Postagem engana ao chamar enquete em site de ‘verdadeira pesquisa que a mídia não mostra’

Postagem engana ao chamar enquete em site de ‘verdadeira pesquisa que a mídia não mostra’

Levantamentos em sites e redes sociais não possuem metodologia científica e não são representativos de todo o eleitorado

Pedro Prata

05 de maio de 2022 | 18h49

Uma postagem engana ao dizer que “Qualquer pesquisa ou enquete que não seja comprada, só dá (Jair) Bolsonaro”. O post divulga o link de uma enquete de internet na qual o atual presidente aparece como favorito em todos os Estados para as eleições 2022. Enquetes não seguem uma metodologia científica e não refletem a opinião do eleitorado, ao contrário de pesquisas eleitorais. O conteúdo analisado já foi compartilhado ao menos 18 mil vezes no Facebook.

Enquete é compartilhada para desacreditar resultado de pesquisas eleitorais. Foto: Reprodução

As pesquisas eleitorais feitas por grandes institutos seguem uma metodologia para que seu grupo de entrevistados seja representativo da população brasileira em termos de renda, sexo e idade, entre outros fatores demográficos. Isso quer dizer que o resultado obtido pode ser extrapolado, por amostragem, a todo o eleitorado brasileiro.

Por outro lado, as enquetes em redes sociais ou canais de televisão não fazem esse tipo de controle. Se o link da enquete for compartilhado em grupos de apoio de um único candidato, a pesquisa apresentará resultado desproporcionalmente favorável a ele. Outra diferença é que as enquetes dependem da participação espontânea dos respondentes. Elas servem para indicar a opinião apenas do grupo de pessoas que respondeu ao questionamento.

A produção e a divulgação de pesquisas eleitorais estão sujeitas à fiscalização da Justiça Eleitoral. Toda pesquisa em ano eleitoral precisa estar registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). As empresas realizadoras devem informar o contratante da pesquisa, o valor e a origem dos recursos utilizados; a metodologia e o período de sua realização; o questionário aplicado; o nome do estatístico responsável; e o local em que o levantamento será realizado.

A divulgação de pesquisa fraudulenta constitui crime. Partidos políticos, candidatos, coligações e o Ministério Público possuem legitimidade para pedir a impugnação do registro ou da divulgação de uma pesquisa.

Levantamento do Estadão Dados com pesquisas eleitorais mostra que Lula leva vantagem em 15 Estados e Bolsonaro, 8. Em quatro Estados, a distância entre os dois é pequena e não permite apontar favoritismo.

Site avisa sobre enquete

A postagem divulga o link da página “Eleições ao vivo”, onde é feita uma enquete em tempo real para presidente e na qual Jair Bolsonaro aparece como favorito. No entanto, o próprio site informa que “ENQUETE NÃO É PESQUISA. Enquete não possui valor científico e não pode ser confundida com pesquisa eleitoral.”

Site traz aviso que enquetes não possuem o mesmo valor que uma pesquisa eleitoral. Foto: Reprodução

O link “Saiba mais” direciona para uma busca no Google com os termos “diferença entre enquete e pesquisa”. O primeiro resultado mostrado é uma página explicativa do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre a diferença entre pesquisa e enquete.

Mesmo com o aviso no site informando se tratar de uma enquete sem método científico, os comentários na postagem mostram que muitos usuários acreditam se tratar de uma pesquisa. “Se as pesquisas fossem sérias, esta seria a verdadeira pesquisa”, escreveu uma usuária. Outro repercute uma teoria da conspiração de que as pesquisas eleitorais seriam um pretexto para que os adversários de Jair Bolsonaro consigam fraudar as eleições: “Se eles conseguirem fraudar, aí dizem que já estavam liderando as pesquisas.”

Não confie em boatos de redes sociais. A Justiça Eleitoral possui páginas onde tira as principais dúvidas da população sobre o processo eleitoral.

O Estadão Verifica já mostrou ser falso que o TSE estivesse cancelando o título de eleitor de pessoas com mais de 70 anos. Também desmentiu que o aplicativo e-título, da Justiça Eleitoral, pudesse espionar os usuários.


Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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