Ex-senador espalha desinformação sobre acordo de produção de vacina contra o novo coronavírus no Brasil
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Ex-senador espalha desinformação sobre acordo de produção de vacina contra o novo coronavírus no Brasil

Magno Malta diz que China teria 'potencializado' o vírus em laboratório e 'soltado pro mundo'

Pedro Prata

31 de julho de 2020 | 20h36

O ex-senador Magno Malta gravou um vídeo viral com desinformação sobre a vacina contra o novo coronavírus produzida pela farmacêutica chinesa Sinovac. Ele faz alegações falsas sobre a parceria de produção com o Instituto Butantan e sobre a disseminação da doença no mundo. O vídeo postado por Magno Malta foi republicado por outros usuários do Facebook. Uma destas publicações foi vista 327 mil vezes e recebeu 13 mil compartilhamentos em uma semana.

O Estadão Verifica checa publicações virais sobre a pandemia de covid-19. As informações falsas enfraquecem a confiança da população em instituições e autoridades médicas. Isso pode dificultar os esforços oficiais no combate da doença ao desencorajar as pessoas a seguir medidas importantes, como a adesão a uma eventual campanha de vacinação.

“Segundo o noticiário, o governador de São Paulo fez uma aliança, um acordo, e segundo alguns até o Instituto Butantan foi entregue para a China”, diz Malta. Ele não informa quem teria dito que o governo de São Paulo teria entregado o Instituto Butantan para a China, mas a informação não está correta.

Acordo permitirá produção nacional de imunizante. Foto: Gabriela Biló/Estadão

Em 11 de junho, o governador João Doria (PSDB) anunciou parceria de produção da vacina — batizada de Coronavac — entre a farmacêutica privada Sinovac e o laboratório público Instituto Butantan. O Estado de São Paulo custeará os testes clínicos em solo brasileiro coordenados pelo Butantan, no valor de R$ 85 milhões.

Inicialmente, o laboratório chinês enviará 60 milhões de doses para São Paulo, mas o acordo assinado entre o governador e a farmacêutica Sinovac permite a transferência de tecnologia. Isso é importante porque, em caso de eficácia e segurança, o Instituto Butantan poderá produzir o imunizante em escala industrial para fornecer à população de forma gratuita por meio do Sistema Único de Saúde (SUS).

Vacina foi testada primeiro na China

“A vacina vai ser testada nos brasileiros. Por que não é aplicada neles mesmos, para depois vender pro mundo? Por que tem que ser aplicada em nós?”, indaga o ex-senador. Na verdade, o imunizante produzido pela Sinovac já passou por testes na China.

Uma vacina precisa passar por muitos estágios de desenvolvimento. Primeiro, é necessário identificar o agente causador da doença e a forma como ele entra na célula humana. No caso da Sinovac, os pesquisadores infectaram células humanas em laboratório. Com isso, puderam isolar e pegar fragmentos do coronavírus para colocar na vacina. Estes fragmentos não têm capacidade de causar uma infecção, mas são suficientes para que o corpo crie anticorpos para reconhecê-lo e combatê-lo.

Após obter a vacina, ela é testada primeiro em cobaias animais para avaliar sua segurança. Somente após isso é que ela passa para a fase de testes em humanos, dividida em três etapas. A primeira fase conta com um grupo restrito de voluntários. Na segunda fase, este número de voluntários aumenta. Somente na terceira é que a vacina é testada em um amplo grupo de pessoas. Elas são acompanhadas para testar os efeitos colaterais e a resposta imunológica gerada pela vacina.

A Sinovac passou por duas fases de testes em voluntários chineses antes de vir para o Brasil. A primeira contou com 144 voluntários e a segunda, 600. No Brasil, ela será testada em 9 mil voluntários. Caso seja eficaz, deverá receber um registro da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Esta não é a única vacina em teste no Brasil. Em junho, o Ministério da Saúde anunciou acordo para importação da tecnologia do imunizante desenvolvido pela Universidade de Oxford e pelo laboratório AstraZeneca. Neste caso, os estudos com dois mil voluntários brasileiros estão sendo liderados pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O Grupo Fleury fornece cerca de 2 mil exames de diagnóstico da covid-19 do tipo sorológico, utilizado para detectar o desenvolvimento de anticorpos contra o coronavírus, durante a seleção de candidatos.

Dados da Universidade John Hopkins mostram que o Brasil acumula 2.662.485 casos confirmados de covid-19 e 92.475 óbitos nesta sexta-feira, 31. O cenário de contaminações diárias no País, que se mantém em alta, gera cenário propício para o teste da vacina, explica Celso Granato, infectologista e diretor clínico do Grupo Fleury. “Nesse contexto, a realização de estudos de testes de vacina se torna vantajosa, uma vez que grande parte da população ainda não desenvolveu imunidade contra o novo coronavírus.”

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, há 165 vacinas em desenvolvimento em todo o mundo: 26 estão em fase clínica e 139 em pré-clínica. Veja o monitor de vacinas do Estadão. 

Estudo indicou origem natural do vírus

Magno Malta ainda confunde ao dizer que a China potencializou o vírus em laboratório e depois “soltou para o mundo”. Este boato surgiu no início da pandemia e é resgatado com frequência nas redes sociais. Em abril, circulou a informação de que o Nobel de Medicina Tasuku Honjo teria dito que o novo coronavírus foi criado em laboratório, mas o próprio cientista negou que tenha feito essa afirmação.

O Estadão Verifica já mostrou que um estudo conjunto de Reino Unido, Estados Unidos e Austrália indicou que o novo coronavírus tem origem natural. Para isso, os cientistas analisaram a estrutura genética do SARS-CoV-2. Caso fosse feito em laboratório, sua estrutura seria semelhante à de outros vírus da mesma família. No entanto, “as informações genéticas mostram de maneira irrefutável que o SARS-CoV-2 não é derivado de nenhuma estrutura central de vírus usada anteriormente”, informou a pesquisa.

Outro ponto sobre o qual os cientistas se debruçaram foi a forma como o vírus “se agarra” às paredes externas das células. Segundo eles, o novo coronavírus faz isso de forma tão eficaz que é possível concluir que ele a desenvolveu a partir da seleção natural, não de engenharia genética.

Assim, os cientistas levantaram duas hipóteses: o novo coronavírus pode ter evoluído para seu estado atual em hospedeiros animais antes de passar para humanos; ou pode ter infectado humanos e só então ter desenvolvido suas características atuais.

Outro lado

Questionado sobre o vídeo com alegações falsas, o Instituto Butantan comunicou em nota que “é completamente descabida a afirmação do ex-senador Magno Malta”. A entidade informou ainda ser referência na produção de vacinas e que domina a tecnologia utilizada no imunizante em questão. “Além disso, conta com parceria de uma rede de centros de pesquisas com estrutura estabelecida para a realização dos testes em voluntários, tendo em vista que o país passa por um momento epidemiológico favorável para a realização do estudo.”

Estadão Verifica tentou contato com Magno Malta, mas não obteve resposta até a publicação desta checagem. /COLABOROU ALESSANDRA MONNERAT

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: