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Em vídeo viral, médica contraria principais entidades de saúde ao afirmar que existem evidências para ‘tratamento precoce’

Organização Mundial da Saúde desaconselha a administração de medicamentos como ivermectina e hidroxicloroquina para covid fora de ensaios clínicos

Victor Pinheiro, especial para o Estadão

21 de abril de 2021 | 18h32

É enganoso afirmar que já existem evidências suficientes para o uso do chamado “tratamento precoce” contra a covid-19, como sugere a médica Helen Brandão em post viral no Instagram. Entidades internacionais de saúde desaconselham ou não recomendam a administração de ivermectina, hidroxicloroquina e outros remédios citados pela autora no combate à infecção do novo coronavírus.

Diferentemente do que Brandão sugere, a eficácia e a segurança de tratamentos com essas substâncias para combater o coronavírus ainda permanecem incertas. Embora existam trabalhos  que indiquem potenciais benefícios de algumas dessas drogas, há problemas em sua metodologia, e os níveis de confiança das evidências são limitados. No caso da hidroxicloroquina, estudos de larga escala já demonstraram a ineficácia do remédio contra a covid-19.

A médica contesta no vídeo a exigência de evidências “1A” para que entidades de saúde recomendem terapias contra a covid-19. A nomenclatura 1A remete ao maior grau de confiança de um ranqueamento proposto pelo Centro de Medicina Baseada em Evidências da Universidade de Oxford, no Reino Unido. Significa dizer que uma revisão sistemática de múltiplos ensaios clínicos randomizados confirmou a eficácia de um tratamento.

Ensaios clínicos randomizados são pesquisas que buscam testar a validade de uma terapia ao administrá-la a pelo menos dois grupos diferentes: um formado por pessoas que não vão receber tratamento nenhum (o grupo controle) e outro composto pelos pacientes que vão usar o medicamento testado. Os participantes dos dois grupos devem ser escolhidos aleatoriamente, para diminuir a chance de vieses na análise (daí o nome “randomizado”).

Brandão defende que há tratamentos para outras finalidades que não são sustentados pelos maiores níveis de evidência. Para o médico infectologista do Instituto Emílio Ribas Jamal Suleiman, no entanto, o discurso da médica busca desviar o foco sobre a falta de embasamento do tratamento precoce. “Esse nem deveria ser um ponto em discussão”, afirmou. “As melhores evidências já mostraram que a hidroxicloroquina não é eficaz e pode até aumentar o risco de morte de pacientes hospitalizados.” 

Em resposta ao Estadão Verifica, Helen Brandão reafirmou o seu posicionamento e enviou artigos que, segundo ela, sustentam seus argumentos sobre a hidroxicloroquina e a ivermectina. Os trabalhos, porém, não são suficientes para comprovar a eficácia dos medicamentos. Ela sugeriu que a Organização Mundial da Saúde (OMS), os Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH) e a Anvisa não têm credibilidade e acusou o jornal de propagar “desinformação, ideologia política e falta de responsabilidade civil”. 

Ivermectina não é recomendada por principais entidades de saúde do mundo

Em março, a Organização Mundial da Saúde divulgou nota contra o uso da ivermectina para a doença fora de estudos clínicos. A instituição afirmou que as evidências disponíveis até o momento são inconclusivas. A Agência Europeia de Medicamentos (EMA) também se posicionou de forma semelhante e afirmou que os dados disponíveis, a favor e contra o tratamento, contêm muitas limitações. 

A recomendação original de uso da ivermectina presente em bula é voltada para tratamento de infecções causadas por parasitas Foto: Prefeitura de Itajaí

O painel de evidências dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos também aponta a falta de dados confiáveis para apoiar o tratamento. Já a FDA, agência regulatória americana equivalente à Anvisa, alertou que o uso indiscriminado do vermífugo pode ser perigoso. A Merck, fabricante global do medicamento, mas que não comercializa o produto no Brasil, destacou preocupação com a falta de dados de segurança do uso da ivermectina aplicada à covid-19 nos estudos clínicos. 

Questionada pelo Estadão, Helen Brandão enviou um trabalho publicado na revista Pharmacological Reports que analisa resultados de mortalidade de seis estudos clínicos randomizados, com o total de 658 pacientes no grupo que recebeu a droga e outros 597 no grupo de controle. Os resultados indicam um potencial benefício do medicamento, mas os próprios autores do trabalho alertam que a análise “é limitada pelo número reduzido de pacientes e um risco significativo de viés na maioria dos estudos randomizados inclusos”. 

O próprio estudo contradiz a médica. “Uma vez que os benefícios da ivermectina reportados ainda são preliminares, nós sugerimos que a ivermectina seja de preferência administrada em condições de estudos clínicos até que [os benefícios] sejam confirmados por ensaios clínicos randomizados de grande escala mais conclusivos”, dizem os pesquisadores.

Hidroxicloroquina

Protocolos com hidroxicloroquina e cloroquina no combate ao novo coronavírus também não têm respaldo de agências internacionais de saúde. O guia de evidências da OMS se posiciona contra o uso das duas substâncias, isoladas ou associadas com outros medicamentos, no tratamento da covid-19. 

De acordo com o documento, as principais evidências indicam que os remédios provavelmente não oferecem benefícios na redução da mortalidade ou das chances de pacientes precisarem de respiradores. Os Institutos Nacionais de Saúde dos EUA também se posicionam contra o protocolo. 

Vale ressaltar que a FDA chegou a autorizar o uso emergencial das drogas nos Estados Unidos, mas revogou a permissão em junho de 2020, após considerar improvável que os remédios sejam eficazes no tratamento da covid e que eventuais benefícios não superam os riscos de possíveis efeitos colaterais graves. A agência chegou a divulgar um alerta sobre os riscos de eventos adversos cardíacos dos antimaláricos. 

Caixa do remédio sulfato de hidroxicloroquina, conhecido como Reuquinol. Foto: Márcio Pinheiro/SESA

Em resposta ao Estadão, Helen Brandão enviou um estudo publicado em novembro na revista New Microbes and New Infections. Trata-se de uma metanálise que aponta potenciais benefícios da droga no tratamento da covid-19. Ela diz que, por ser uma metanálise, o trabalho representa o “mais alto nível de evidência científica”, o que não é verdade, uma vez que a pesquisa mistura diferentes tipos de estudos.

O artigo apresenta uma série de limitações já observadas em outras análises semelhantes. Um exemplo é a atribuição do mesmo peso a trabalhos de estruturas e qualidades diferentes, como estudos observacionais e ensaios clínicos randomizados. Há até mesmo uma carta aberta de um médico americano entre os estudos considerados “positivos” sobre o tratamento.

[A análise] mistura trabalhos com tratamentos diversos, em muitos faltam controles”, diz a microbiologista clínica Fabiana Brandão, professora do Departamento de Farmácia da Universidade de Brasília (UnB) e membro do comitê científico da Associação de Biomédicos do Distrito Federal.

Fabiana destaca ainda que as três melhores publicações listadas na metanálise, publicadas em revistas renomadas da área médica e revisadas por pares, não apontam a eficácia da ivermectina. Além disso, os autores ainda incluem no rol de pesquisas favoráveis ao medicamento estudos que não encontraram diferenças estatisticamente significativas para afirmar o benefício da droga. 

Vitamina D, zinco

Outra substância citada por Helen Brandão no vídeo, a vitamina D também não tem benefícios comprovados na prevenção ou tratamento da covid-19. O NIH afirma que alguns estudos sugerem que a suplementação com o produto pode proteger contra infecções respiratórias, mas que o impacto da vitamina D sobre a doença causada pelo novo coronavírus ainda precisa ser esclarecido em testes clínicos randomizados. 

O painel do órgão de saúde americano conclui que não há dados suficientes para aconselhar contra ou a favor do uso do medicamento no contexto da covid. Por outro lado, o documento destaca que níveis muito altos da vitamina podem provocar efeitos adversos, como hipercalcemia (excesso de cálcio no sangue).

A mesma conclusão é atribuída ao uso do zinco, mas com um adendo: o NIH desaconselha a suplementação preventiva com doses acima do nível de consumo diário recomendado. Isso porque a suplementação de zinco a longo prazo pode levar a deficiência de cobre no sangue e provocar “manifestações neurológicas irreversíveis”. 

Proxalutamida e inibidores de ACE2

Helen Brandão ainda menciona o uso de bloqueadores andrógenos (hormônios masculinos), como a proxalutamida. O medicamento, que ainda não tem aprovação para nenhuma finalidade na Anvisa, foi testado por médicos americanos e brasileiros em um estudo em Manaus, no Amazonas. Os resultados, entretanto, ainda não foram detalhados em publicação científica. Uma reportagem do jornal O Globo mostrou que a pesquisa pode ter “falhas graves”, inclusive sobre aspectos éticos. 

O Estadão Verifica também desmentiu posts que recomendavam o uso da flutamida, que é da mesma classe de medicamentos da proxalutamida. O Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul ressaltou na ocasião que o uso inadequado do medicamento já provocou mortes no passado. Em relação a inibidores do receptor ACE 2, também há incertezas sobre os benefícios e a segurança da aplicação desse tipo medicamento no tratamento da covid. Diante da falta de evidências, o NIH aconselha contra o uso da substância fora de testes clínicos. 

Debate sobre as evidências 1A

Ao ser questionada pela reportagem, Helen Brandão citou dois artigos científicos para sustentar seu argumento de que há tratamentos recomendados por entidades médicas que não são sustentados por evidências de níveis de confiança avançados. 

Ela encaminhou um trabalho publicado na revista de medicina JAMA em 2019, o qual indica que menos de 10% das recomendações da Associação Americana de Cardiologia e 14% das recomendações da Sociedade Europeia de Cardiologia têm respaldo em evidências de múltiplos estudos clínicos randomizados. Os autores, no entanto, destacam que este é um sinal negativo sobre as recomendações clínicas dos órgãos analisados. 

“A evidência sólida de RCT (Estudos Clínicos Randomizados) delineia tratamentos e estratégias que conduzem a melhores resultados dos pacientes, que podem então ser implementados na prática clínica. Em contraste, na ausência de evidência de RCTs, a associação entre práticas clínicas e os resultados é menos precisa”, afirmam os pesquisadores. 

Também publicado na JAMA, em 2011, o outro estudo enviado pela médica aponta que somente 14% das diretrizes da Sociedade Americana de Doenças Infecciosas (IDSA) são baseadas em evidências de nível I, que contempla dados de estudos randomizados apropriadamente estruturados. 

As vacinas contra a covid-19 foram aprovadas por agências sanitárias após a conclusão de ensaios clínicos randomizados rigorosos. Foto: AP Photo/Gene J. Puskar

A pesquisa destaca que as diretrizes da organização são uma fonte confiável de informação, mas que em determinadas situações médicos devem ter um cuidado adicional com recomendações que não têm respaldo nesse nível de evidência. As diretrizes da IDSA aconselham contra o uso da hidroxicloroquina em pacientes hospitalizados e contra o tratamento com ivermectina para hospitalizados e não-hospitalizados.

“Ainda não temos nenhuma evidência 1A de medicamentos para a covid, porque ainda não temos uma medicação que efetivamente altera o curso da doença. O ponto central, no entanto, é que ela menciona produtos que, em uso rotineiro, além de não ter eficácia, podem fazer mal aos pacientes, como é o caso da flutamida”, afirma Jamal Suleiman.

Já Fabiana Brandão reforça que as afirmações de que esses fármacos [citados pela médica] são responsáveis por cura ou diminuição de carga viral não tem embasamento científico. “Não se trata de evidência 1A, mas sim de ausência de evidência científica que suporte a recomendação acadêmica-científica para uso clínico.”, pontua.

Observações clínicas

Ao Estadão, a médica ainda sugeriu que os resultados de experiências clínicas relatadas por médicos indicam a eficácia dos tratamentos citados por ela contra a covid. Brandão encaminhou um estudo ambulatorial com 900 pacientes nos Estados Unidos publicado na revista Reviews In Cardiovascular Medicine, mas o artigo também não é consistente para confirmar a eficácia dos remédios.

O estudo relata resultados clínicos de pacientes tratados com pelo menos dois dos medicamentos hidroxicloroquina, ivermectina e zinco; e um antibiótico, entre azitromicina, doxiciclina e ceftriaxona; além de corticóides, no caso de pacientes hospitalizados. A pesquisa indicou que, dos 320 pacientes com testes positivo para a covid e que receberam o tratamento, somente seis foram hospitalizados e um morreu.

Os autores, entretanto, não aplicaram um grupo de controle para comparar os dados do tratamento com os resultados de pacientes que não receberam o protocolo. Eles opinam que os benefícios devem ser confirmados por estudos clínicos randomizados, mas recomendam a adoção do tratamento mesmo assim.

Segundo Jamal Suleiman, relatos clínicos individuais não são válidos para atestar a eficácia de tratamento da covid. Ele argumenta que um médico até pode ter resultados positivos com o protocolo, mas não fica claro se o protocolo de fato mudou o curso da doença. “Não há problemas em testar hipóteses, mas isso deve ocorrer em ambientes controlados”, diz.

Outro lado

Em conversa por WhatsApp com o Estadão, Helen Brandão afirmou que “negar essas evidências [apresentadas por ela] é coisa de negacionista da ciência”. Ela acrescentou: “Tudo revisado e publicado. Com essa pressão estúpida, médicos com esses números incríveis que citei acima estão deixando de tratar pacientes. Faça você as contas e imagine um cenário no país todo com as pessoas sendo tratadas.”

A médica ainda propôs que o Estadão envie um repórter ao consultório dela para testar protocolos medicamentosos. 

“Já viu algum médico que receitou insulina para diabéticos ser chamado de ‘anti-ciência’ ou charlatão? Deveriam ser chamados assim, porque nunca houve um estudo ‘padrão ouro’ sobre a insulina.Você já tomou uma vacina anti-tetânica? Ela também não tem o ‘nível máximo’ de evidência. Devemos dizer que essa vacina foi sem base científica? Os teóricos da conspiração antivacina iriam ao delírio”, disse Helen. 

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