Frase de prêmio Nobel de Economia com elogios ao Brasil é de 2014
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Frase de prêmio Nobel de Economia com elogios ao Brasil é de 2014

Postagem do PT para defender Dilma Rousseff é usada por bolsonaristas para enaltecer governo atual

Pedro Prata

14 de julho de 2021 | 17h53

Circula em grupos bolsonaristas uma montagem que coloca lado a lado posicionamentos da comentarista Miriam Leitão, da GloboNews, e de Paul Krugman, prêmio Nobel de Economia, como se fossem atuais. Na verdade, essa montagem foi postada inicialmente pelo perfil do Partido dos Trabalhadores, em 2014, para defender o governo de Dilma Rousseff.

A imagem traz uma fala de Leitão dizendo que “Brasil tem uma economia diversificada e complexa e está com vários problemas por erros de decisão, de gestão e de política econômica do governo”. Por outro lado, Krugman teria dito que “o Brasil saiu da crise mundial muito bem e não se justificam preocupações com a sua economia”.

A intenção das postagens é atacar a atuação profissional de Miriam Leitão. Ela é colocada como “pessimista”, ao passo que Paul Krugman é apresentado como “especialista”.

Miriam Leitão e Paul Krugman disseram as frases, mas em 2014. Foto: Reprodução

O Estadão Verifica buscou as frases no Google e identificou que as duas realmente foram ditas por essas pessoas. No entanto, são de março de 2014.

Leitão publicou sua opinião em sua coluna no jornal O Globo do dia 12 daquele mês: “Conversa inútil”. Na ocasião, ela comentava uma reunião do então ministro da Fazenda Guido Mantega com 21 empresários para “reduzir insatisfações” com a condução da economia. Miriam avaliava que ele “teria dificuldade” porque as grandes empresas estavam insatisfeitas com aumentos na carga tributária como um todo e com o aumento no preço da energia elétrica. Miriam ainda criticou o que considerava ser uma postura mais favorável a um pequeno grupo de ramos industriais em detrimento de outros.

Ela disse: “A economia é bem mais do que 21 famosos empresários. Vários deles têm livre trânsito no governo. O Brasil tem uma economia diversificada e complexa e está com vários problemas por erros de decisão, de gestão e de política econômica do governo. Tudo o que se consegue com uma conversa assim é ouvir os pedidos específicos de cada empresa.”

Já Krugman deu sua avaliação quase uma semana depois, no dia 18, em evento ao qual o Estadão teve acesso. Em sua visão à época, o Brasil teria deixado de “ser vulnerável”. Ele fazia um contraponto a avaliações de especialistas internacionais que colocavam o País num grupo de “países frágeis”.

“O Brasil tem um desempenho muito bom da economia, em meio à crise internacional”, falou Krugman. “Há maior confiança no País e de que a política fiscal será mais responsável.”

Reprodução do ‘Estadão’ de 19 de março de 2014

Enquanto Miriam Leitão se referia à confiança do empresariado nacional com os rumos do governo, Paul Krugman comentava a percepção internacional. Ele ainda citou a dívida externa e a possibilidade de o País ver enfraquecer as suas exportações de commodities por causa de uma possível desaceleração da economia chinesa na época.

Petistas publicaram a fala de Krugman

No mesmo dia da publicação da entrevista, a presidente Dilma Rousseff postou os comentários positivos de Krugman. “Enquanto os pessimistas de plantão tentam convencer a população de que o Brasil vive uma crise econômica de grandes proporções, quem entende mesmo do assunto diz outra coisa”, escreveu a presidente.

Na mesma época, a montagem comparando a fala de Krugman e de Leitão foi compartilhada pela página do Partido dos Trabalhadores (PT) e apoiadores de Dilma Rousseff.

Bolsonaristas resgatam a montagem

Essa é a montagem que volta a circular em 2021. Desta vez, páginas de apoiadores do presidente Jair Bolsonaro espalham a peça sem citar o período a que se referem. Isso leva os seguidores a achar que os comentários são recentes e muitos fazem ataques à comentarista da Globo e à emissora.

A montagem foi alterada para incluir comentários pejorativos como “vigarista” direcionados a Miriam Leitão, alvo constante de campanhas de desinformação. Ela já foi falsamente acusada de ter assaltado um banco em São Paulo durante a ditadura militar, embora na época tivesse apenas 15 anos e morasse em Minas Gerais.

O Estadão Verifica também já mostrou que ela nunca recebeu pensão para anistiados da ditadura.

Esse conteúdo também foi checado por Boatos.org.


Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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