid-19 é de 0,002%. Em maiores de 70 anos, esse índice pode chegar a 9,3%. 

Quem é Paulo Porto de Melo

O médico neurocirurgião possui uma atuação ativa nas redes sociais. Sua página no Facebook contabiliza mais de 60 mil curtidas, na qual ele compartilha análises pessoais dos últimos números e notícias sobre a pandemia. 

Na última segunda-feira, 27, Paulo Porto de Melo divulgou um texto em sua página que faz críticas às agências de checagem que esclareceram os dados apresentados de forma distorcida por ele no programa Pânico. A Agência Lupa e o Aos Fatos também checaram as falas do neurocirurgião. 

Estadão Verifica entrou em contato com o médico, mas não obteve resposta.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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